País precisa de um Estado ‘forte, mas não balofo’, diz empresário

Sonia Racy

09 Outubro 2017 | 01h05

JOSUÉ GOMES, DA COTEMINAS. FOTO JONNE RORIZ/ESTADÃO

O mineiro Josué Gomes, filho de José Alencar,
defende a doação de empresas ‘limitada e transparente’
e não descarta candidatura nas eleições de 2018

Candidato ao Senado por Minas na última eleição, vai repetir a dose em 2018? “Não, mas se eu falar esse ‘não’ agora, de forma peremptória, corro risco de ter que voltar atrás”, pondera o empresário mineiro Josué Gomes da Silva. “Hoje minha intenção se limita a ajudar o Brasil em um projeto no qual eu acredite.”

Para o dono da Coteminas – que detém as marcas Santista, Artex, MMartan e Casa Moysés, além de ser controladora da Springs Global –, a campanha em 2014 foi uma oportunidade única. Ali ele viu de perto o carinho dos mineiros por seu pai, o vice-presidente de Lula, José de Alencar. “Pessoas que eu nunca tinha visto passavam a me reconhecer nas ruas, vinham falar dele. Isso não tem preço. Foram generosos comigo. Mas perdi a eleição com 3 milhões, 350 mil votos, disputando contra o (candidato tucano Antonio) Anastasia”.

Diferentemente da maior parte dos empresários brasileiros, Josué não é a favor de um Estado mínimo. “Não acho que seja a solução para um país que tem as desigualdades que tem o Brasil”. O que ele defende é “um Estado forte, mas não balofo”. Esse Estado “tem que ser forte para ser um bom regulador das atividades econômicas, para atuar na educação – que talvez seja a única forma de reduzir de forma permanente as desigualdades sociais –, na saúde pública, e, principalmente, na segurança e na defesa”. Caso contrário, segundo Josué, cada um vai fazer justiça a seu próprio modo. Aqui vão os melhores momentos da conversa.

Você foi provavelmente o único candidato que recebeu financiamento só de pessoas físicas e zero de fundo partidário ou empresa. Na quinta-feira, aprovaram no Congresso o regulamento do fundo eleitoral. O que pensa sobre financiamento de campanha?
De fato só aceitei recursos de pessoas físicas. Não tinha tesoureiro, a estrutura era modesta. Para cada contrato, fazíamos três cotações, tudo documentado. Fiz carta de próprio punho para amigos explicando minha decisão de só aceitar recursos de pessoas físicas. Quase todos contribuíram, até de maneira surpreendente. Teve o caso de um amigo que fez doação pela empresa, talvez ele não tenha atentado para o que a carta dizia. Devolvi a doação e falei “Olha, se você puder doar pela pessoa física eu fico muito agradecido. Mas se não, só o gesto foi importante para mim”.

Campanha eleitoral precisa desse volume que se gastou nos últimos anos?
Eu gastei R$ 6,2 milhões de reais e consegui 42% dos votos válidos. Gastei um terço do que gastou o Anastasia. Esse volume de recursos despendidos hoje é um despropósito, uma estrutura gigantesca. Eu gravava num estúdio simples, sem externas, não usava nem teleprompter. Dizia o que vinha no meu coração e na minha alma. Obviamente, dentro de temas pré-selecionados. Foi uma campanha modesta, mas vitoriosa. Com poucos recursos consegui levar aos mineiros uma mensagem interessante.

É a favor do fundo eleitoral?
Sou a favor do financiamento eleitoral público, mas não exclusivo. O financiamento empresarial não deixava de ser uma porta aberta para vários malfeitos, como estamos vendo. Mas acho que empresas podem doar, dentro de um limite muito restrito e transparente. Várias empresas que eu conheço doavam de maneira legítima a candidatos nos quais acreditavam. O natural é doar a candidatos em quem você acredita, mas há necessidade de limites rígidos. Essas doações de milhões e milhões… Vamos dizer a verdade: tinha alguma coisa errada. E hoje a gente está assistindo às razões que levavam esses doadores a fazer megadoações.

