Premiado em NY, FHC critica estatismo do PT

Premiado em NY, FHC critica estatismo do PT

Sonia Racy

13 Maio 2015 | 10h04

Foto: Eduardo Nicolau/Estadão

Dilma quebrou uma tradição de 47 anos – como informou o blog ontem à noite. Pela primeira vez um presidente da República do Brasil não manda uma mensagem de congratulações ao “Homem do Ano” — pelo lado brasileiro – apontado pela Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos, que em 2015 é Fernando Henrique Cardoso. A premiação aconteceu nesta terça-feira à noite no hotel Waldorf-Astoria, em Nova York, como manda a tradição criada pela instituição.

Em um salão lotado, com mais de 1500 pessoas, em sua maior parte de brasileiros, que pagaram alto para comparecer à festa black-tie, o esquecimento de Dilma foi devidamente notado. Bem como o não comparecimento de nenhum integrante do governo federal, à exceção do embaixador Antonio Patriota, que não se manifestou publicamente.

Em um palco onde ficaram sentados quase todos presidentes de bancos que atuam no Brasil, como Roberto Setubal, Luiz Trabuco, Jesus Zabalza, André Esteves, José Olympio Pereira, José Berenguer e empresários do peso de José Cutrale, Binho Ometto, entre outros, foi servido o jantar. Todos de frente para a gigante plateia, distribuída por mesas redondas de dez lugares.


Bill Clinton, o premiado pelo lado americano, falou antes de FHC dedicando boa parte de suas palavras a elogiá-lo. “Quando conheci Fernando Henrique, achei que ele era a pessoa certa para o tempo certo (no Brasil). Hoje, acho que ele é a pessoa certa para qualquer tempo”, declarou o ex-presidente dos EUA, sob aplausos gerais. “O amanhã pertence a quem cooperar”, finalizou, aplaudido novamente de pé.

FHC também foi aplaudido de pé em várias passagens de seu discurso, em uma noite de dois homenageados que mais parecia ser o evento de um só: FHC. Em sua fala, começou um tanto familiar e acadêmico, citando sua mulher, dona Ruth, também elogiando Clinton, mas depois mudou o tom para fazer duras críticas – sem citar nomes – aos seus sucessores, dizendo que os avanços obtidos a partir da Constituição pareciam “desfazer-se no ar”. Foi a ocasião para cobrar, com ironia, o ex-presidente Lula. A construção do País, disse ele, é feita “por gerações, e diante da qual não dá para dizer o “nunca, neste país, antes de mim, fez-se tal e tal coisa”. Pois um país “não se constrói senão pondo tijolo sobre tijolo, obra de gerações”.

Antes disso, FHC dedicou alguns momentos a criticar o autoritarismo no continente. Nas duas guerras mundiais, disse ele, o Brasil mostrou “que tem lado: não se junta com o totalitarismo”. Mas a voz do País – e aí seu tom foi de lamento – “nem sempre se pronunciou forte” quando outras nações “se afastaram das práticas democráticas”. Nossos governos, ressaltou, “têm aceitado, pelo quase silêncio, violações além de nossas fronteiras, como ainda há pouco, no caso de reiterados arbítrios na Venezuela”.

O cenário brasileiro ocupou toda a metade final do seu discurso. Ele atacou a burocracia estatal, o atraso cultural, o apetite de políticos por cargos e vantagens, a “voracidade por mais impostos para sustentar a máquina pública”. E foi adiante: “A confusão entre o interesse público e a assunção pela burocracia estatal de tudo que é iniciativa, esmagando ou desprezando o setor privado e a sociedade civil, são arcaísmos que não se sustentam em nome de qualquer ideologia progressista, mas sim do atraso cultural”. Em anos recentes, após a crise de 2008/9, prosseguiu, veio “o programa anticíclico exitoso”. Mas o governo “interpretou o que era uma política de conjuntura como um sinal para fazer marcha-à-ré.” E daí se voltou “à expansão sem freios do setor estatal, ao descaso com as contas públicas”. O rigor dos orçamentos “passou a ser visto como uma coisa reacionária”.

A corrupção, que tanto marcou a vida do País em meses recentes, mereceu dele uma frase curta. FHC disse que não iria “se referir a práticas que, a melhor eufemismo, são ditas no Brasil como ‘não republicanas’, sobre as quais, no exterior, prefiro me calar”. Resumiu tudo em uma metáfora: “O castelo de cartas desfez-se ao sopro da realidade!”

E pediu, já nos parágrafos finais, uma “renovação de verdade”. Para ele, “os jovens e as famílias que acorrem às ruas não se sentem politicamente representados”. E foi adiante: “Será que não dá para buscar os mínimos denominadores que permitam criar um sistema eleitoral e partidário que nos livre de mais de trinta partidos e 39 ministérios para saciar a fome de cargos e vantagens?”

Avisou que não estava ali “para dar receitas”, mas que é preciso reconhecer “que sem produtividade crescente não há transferência de rendas duradoura nem expansão econômica que se sustente”.

Proclamou, ao final, a necessidade de renovação e advertiu que os programas precisam ser melhor executados e que “tudo isso é possível, urgente e necessário”.