‘Sem desburocratizar, a Ancine não atrai o mercado’

‘Sem desburocratizar, a Ancine não atrai o mercado’

Sonia Racy

12 Março 2018 | 00h40


CHRISTIAN DE CASTRO, DA ANCINE. ARQUIVO PESSOAL

Para Christian de Castro, novo presidente da agência,
ela precisa ter menos burocracia, prazos mais
curtos para 
os projetos e previsibilidade
para interessar aos investidores

.
Assim que tomou posse na Agência Nacional de Cinema, no início do ano, Christian de Castro Oliveira fez uma conta: o Brasil “tem tudo para se tornar, em 10 anos, um dos cinco maiores mercados do audiovisual do mundo”. Nesses três meses no cargo, foi se dando conta do desafio: há burocracia demais, tudo é demorado, não há previsibilidade dos projetos – e sem previsibilidade o investidor privado some de vista. Por outro lado, sem esse investidor o projeto de desenvolver o cinema, a TV e o audiovisual não vai longe.

Seu olhar de engenheiro sobre uma missão cultural é rigoroso. “Temos um modelo travado, falta integração, os bancos de dados não conversam, e assim não dá pra contar com esse apoio de fora”. Mas ele não perde o pique. “Se você dá previsibilidade o processo encurta, o custo cai, o investimento vem. Porque é bom negócio, hoje, investir na economia criativa, no audiovisual”.

É uma fala de quem gosta, e muito, de cinema, mas que tem um pé no mercado. Formado em engenharia aeronáutica no ITA, depois engenharia de produção e pós-graduação em Film & TV Business, Christian mergulhou por um tempo no mercado financeiro. Nesta entrevista a Marília Neustein e Gabriel Manzano — a primeira que dá desde que assumiu o cargo –, ele se diz otimista com a boa equipe de que dispõe na Ancine. “Ninguém faz cinema obrigado, faz porque curte. E este pessoal está aqui porque gosta de cinema e gosta de servir à sociedade.” A seguir, os melhores trechos da entrevista.

Você assumiu o comando da Ancine num momento de grande demanda por ajuda na produção cultural. Qual sua primeira avaliação da tarefa?
Eu já estava há dois meses como diretor quando fui convidado a presidir a agência. Já tinha a experiência de trabalhar com gestão de empresa, planos de negócio, sempre lidando com equipes e formação de pessoal. Posso dizer que o pessoal aqui é bem preparado, tanto no audiovisual quanto na produção de conteúdo. Isso nos motiva a montar um plano mais ambicioso, porque a equipe responde. Mas do lado negativo temos uma burocracia forte, percebida por quem está fora – o produtor independente, o exibidor, a operadora. Temos um modelo de gestão muito travado, uma falta de integração das áreas. Os bancos de dados não conversam.

E como pretende superar esses obstáculos?
A Ancine, como agência reguladora, tem de fiscalizar, cuidar do fomento, acompanhar os benefícios fiscais advindos da Lei do Audiovisual. A regulação é muito intrincada, meio barroca, às vezes extrapola no poder de regulamentar. Essa tarefa de desburocratizar passa por uma reorganização, uma reestruturação que já está em curso. Tem um fluxo de processos internos começando a integrar as partes soltas. Hoje a aprovação de um projeto, da apresentação até a saída do recurso, demora uns dois anos em média. É tempo demais e a gente acaba não tendo uma previsibilidade. E quando não tem isso não dá pra trabalhar bem com o mercado, com os investidores. Tem de tornar a coisa previsível em todas as linhas, começar a gerar indicadores, saber onde podemos ser mais eficientes.

A Ancine foi criada em 2001. Seu papel mudou, ela evoluiu?
Com o tempo o papel da agência se ampliou, se sofisticou. Veio de um foco cinematográfico, expandiu para televisão, criação de propriedade intelectual, os games, mídias digitais, internet… E tem que lidar com a infraestrutura que permeia toda essa cadeia de valores. A gente fala de realidade virtual, efeitos especiais, desde um vídeo pro YouTube até uma produção de cinema de alto orçamento… Hoje existe um gap muito grande de capacitação de gestores, que precisa ser enfrentado. Você trabalha com técnico, roteirista, diretor, empreendedor. Tem de ficar atento a essas diferenças.

Você se considera um cinéfilo? Acompanha de perto o que é produzido e exibido?
Sim, e adoro. Assisto todo dia. Num voo de mais de uma hora e meia, a gente tem como ler alguma coisa, e sempre pensando cinematograficamente. Não procuro nada específico, vejo de tudo. Quando eu estava aí em São Paulo, era um “rato” da Mostra de Cinema. Foi lá que conheci o trabalho do (diretor Emir) Kusturica. E uns dez anos depois, no Festival de Cannes, pude conhecê-lo, quando ele apresentou o documentário sobre o Maradona (Maradona e Kusturica). Isso não tem preço. Acho que é por isso que a gente resolve fazer cinema.