O financiamento público não significa uma sobretaxa aplicada ao eleitor contribuinte?
A verdade é que a democracia custa dinheiro. Alguém, para fazer uma campanha, no mínimo vai gastar sola de sapato. Você tem que ir ao eleitor de alguma maneira. Pode tentar reduzir o custo de uma campanha, por exemplo, por meio do voto distrital. O político vai falar com, sei lá, 200 mil eleitores em lugar de 16 milhões ou 40 milhões. Dá para diminuir o custo de uma campanha, mas algum recurso será necessário.

Então, daria para fazer só com recursos de pessoas físicas?
Vamos ser sinceros, eu sabia que eu podia financiar minha própria campanha. Nem todos podem. Ou seja, eu não precisava contar com a generosidade de amigos que doaram à minha campanha. E, mesmo tendo recebido inúmeras doações, eu financiei um porcentual muito elevado.

Quantos podem fazer isso?
Acho que a gente precisa entender que a democracia tem algum custo e que alguma complementação de financiamento público é necessária. Eu não sou contra o financiamento público mas não dá para ter campanha para deputado federal custando R$ 20 milhões, R$ 30 milhões. Uma campanha para governo de Estado custando R$ 100 milhões, R$ 150 milhões. É um despropósito, não precisa desse tipo de gasto e tive uma experiência provando que não precisa.

‘O NÚMERO DE JOVENS HOJE
ENTRANDO NA POLÍTICA 
É UM FATO ABSOLUTAMENTE 
EMPOLGANTE’

Como é que você está vendo a situação hoje no País?
Acho que existe um efeito colateral positivo nisso tudo acontecendo na política brasileira. Sabe o quê? O engajamento dos jovens, que agora se veem como cidadãos. E, mais do que isso, estão vendo que é preciso exercer a cidadania – por meio de trabalhos comunitários, da política. O número de pessoas jovens na faixa etária de 25 a 40 anos que estão se envolvendo na política é absolutamente empolgante. A nossa geração viveu aquele espírito da Lei de Gerson – não estou generalizando, a grande maioria dos cidadãos são gente e bem e cumpridora dos seus deveres – mas sempre ficou aquela ideia de que levar vantagem é uma boa coisa. Não é. Esses jovens são éticos e vão resgatar os verdadeiros valores nacionais.

Então o cenário lhe parece otimista?
Muito. Quando a gente fica um pouco desanimado com as notícias, com as dificuldades, o negócio é conversar com os jovens. É uma experiência empolgante. A gente criou um grupo novo na empresa que só tem jovens, muito diverso. É o Omni, que faz todo um trabalho na transformação digital na nossa empresa. Todos são preocupados com a sociedade, com a posição deles no cenário como cidadãos, todos têm algum engajamento em atividades, vamos dizer, de organizações sociais, e muitos estão começando a entrar na política. Acho que vai ser uma mudança transformadora no Brasil, de um futuro com uma política muito mais ética, muito mais preocupada com o País e não cada um consigo próprio.

Acredita que veremos essa transformação já em 2018 na nova composição do Congresso?
Temos a tendência a ser imediatistas, porque de fato o ser humano vive poucos anos. Para a vida de uma nação, uma eleição não é tão fundamental assim. Não acho que vai ter uma mudança drástica em 2018, mas existe uma mudança de geração. E acredito que a geração que vem é melhor do que a geração que está deixando o poder.

Qual o reflexo da atuação dos jovens na Coteminas?
Para começar, uma das coisas que a gente aprende é que reunião tem que ser muito curta, porque o que você não consegue resolver rapidamente não resolve mais. É melhor desfazer a reunião, voltar às pranchetas, começar a pensar de novo. Eles fazem reunião em torno de mesas sem cadeiras. Essas reuniões na verdade duram menos de dez minutos.

