Protesto contra a violência desembarca na avenida no Rio

Protesto contra a violência desembarca na avenida no Rio

Sonia Racy

14 Fevereiro 2018 | 00h40

 

A BEIJA-FLOR NA AVENIDA. FOTO MAURO PIMENTEL/ AFP

As cenas de violência criadas na avenida pela Beija-Flor –gente armada, gente caída no chão, feridos sendo levados… — davam o tom, na madrugada de ontem, dos desfiles deste ano na Marquês de Sapucaí: foi um carnaval de denúncias e protestos contra a violência… e as arquibancadas reagiram com aplausos e aprovação.

A Mangueira criticou a redução das verbas de patrocínio da prefeitura vestindo Marcelo Crivella – que viajou para a Alemanha – de Judas. A Beija-Flor criticou, além da violência, a corrupção que virou marca registrada do dia a dia da política brasileira.

E a vida real deu contribuições à altura. Juliana Paes, rainha de bateria da Grande Rio, foi assaltada no túnel Santa Bárbara a caminho da Sapucaí no segundo dia dos desfiles (ao reconhecerem a atriz os assaltantes decidiram levar apenas seu celular). Integrantes da banda Capital Inicial também foram assaltados na Avenida Brasil. Vincent Cassel, num táxi entre o Galeão e o Rio, teve de desviar da Linha Amarela, por causa de um tiroteio. Em meio à violência, a frase dita pela atriz Sophie Charlotte à coluna resume o sentimento do folião-cidadão carioca: “O carnaval estar acontecendo já é um ato de resistência”. Nos dois dias de desfile do Grupo Especial a coluna perguntou a vips que circulavam pelos diversos camarotes o que pensavam do clima de insegurança vivido por todo lado. Confira o que eles sentem e o que esperam dos governantes.

A falta de investimento do poder público, na avaliação de Sophie Charlotte, é a explicação para que o problema se agravasse – daí ela entender o carnaval como “um ato de resistência”. Nascida na Alemanha e vivendo no Rio desde seus oito anos, ela avisa que nunca foi assaltada, mas se diz atenta a tudo à sua volta. “Não vou a zonas de risco. Sei que vivo quase em um cercado privilegiado.” Mas, como boa brasileira, não perde a esperança. “Sou otimista. Acredito que nas próximas eleições vamos reverter esse cenário.”

Para o marido de Sophie, Daniel de Oliveira, o problema hoje se espalha pelo País inteiro. “O Brasil é deficitário em educação, saúde, coisas básicas… E quando se chega nesse limite, ninguém aguenta mais. Não é só fazer presídio, também tem que fazer escola.”

Carioca “veterana”, mesmo nascida em Goiás, Carolina Ferraz também não está feliz. “A violência está insuportável. Ninguém merece passar por isso.” Sobre o carnaval estar acontecendo em momento tão conturbado, a atriz respira aliviada. “Tem mais é que acontecer. É a festa do povo, momento de se libertar.”

Agitada entre repórteres, fotógrafos e selfies, Sabrina Sato foi direta à coluna: “Não podemos deixar a violência ganhar da gente. Não temos que nos esconder, temos que colocar a cara na rua. Temos de nos unir e viver nossa vida sem medo, que é medo que eles querem.”

Leandra Leal, que desfilou na Mangueira, entende que há diferentes pontos a serem atacados para superar o desafio. “Não é um problema que só com repressão se resolva. Tem que ter repressão, ter educação, mudança de cultura”.

Mesmo doente, Thaila Ayala disse que, apesar de tantos desafios, não pretende fixar sua base na Califórnia, onde tem trabalhado. “Amo o Rio, minha casa e meus amigos estão aqui, a maior parte do meu trabalho se concentra no Brasil. É triste o que está acontecendo, me sinto impotente. O governo tem que tomar uma atitude urgente.” Nos EUA, sua carreira internacional segue firme. Este ano ela estreia o filme The Pretenders e uma série ainda sem título.

Caio Blat aponta uma razão central para os abusos que atormentam a cidade: “O problema da violência é essa guerra contínua – que já está perdida – contra as drogas.” Ele entende que é necessário mudar a atual política de combate a esse problema. “A gente continua fazendo guerra, matando gente pobre e negra, enxugando gelo, uma vergonha.” O ator está em cartaz com a peça Grande Sertão: Veredas, e vai continuar viajando o ano todo. De quebra, torce para que se confirme a segunda temporada da série McMafia, da BBC de Londres, que se passa na Inglaterra, EUA e na Amazônia.

Ícone do Rio, Narcisa Tamborindeguy confessou à coluna estar “triste e insegura” com a situação. “Estou com pena do Rio, que é a Cidade Maravilhosa, cidade do Corcovado, das mil e uma maravilhas, do carnaval. Nós não podemos ser chateados com a violência”, protestou a socialite carioca.

Paulista que mora no Rio, Paloma Bernardi faz um desabafo semelhante: “Um lugar tão bonito, referência turística no mundo. O governo tem que tomar uma atitude urgente!” No seu primeiro carnaval como ex-rainha de bateria do Grande Rio – função que passou a Juliana Paes – Paloma se diz mais tranquila. “A função de rainha agrega muitas atividades. Este ano está tudo mais calmo. Vou desfilar, mas na ala da diretoria da escola.”

Fernanda Barbosa, promoter do camarote da Itaipava, lamentou o clima de medo vivido por tanta gente à sua volta. “É o 13.o carnaval que eu faço e, pela primeira vez, eu senti que tem uma energia pesada no ar.”

Renato Goes aponta o preço de viver num lugar assim: é preciso sair de casa pensando sempre em como pegar o caminho mais seguro. “E mesmo assim você corre risco”, lamentou. O ator, que vai interpretar um refugiado sírio na próxima novela das seis, Filhos da Terra, menciona sua possível ascendência árabe. “Ainda não descobri de onde vem minha família, mas tenho isso no sangue e acho que vai ser bom poder usar.”

Viver com receio de sair à rua é também uma queixa da atriz paranaense Gabriella Mustafa. “A gente sempre pergunta ao motorista do táxi se pode ir por aqui ou por ali. Isso é muito ruim, é uma violência constante no caminho das pessoas”.

Em meio aos receios da maioria, a coluna detectou uma voz dissonante – a de João de Deus. Ciceroneado por José Victor Oliva, no Camarote Número 1, ele foi contra a corrente geral ao ser perguntado sobre o tema. “Não acredito na violência do Rio de Janeiro. Estou vendo todo mundo aqui com alegria, em festa. No Rio não tem violência, existe é o amor.” / SOFIA PATSCH e PAULA REVERBEL