É a hora em que toda a trabalheira vale a pena, não?
Eu costumo dizer que ninguém faz cinema obrigado. Todo mundo faz porque curte. E, trazendo aqui para a agência, quem trabalha aqui é porque escolheu ser servidor público. Ou seja, na Ancine a gente escolhe duas vezes, porque gosta de cinema e porque gosta de servir ao Estado e à sociedade. Pra ter capacidade de criar mais e melhor, em diferentes plataformas, para diferentes públicos.

Há um debate a respeito do uso do dinheiro público pra se fazer cinema, exposição, outros eventos, e é preciso defender junto à opinião pública a importância do incentivo cultural. Como encara essa tarefa?
Bom, numa democracia todo mundo é livre para opinar. Por outro lado, a participação do Estado como investidor na cultura é uma realidade mundial. No planeta inteiro os governos investem, uns mais outros menos, em obras audiovisuais, cinema, TV, e exportam cultura. Na Europa, os programas de fomento funcionam há décadas. Mesmo nos Estados Unidos, uma sociedade liberal, existem estruturas de incentivo fiscal municipais, estaduais. Posso lhe contar um exemplo? A série Breaking Bad ia ser filmada originalmente na Califórnia. Pois o Estado do Novo México se organizou, recorreu a um incentivo fiscal e Santa Fé investiu alto, cerca de 25% do orçamento, e a produção foi pra lá. Isso é do jogo em qualquer lugar do mundo. Daí a minha insistência nesse ponto: quando a gente tira a burocracia, dá mais transparência, tem mais diálogo e no final da cadeia tem previsibilidade. Quando não a tem, fica incerto e mais caro. E fica mais difícil trazer o dinheiro, sobretudo num ambiente de juros elevados, como o do Brasil.

‘PARA CADA REAL
INVESTIDO
QUEREMOS TER 2 OU
3 DE RETORNO’

Você entende bem isso porque já atuou no meio financeiro…
Se você dá previsibilidade, o processo encurta e o investimento vem. Porque é bom negócio investir na economia criativa, no audiovisual. Essa junção de entretenimento, tecnologia e investimento dá um resultado exponencial enorme. O Netflix é um dos melhores exemplos disso. Começou como uma empresa de logística, entrou na tecnologia, foi pro entretenimento… e quando abraçou o conteúdo e a produção de propriedade intelectual multiplicou seu valor de maneira expressiva. Começamos a ver a consolidação do mercado internacional, com altos investimentos em produtoras que lidam com propriedade intelectual. E o Estado é parte dessa equação. Meu objetivo aqui é que, no final dos quatro anos do meu contrato, a gente esteja num patamar em que, para cada real investido, na cadeia de valor como um todo, tenhamos 2 ou 3 reais de dinheiro privado entrando no jogo com a gente.

Estamos a caminho de uma eleição presidencial e de mudança de governo. A Ancine está blindada contra riscos de esses planos serem afetados?
A Ancine é uma agência de Estado, seus diretores têm mandato fixo de 4 anos. O meu vai até 2021. Então, temos estabilidade para trabalhar, para nos dedicarmos ao marco regulatório. É claro que uma boa relação com o Executivo faz o processo fluir melhor. Nosso orçamento, afinal, é arrecadado pelo governo, liberado por ele. E quanto melhor o fluxo financeiro, mais garantida a previsibilidade. Temos hoje uma situação estabelecida de 15 anos, um mercado crescendo a taxas chinesas nos últimos dez. E é um mercado estratégico, emprega muita gente. A agência foi criada no governo Fernando Henrique, teve a transição para o governo Lula, depois a Dilma, agora o Temer… e a presença do conteúdo brasileiro se expandindo, no mercado interno e também no internacional.

Em 2015, o então presidente da Ancine, Manoel Rangel, comentou aqui a regulação para o streaming e a TV sob demanda. Em que ponto isso está?
O assunto está tramitando, agora, no Conselho Superior de Cinema, Ele é que estabelece as políticas consultando governo, Ancine e sociedade civil. A missão é estabelecer o marco, a estrutura da regulamentação do setor para a gente.

A Ancine tem feito levantamentos sobre representatividade nas equipes – proporção de mulheres, negros, etc. O que revelaram essas consultas?
A gente constatou que há de fato uma representatividade pequena de diretoras, de negros e índios, uma discrepância na presença de gênero e raça no universo do audiovisual. Pra se corrigir isso, identificar se há demanda e capacitação, foi criado no Conselho Superior de Cinema um grupo de trabalho que vai verificar as políticas eficientes para a inclusão de gênero e raça dentro do mercado. A Secretaria do Audiovisual já lançou editais que preveem investimento em produção de conteúdo com cotas para negros, mulheres e índios. No audiovisual a presença de produtoras executivas e líderes de empresas é boa. Na parte de criação é que falta. A gente tem de entender a melhor forma de lidar com isso.