‘Se juntar o pior do animal e do humano, o que sai?’

‘Se juntar o pior do animal e do humano, o que sai?’

Sonia Racy

09 Abril 2018 | 00h45

RODRIGO LOMBARDI

RODRIGO LOMBARDI. FOTO: RAMÓN VASCONCELOS/GLOBO

Rodrigo Lombardi, ator da série Os Carcereiros,
conta seu duro mergulho na vida dos presos e das penitenciárias
do País e questiona: “O que a gente quer
com essas pessoas? Transformá-las, puni-las?”

Antes conhecido por seus papéis como galã de novela, o ator Rodrigo Lombardi dedica-se agora a viver o agente penitenciário Adriano, protagonista de Carcereiros – série da GloboPlay inspirada no livro homônimo de Drauzio Varella. Foi uma mudança e tanto, surgida quando o indicado para o papel, seu amigo Domingos Montagner, afogou-se no intervalo das gravações da novela Velho Chico. “Cheguei na sexta, comecei a gravar na terça”, recorda. E conta como se preparou para substituir, às pressas, o amigo desaparecido: “Fiz uma dieta de sono que nunca mais vou fazer na minha vida”.

Nesta entrevista à repórter Paula Reverbel – durante as gravações da segunda temporada –, Rodrigo conta sua experiência com uma dura realidade: a rotina dos presídios do País, e a fila de problemas urgentes, nessa área, a desafiar governantes e governados. E resume sua reação numa questão: “Quando o animal e o humano se juntam no que têm de pior, o que é que sai?” E seu questionamento vai adiante: “Qual a função das penitenciárias? O que a gente quer com essas pessoas? Transformá-las, puni-las?” O ator diz que não levanta bandeiras sobre o tema. “Descobri que levantar bandeira não é a solução. A solução é dialogar, saber perguntar.” A seguir, os principais trechos da entrevista.

Como você se preparou para entrar no personagem?
Ele nasceu sem preparativo nenhum. Eu cheguei de viagem ao exterior numa sexta e comecei a gravar na terça. Pedi uma conversa com o diretor José Eduardo Belmonte e com os carcereiros que estavam apoiando a gente. “Quem são essas pessoas?”, perguntei. Tentei encontrar neles algo que eu tivesse e já pudesse usar. Notei uma energia incomum. Seria uma amargura? Uma tristeza? Não. Aí notei que era cansaço. Físico, psicológico. Para “encontrar” esse cansaço, fiz uma dieta de sono que nunca mais vou fazer na vida. Concluí que era a maneira mais rápida de ter cansaço no corpo. Eu dormia quatro horas por dia. E sou um cara que precisa dormir nove.

E como se adaptou?
Na segunda semana, comecei a dar bom dia dez vezes pra mesma pessoa em cinco minutos. Aí parei com isso. Mas acho que tivemos um bom resultado, por ser tão rápido. Depois a gente foi pegando todas as informações, o modus operandi de tudo.

Dos EUA você teve uma conversa com o Belmonte e veio?
Na verdade, conheci o Belmonte ao voltar de Nova York. Fui à produtora e assisti a um documentário (ainda em produção) do Fernando Grostein e do Pedro Bial, sobre o livro Carcereiros, do Drauzio. Vi aquilo e fiquei chocado. Assisti com todo o elenco, que já vinha de preparação. Foi um baque pra mim. E começamos a gravar, sem mais delongas.

O que foi que tanto o chocou?
Primeiro, porque ou as pessoas caem nesse lugar (uma penitenciária) ou elas realmente o procuram. É um cargo público, ali se faz carreira. E não é pra amadores. Você lida com a possibilidade de um perigo iminente. Você aprende que a tranca e a soltura das celas são os dois momentos mais tensos do dia, que é quando você – o único em um pavilhão com 300, 350 presos – calmamente pede pra todo mundo entrar cada um na sua cela. A tranca é o momento em que o trânsito fica caótico ali dentro e tudo pode acontecer, sem ninguém ficar sabendo. E o momento da soltura é quando você – depois que todo mundo está lá dentro há um tempão – vai abrir aquela cela apinhada de gente sem saber o que aconteceu lá nesse intervalo. Tudo pode acontecer. Mas tem um código de conduta, para que se possa conviver.

Esse foi um dos pontos centrais do que o Drauzio produziu…
Exatamente. Mas o código de conduta muda a partir do momento em que a idade da população carcerária diminui. Se você tem uma idade carcerária mais elevada – 28 a 35, 36 anos, na qual a palavra bastava pra que você estabelecesse certos diálogos – a palavra em si era o código. Quando a idade da população carcerária diminui, a palavra perde um pouco o seu valor, e aí aparecem as brigas. Em suma, você aprende muita coisa trabalhando num lugar para onde a sociedade não quer olhar, né?

