País ‘está exausto’ de desafios e ‘precisamos de tempo para entender o que somos’, diz professor

Sonia Racy

02 Agosto 2017 | 00h54

CIENTISTA POLÍTICO JAIRO NICOLAU. Foto: MARCOS DE PAULA/ESTADÃO

Haja quórum ou não hoje, na Câmara, seja Temer julgado ou não pelo STF, uma coisa é certa: o Brasil “está exausto de novidades” no universo político “e precisamos, todos, de tempo para entender e dimensionar como estamos e o que se passou com as nossas instituições”. Ao fazer essa avaliação para a coluna, ontem, o cientista político Jairo Nicolau, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, deixou um alerta: a atual lei sobre afastamento de presidentes, ainda dos anos 50, precisa de urgente atualização. “E o ideal seria”, segundo ele, “que, ao modernizá-la, pudéssemos caminhar para alguma forma de parlamentarização”.

Enquanto Temer reforçava ontem seu exército de apoiadores para a batalha de hoje e as oposições se dividiam quanto a ir votar ou não, Nicolau desfiava uma lista de “anormalidades” recentes que tiraram a política brasileira de sua rotina. “Primeiro tivemos o impeachment de Dilma Rousseff. Aquilo a meu ver foi mais um voto de desconfiança do Legislativo no governo, típico ensaio dessa parlamentarização do processo”. Semanas antes, algo inédito: um ministro do STF deu liminar para impedir a posse de um ministro na Casa Civil (Lula). Em seguida, um senador em exercício (Aécio Neves) foi afastado judicialmente do mandato, para ser reconduzido tempos depois. Pelo caminho, “seguidas invasões do Judiciário, e às vezes do Ministério Público”, sobre questões de outros poderes. E agora, um presidente da República “correndo atrás de votos para não ser afastado e julgado”. Tudo combinado com o desgaste dos partidos. “Esses desafios põem em questão a forma de funcionamento das instituições”.

Nem tudo, no entanto, é má notícia, diz ele. “A boa coisa é que a sociedade atravessou esses episódios em absoluta ordem. Foi tudo muito pacífico, o que nem sempre se vê em outros países da região”. Nicolau ressalta ainda “a tranquilidade e o apego à lei” dos comandos militares, e o pouco apelo que conseguem as vozes que clamam pela presença da farda para solucionar as diferenças na política. “Não é pouco”, pondera.

Mas instituições preservadas não bastam para se entender para onde vai o País. Diante dessa dúvida, o cientista político da UFRJ torce para que, com Temer ou sem ele, venha algum avanço na reforma política, e que ele aproxime o modelo brasileiro de práticas parlamentaristas. Como exemplos, cita os governos da França e de Portugal. “Lá você tem primeiros-ministros, mas o presidente mantém o controle. Como vem mostrando o francês Emmanuel Macron.” /GABRIEL MANZANO