‘Precisei criar chances para dançar no Brasil’

‘Precisei criar chances para dançar no Brasil’

Sonia Racy

01 Agosto 2017 | 00h58

THIAGO SOARES

THIAGO SOARES. FOTO SILVANA GARZARO/ESTADÃO

Apesar de ter saído do País para trabalhar no Royal Ballet de Londres há 16 anos, Thiago Soares – primeiro bailarino da companhia – não deixou de pensar no Brasil. Com este foco, começou a produzir espetáculos por aqui. No fim de semana, o bailarino apresentou o resultado de um projeto que visa trazer todo ano, para cá, dançarinos brasileiros que estejam começando a fazer sucesso no exterior. Nesta primeira edição ele encenou Giselle, com direção de Jorge Teixeira, no Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo.

Duas convidadas brasileiras, já empregadas lá fora – Amanda Gomes, da Ópera de Kazan, e Mayara Magri, do Royal Ballet – vieram com ele.

O projeto é fazer o público daqui conhecer quem migrou para dançar fora?

Sim. Muitas das chances que tive, de dançar aqui, cavei por mim mesmo. Quando iniciei minha carreira fora, queria dividir com o público brasileiro o que aprendi. Mas era difícil receber convite para vir. Por isso, comecei eu mesmo a produzir.

Você começou no hip-hop. Bailarinos hoje reconhecem a importância de outras danças?

A dança virou um guarda-chuva que abriga muitos estilos. Virou uma coisa muito maior e global do que era antes, o que quer dizer que há uma miscigenação entre os estilos existentes. Acho maravilhoso que haja artistas de dança contemporânea interagindo com coreógrafos clássicos e de dança folclórica. E que hip-hop interaja com jazz. Existem mutações sobre a dança. A minha trajetória clássica já ficou meio evidente e hoje quero criar outros trabalhos.

Como a crise econômica impactou a classe artística na Inglaterra? Foi diferente do Brasil?

Na Europa, a cultura é vista como prioridade, bem com a educação e a saúde. Isso é um golaço. As grandes nações sabem que o que as torna diferentes é a sua cultura. Na minha opinião, a América Latina e o Brasil deveriam continuar dando importância à cultura. Somos ricos neste quesito, e talentosos. É importante que o governo tenha ciência de que a cultura é ouro. Sem ela, não há progresso.

Você será tema de novo documentário. Como foi isso?

Nunca imaginei que teria relevância para me tornar tema de um filme da HBO, fiquei surpreso. Depois, passei a me empenhar em ser retratado de maneira honesta – tinha medo de ter que me apresentar de um jeito “mais vendável”. Não queria um filme falando sobre “o quanto o Tiago é maravilhoso”, não acho que eu seja um rock star. Queria mostrar as coisas boas e os momentos de dificuldades. Uma vez definido que a Alice e o Felipe Braga, produtores do documentário, também queriam honestidade, falei: “Estou em boas mãos”. E, agora, vou ter também um filme autobiográfico com o Marcos Schechtman e a Globo Filmes./ PAULA REVERBEL