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‘O que o Ocidente quer é beleza, não sabedoria’, diz Dafoe
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Sonia Racy

23 Fevereiro 2016 | 02h00

FOTO  DENISE ANDRADE/ESTADÃO

FOTO DENISE ANDRADE/ESTADÃO

A cultura ocidental “não honra a sabedoria da vida. Preferimos a cultura da beleza e da juventude”. Quem fala é Willem Dafoe, que está no Brasil para divulgar Meu Amigo Hindu, o filme de Hector Babenco cuja pré-estreia acontece hoje no Cinemark do Iguatemi. A frase se explica: o ator lida, no filme, com uma doença e com a sensação de “se perder o controle sobre o próprio corpo.” Mais que isso, ele interpreta uma espécie de alterego do próprio diretor – desafio que achou “poderoso e inspirador”. Dafoe conversou com a coluna, ontem, no Hotel Unique, onde está hospedado. Não quis falar de política, mas, sobre a eleição americana deixou um aviso: “Eu não vou votar em Donald Trump”. Abaixo, os principais trechos da entrevista.

Qual foi sua primeira impressão quando leu o roteiro de Meu Amigo Hindu?
Eu já conhecia o Hector há alguns anos. Por meio de amigos comuns, soube que ele estava fazendo um projeto muito pessoal – e o papel me interessou. Tive que passar por uma transformação física. Além de ser o único “gringo”, no meio de muitos atores brasileiros. E teve um detalhe: a história não se concentrava em uma doença, mas no que vem depois dela. Como ator, o mais surpreendente não foi interpretar o personagem na sua doença, foi o que veio depois. Uma ironia interessante.

No filme, seu trabalho corporal fica muito em evidência. Como foi essa preparação?
Perdi peso, o que não foi tão difícil porque tenho constituição magra e pratico ioga há muitos anos. Segui uma dieta vegana e trabalhei muito. O mais difícil foi manter a dieta nas minhas férias.

O filme pode ser duro para o público porque a sociedade tem dificuldade de lidar com doença e com o envelhecimento?
Depende do público. Qualquer pessoa que sinta que está perdendo o controle sobre o próprio corpo pode se identificar com a história. Mas, sim, a nossa cultura ocidental não honra a sabedoria da vida. Preferimos a cultura da beleza e juventude.

Babenco disse que o filme não é autobiográfico, mas é inspirado em situações verídicas. Como foi a relação com ele?
Viu a minha situação? (risos). Obviamente é um filme pessoal, guiado pela experiência dele. Mas, quando eu perguntava por detalhes de algumas cenas, ele dizia: “Você que é o personagem, o ego. Por que pergunta para mim?”. Foi engraçado, mas entendi o que ele estava propondo. E foi forte pra mim. Mesmo não sendo exatamente seu alterego, eu queria protegê-lo. Como ator, é um lugar interessante para se estar. E como é um filme sobre o amor à vida e o amor ao cinema – e de uma pessoa que esteve fora dessa amor e voltou para isso – foi poderoso e inspirador.

É verdade que você fez questão de estar no set de filmagem durante o filme todo, mesmo nas cenas só dos outros?
Sim. Quando faço um filme gosto de estar perto, acompanhar o processo inteiro. Se você fica longe do set, acontecem coisas que você não acompanha: quem brigou, se o almoço estava bom, se a última cena deu certo. E isso é importante de saber, porque influencia muito no seu trabalho. Eu sou assim. Gosto de estar todos os minutos, nunca gostei de dublês ou de nada que me tire do processo. Porque gosto de participar do filme de forma orgânica, inteira. Além do mais, eu era a “criatura” do Hector (Babenco). Precisava ver o que ele estava fazendo, como estava criando.

Durante o filme, você morou em SP e fez questão de viver como “um paulistano”.
Sim, tentei. Mas eu estava de dieta, então tinha uma pessoa que cozinhava para mim todos os dias. Não sei se os paulistanos vivem assim (risos), não tenho isso em NY nem em Roma. Mas claro, tentei me adaptar. E gosto muito de andar pelas ruas, o que foi um pouco difícil.

Estamos na semana do Oscar. O que acha do boicote proposto por Spike Lee?
É interessante, mas não tenho posição formada. Estou ouvindo, pensando. Podem achar que isso é ser covarde, mas prefiro chamar de “pensativo”. Entendo a preocupação do movimento, mas não sei qual é a solução.

E o que acha da premiação em si? Vai acompanhar?
Não… Faço filmes, mas não sou um “Hollywood guy”. O Oscar é interessante, ajuda os filmes, divulga. Fui indicado duas vezes e entre os intervalos dessas indicações muita coisa mudou. Existe muito lobby, muito marketing. Pode ser um pouco prejudicial para os filmes.

É ano de eleição nos EUA. Você já tem um candidato?
Eu voto, mas não falo publicamente. Mas um coisa eu posso dizer: eu não vou votar no Donald Trump. / MARILIA NEUSTEIN

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