Alguma ideia nova?
Nós adotamos como missão fazer nossos consumidores dormirem bem (a Coteminas produz cama, mesa e banho). Estamos, por exemplo, incorporando eletrônica para que nossos consumidores recebam informações sobre a qualidade do sono deles. Por meio de sensores nos nossos produtos do sono, conseguimos ler diversas informações do ambiente, da qualidade do sono – e depois, por meio de algoritmos, damos referências e indicações ao consumidor de como ele consegue melhorar seu repouso. Nossa meta no ano que vem é ter pelo menos 20% com sensores incorporados. Eles têm comunicação bluetooth com o celular da pessoa, que aí se comunica com um software– e este informa quanto a pessoa está se movimentando, mostra correlações entre ruídos externos e a movimentação que indica um estado de sono diferente, é uma combinação de ciência do sono, e aí temos equipes médicas nos auxiliando, com eletrônica, com produção têxtil.

Nesse sentido, a Coteminas visualiza novos projetos?
Nós nunca paramos de investir. Até porque a indústria exige investimento constante. Ainda existe um grau de ociosidade, mas temos investido muito no que é mais relevante. Como já disse, no projeto de “whereabouts”, ou internet das coisas.

Do que se trata, exatamente?
É o nosso projeto de transformação digital, e em muitos equipamentos que vão permitir que possamos produzir esse itens de maneira competitiva.

Qual sua avaliação, no momento, da economia brasileira?
Acho que Ilan Goldfajn, do BC, tem razão. O Brasil não pode perder a oportunidade de manter por longo prazo a taxa de juros baixa e a inflação baixa. Os juros ainda são altos mas para os padrões brasileiros é uma taxa razoável. Temos também que compreender que a taxa Selic incide sobre mais ou menos metade do crédito na economia. A outra metade é indexada.

E quais as consequências disso?
A economia tem de fazer um esforço um pouco maior para produzir seus efeitos. De qualquer modo, acho que vai ser transformacional se conseguirmos, por um longo prazo, manter a inflação baixa e a taxa de juros em torno dos 6,5% ou 7%. Veja, o Estado deve hoje cerca de R$ 4,7 trilhões. A Selic, que no ano passado esteve em torno dos 14%, este ano cai para 7% provavelmente. A economia no pagamento dos juros é de uns R$ 320 bilhões. Mas há uma defasagem entre a queda dos juros e o impacto real na economia de pelo menos seis meses.

‘O PAÍS TEM UMA 
CAPACIDADE DE SE 
RECUPERAR MUITO FORTE’

Acha que a economia descolou da política?
É óbvio que os agentes econômicos estão cansados das mesmas notícias. Temos de aguardar a próxima geração vir por aí. Com as eleições de 2018, muitos dessa nova leva poderão nos ajudar. Acho que as pessoas se deram conta de que é melhor voltar para o dia a dia, melhorar suas empresas, seus balanços – até para estarem preparadas para um círculo virtuoso que poderá acontecer de 2019 em diante.

Quando é que o mercado vai reagir para a gente voltar a…
A ociosidade é mais de bens de capital do que de pessoas. Não há excesso de equipamentos. Obviamente a recessão foi profunda – desde talvez a década de 20 do século passado não tínhamos tido um processo recessivo tão bruto. Mas o Brasil tem uma capacidade de se recuperar muito forte. O importante é a consistência do crescimento.

Mas a política econômica do Brasil não tem sido regular. Muda a cada 3, 4 anos, não há uma linha consistente que possa ser adotada em 20 anos.
A matemática não é ideológica. É ciência exata, e a política econômica não deveria variar em função de posições ideológicas e de eventuais governos. Você vai à Europa, vê países que são governados por partidos mais à esquerda ou mais à direita, e a espinha dorsal da economia não muda. Como se diz, não importa a cor do gato, o que importa é que ele cace o rato. Ou seja, o que importa no fundo é sempre o bem comum. A economia, que é meio, tem de estar bem gerenciada e tem que estar no caminho correto.

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