“Só a criatividade salvará o mundo”

“Só a criatividade salvará o mundo”

Sonia Racy

10 Outubro 2012 | 01h09

PAULO GIANDALIA/AE

Pouco antes do acordo na Justiça, que liberou o Grupo Allard, esta semana, a construir um “ trade art center” gigante no lugar do antigo Hospital Matarazzo (pelo qual pagou R$ 117 milhões), Alex Allard falou à coluna sobre seu sonho. Com direito a teatro no subsolo, lojas artesanais, hotel e escritórios. Tudo dentro de uma área de 4 hectares.

“Conheci o Brasil há 23 anos, com um amigo que me apresentou de Toquinho a Chico Buarque, passando pela casa de Caetano Veloso, onde me hospedei. E me apaixonei pelo País. Desde então, tento fazer algo por aqui”, conta o empresário, nascido em Washington, criado na Costa do Marfim e radicado em Paris. Sua ambição não é pequena: o projeto, de R$ 1 bilhão, inclui até teatro subterrâneo, cercado de lojas artesanais, hotel e escritório. Desenho arquitetônico de Philippe Starck, sendo que a capela será reformada por… Jean Nouvel.

Foram muitas idas e vindas até que a Previ acertasse os ponteiros da venda do imóvel, abandonado há quase 20 anos.
A seguir, os principais trechos da conversa.

O Grupo Allard tem negócios em boa parte do mundo…

Tive muita sorte ao criar minha primeira empresa, ainda jovem. E hoje temos negócios na Rússia, nos EUA, na China, em muitos lugares. Mas sempre acreditei no potencial dos países do hemisfério sul, principalmente o Brasil. Queria fazer algo diferente aqui – porque acho que o Brasil pode fazer diferença no mundo. Tenho certeza de que o país será o que a Europa e os Estados Unidos foram nos anos 60.

Isso é uma visão pessimista do primeiro mundo?

Tem gente que me acha maluco – e eu sou mesmo (risos). Mas a realidade é que o planeta está morrendo. Temos democracia – falando de modo geral –, ela funciona, mas não está nos levando a lugar algum. Do ponto de vista religioso, a oposição entre islamismo e cristianismo nunca esteve tão grande. Politicamente, tem-se gastado mais dinheiro em suítes de hotel do que em ações que melhoram a vida das pessoas. No campo econômico idem: toda vez que se fala em reorganizar o sistema bancário, por exemplo, é uma grita. Estão levando o mundo para o colapso. A verdade é que o dinheiro manda, e estamos perdendo o respeito por quem trabalha. Estamos sendo governados por gente do sistema financeiro, que dita as regras. O mundo está ficando desumanizado. Estamos perdendo a noção de nossos cinco sentidos. Só que o mundo, para ser salvo, depende deles e da nossa criatividade.

O que é a economia positiva de que você tanto fala?

É uma economia que respeita o talento das pessoas – o capitalismo nos ensina (e talvez seja a única coisa boa que nos ensina) a respeitar o trabalho, respeitar mais quem trabalha mais. É a utilização da genialidade, do talento, em prol da coletividade, da sociedade. Isso representa valor para todos.

E como fazer isso?

Com projetos como este que vamos fazer aqui. Na França, por exemplo, temos um centro do tipo dedicado inteiramente à sociedade. Para fazer de Paris uma capital da arte. Lá, quando falei a respeito do projeto, encontrei muita gente conservadora. Aliás, eu sou um problema para pessoas conservadoras (risos). Só que o custo para o estado e para a sociedade é zero. Qual o retorno? Como o objetivo é dar oportunidade e liberdade às pessoas, essa iniciativa gera respeito, força, valor para as empresas. E a pessoa que recebe algo assim quer devolver o que ganhou – é um multiplicador de ações criativas e benéficas. Eis a economia positiva em ação.

O que mais agrada no Brasil?

No decorrer dos últimos cinco séculos, o Brasil criou uma comunidade (não digo perfeita, claro) que aprendeu a lidar com as diferenças. Fantástico. Por exemplo: aqui vocês têm uma imensa colônia libanesa. Nova York também tem. Mas lá, os libaneses falam árabe. Aqui, fui conversar com o prefeito, Kassab, e ele não sabe falar árabe. Isso demonstra algo importante: as pessoas que vivem no Brasil são brasileiras, apesar de pertencerem a diversas etnias. Essa característica, para mim, é um modelo para o mundo. E o ambientalismo? Embora as empresas brasileiras ainda não sejam um exemplo de boa gestão nesse aspecto, quando o Brasil fala sobre meio ambiente, o mundo ouve.

E por que escolheu este lugar em São Paulo?

Há cerca de seis anos, pedi a uma equipe na França para encontrar lugares para investir e criar o futuro. Lugares com passado, com raízes. Ah, e que fossem grandes, para que eu pudesse fazer centros culturais e de criação, para reunir gente do mundo inteiro.