Que cuidados foram tomados nas filmagens para mostrar a situação dos carcereiros sem glamourizar?
O próprio roteiro já faz isso. Ele tira esse carcereiro da sua retidão. Ele quebra a sua ética, passa por cima ou é atropelado pelo sistema. Essa não é a jornada de um herói mítico. Ele está sujeito às intempéries, a desejos, cobiça. Se queima, se machuca, tenta se refazer, se desculpar… Está sujeito a toda sorte de acontecimentos. Ele é um barquinho nessas ondas. Não se trata de um Hércules, que está dominando tudo. É só aquele barquinho que parece que vai ser engolido quando vem a onda gigante. O protagonismo da história está na própria história, ele só é uma parte.

O que é mais parecido entre você e o personagem Adriano? E o que é mais diferente?
É difícil mapear. Meu trabalho é juntar tudo. A gente só é capaz de colocar para fora o que existe dentro de nós. E eu vou lhe contar: a gente tem tudo dentro da gente. Só somos capazes de reconhecer no outro aquilo que a gente tem na gente. Então a minha função é cada vez mais liberar as minhas gavetinhas de acesso a esse tipo de sentimento. A única coisa que eu procuro é não me defender: se vem uma coisa que eu sei que me faz mal, deixo fazer mal. É minha profissão.

Como você vê a importância de narrativas como essa?
Eu acho que a arte é uma arma de questionamento. A gente não está aqui pra dizer “olha, é assim que é”. Podem pensar: “Ah, o Rodrigo faz o carcereiro, ele estudou o sistema carcerário, leu livros, pode responder pra gente.” Não. Talvez consiga perguntar com uma qualidade maior, mas não sou capaz de responder. Toda vez que vejo um carcereiro, ele me conta uma história nova e me deixa de cabelo em pé. E isso resvala para uma possível solução ou atitude a ser tomada. Só que eu não posso levantar a bandeira. Não é assim que se pergunta, é assim que se revolta.

Então você não se vê levantando bandeiras relacionadas a essa questão em particular?
Não, eu não levanto bandeira… Eu descobri que levantar bandeira não é a solução. A solução é dialogar, saber perguntar. A Justiça demora. A minha opinião é que demora um pouco demais. Mas existe um porquê de ela demorar – a gente tem que ir pela regra, não pode burlar a regra. Leva um tempo para o cara ser julgado, condenado e preso. Nesse meio tempo as pessoas atacam, quebram, apontam o dedo, xingam. Isso não é Justiça, é vingança. Querer que o cara vá preso amanhã é vingança.

Cerca de 40% da população carcerária é de gente que ainda não foi julgada…
Sim, há um grande número de pessoas que não foram julgadas e também um grande número de pessoas que já cumpriram a pena e não saíram. Temos a terceira maior população carcerária do mundo – e o nosso sistema ainda é precário nesse sentido da administração da população carcerária.

Agora mais próximo desse problema, vê alguma saída?
Ainda não tenho a minha opinião formada. Qual a função das penitenciárias no Brasil? São um lugar pra reeducação? Um lugar só de exclusão? Um lugar de castigo? O que é que a gente quer com essas pessoas? Quer transformá-las? Quer puni-las? Ou só afastá-las? A gente não tem presídio suficiente assim como a gente não tem escola suficiente, como a gente não tem professor suficiente. Na história do Carcereiros, o Adriano é um professor de História que não vê mais possibilidades como professor. Muda… e aí a gente vê nesse lugar, nesse buraco social, o ser humano tratado como um animal. E quando essas duas condições – o animal e o humano – se juntam no que têm de pior, o que é que sai?

O Domingos era seu amigo e estava indicado para esse papel. Você estava viajando. Como foi isso?
Eu estava de férias e aí começaram, em um grupo de WhatsApp, a perguntar: “Rodrigo, você sabe do Domingos?” Eu disse que ele estava no Nordeste – e começaram a dizer que ele tinha sumido. Entrei em contato com alguém da direção, que me deu a notícia… Eu estava sozinho em Nova York, sentei na calçada e chorei. Depois foi mudando aos poucos, homeopaticamente. O convite para fazer o Carcereiros surgiu uns 20, 30 dias depois.

Você ainda estava digerindo a notícia…
Estava. Não dava pra imaginar que essa tragédia ia acontecer. Todo mundo nadou ali onde aconteceu. Eu nadei lá. Todo mundo está sujeito a isso, lógico, basta estar vivo. Mas é um susto, é um choque. Éramos amigos fora do set. A gente tinha um grupo que se encontrava uma vez por semana. É muito assustador ver alguém tão forte como ele ser sucumbido./ COLABOROU GABRIEL MANZANO