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‘O País precisa de educação para ser democrático. Sem isso, não tem futuro’
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Sonia Racy

28 Março 2016 | 00h30

TV GLOBO/DIVULGAÇÃO

TV GLOBO/DIVULGAÇÃO

Pronta para atuar em ‘Liberdade, Liberdade’,próxima novela da Globo, Lília Cabral considera a constrangedor’ ver como se comportam, nos grampos da PF, “pessoas que nos representam”.

Lília Cabral se prepara para viver mais uma personagem marcante em sua carreira – Virgínia, uma cafetina dona de um bordel – em Liberdade, Liberdade, a próxima novela das 23 horas da Globo, de Mário Teixeira, que estreia dia 11. É a segunda personagem de época que ela interpreta, em 30 anos de carreira – a outra foi a Bárbara, de Chocolate com Pimenta.

Nesta entrevista à repórter Sofia Patsch, a atriz detalha como estudou e se preparou para fazer a personagem. “Não conseguia imaginar como seria uma prostituta em 1792. No fim constatei que as cafetinas são mulheres normais”. O que isso quer dizer? “Que elas têm filhos, sobrinhos, são avós, fazem bolo, são inteiramente normais e isso com certeza não mudou de lá para cá”.

Mesmo com a rotina agitada de gravação, a atriz não deixou de mostrar sua indignação e admite “estar chocada” com o que os grampos e investigações do mundo político estão mostrando aos brasileiros. “Pessoas que nos representam, falando daquele jeito, sem elegância nenhuma… Chega a ser constrangedor”. A lição que tira disso é que “o Brasil necessita de educação para poder ser democrático e livre. País sem educação é país sem futuro”.

Questionada se o artista deve tomar uma posição em momentos como o atual, Lília preferiu falar por si: “Acho que é muito particular. Não posso falar pelos outros. Se eu sentir vontade de ir para a rua, eu vou. Nas Diretas Já eu fui”. A atriz faz também uma analogia entre o palco e o mundo político: “O que aconteceu agora foi que Brasil descobriu o que acontece na coxia da política.” A seguir os melhores momentos da conversa.

A história de Liberdade, Liberdade se passa em um momento dramático da história do Brasil, a Inconfidência Mineira, onde uns poucos homens corajosos lutavam por um País livre e republicano. E a novela chega aos espectadores em um momento também importante de nossa vida política. Como encara esse momento?
Quando surgiram todas aquelas conversas dos grampos, e da forma como vieram, com as pessoas que nos representam falando daquele jeito, sem elegância nenhuma… Pessoas em quem nós votamos, saber que conversam entre si daquela maneira, sem nenhuma educação, é chocante. Na verdade já estou chocada há muito tempo, desde o mensalão. Chega a ser constrangedor, difícil de acreditar. O País necessita de educação para poder ser democrático, livre, um país de futuro.

Essa ausência de educação abala sua esperança de um bom futuro para o Brasil?
Se olharmos para o futuro, eu acredito no Brasil. Acho que a crise que estamos vivendo é importante, porque é preciso limpar mesmo. O momento está muito difícil. Por enquanto, sei que só conseguimos ver frustração, decepção. Mas enxergo um futuro. Já passamos por vários golpes e sobrevivemos a todos. Esse, de fato, é o pior deles. Um país sem educação é um país sem futuro.

Como moradora do Rio de Janeiro, como se sentiu quando ouviu a conversa do prefeito Eduardo Paes com Lula, divulgada pela Operação Lava Jato?
Estou tentando entender a atitude. Não sei se gostaria de ter ouvido as coisas que ele falou, não é, mas ouvi. O Brasil inteiro ouviu. Acho que ele vai dormir por uns bons meses com isso na cabeça, porque o pior de tudo é que todo mundo sabe o que está acontecendo quando as pessoas saem do palco, entendeu? Sabe a coxia? A coxia, o que aconteceu foi que o Brasil descobriu, de alguma maneira, o que acontece na coxia da política. Essa é a razão do grande problema.

Acha que o artista deve se posicionar em uma hora como esta?
Olha, acho que é muito particular. Não posso falar pelos outros. Você me fez uma pergunta e eu respondi com clareza, de coração, não estou agredindo ninguém. Também não estou deixando de dizer o que penso. E não poderia ser de outra forma. É assim que me coloco. Agora, se o outro, um meu amigo, quer ir pra rua, não vou dizer nada, se eu sentir vontade de ir eu vou. Nas Diretas Já eu fui. Já fui algumas vezes.

Na novela Liberdade, Liberdade, você dará vida a Virgínia, uma dona de bordel. Você tem vivido personagens marcantes. A Virgínia também será?
Personagens politicamente incorretos quase sempre são marcantes. Quando comecei a preparação para viver Virgínia, não conseguia imaginar como seria uma prostituta em 1792. Ela seria desbocada, irreverente, irônica, alegre? Ao fim constatei que as cafetinas são mulheres normais. Elas têm filhos, têm vida, são avós, tem sobrinhos, fazem bolo, elas são completamente normais e isso com certeza não mudou de lá para cá.

O que considera mais marcante na personagem?
Essas mulheres sofrem muito com o abandono, são automaticamente fortes, sobreviventes. Principalmente naquela época, as prostitutas ao meu ver, eram as únicas mulheres independentes, faziam o que queriam, eram amantes, eram então a cabeça, o lado revolucionário da mulher, apesar de não poderem se expressar. A Virgínia é uma personagem que vai lutar muito por liberdade.

Acha que elas eram o que hoje chamamos de feministas?
Se há essa compreensão do que a mulher representa na sociedade, se já existia esse pensamento, a vontade de se libertar, então acho que estou defendendo uma posição. É uma história de ficção, onde o autor se permite, dentro desse mundo, relacionar um personagem feminino a esse contexto.

Como vê todos esses movimentos feministas de hoje? Diria que se identifica com eles?
Quando você levanta uma bandeira, você é tachado de alguma coisa. Mas sou sempre a favor de tudo aquilo que ressalta o lado positivo ao olhar o futuro. Ou seja, se você tem uma determinação, acredita e defende, mas você não está olhando só para você, está olhando para o seu redor, isso vai lhe trazer benefícios, beneficiar toda uma população, feminina.

Outra personagem sua que tinha essa veia independente era a Pereirão, de Fina Estampa. Ela representava muitas mulheres de hoje, que são mães e pais ao mesmo tempo.
Então, o que é que eu percebo como atriz? Acho que quando estou defendendo um personagem, mesmo que seja uma vilã, tenho que defender até para as pessoas enxergarem como não se deve fazer. Quando fazia Divã muita gente me chamava pra dar palestra, embora eu não seja psicóloga.

Se entregou tanto que a confundiam com a personagem.
Claro que eu tinha a minha visão daquele personagem, por isso fazia daquele jeito. E eu estava ajudando muita gente, tenho certeza disso. Então acho que estou sempre tentando colaborar, tanto no teatro quanto no cinema, na TV. De alguma maneira estou tentando colocar o coração feminino. O meu está sempre muito forte para fazer as pessoas, principalmente as mulheres, se enxergarem. E também os homens. Uma coisa não elimina a outra.

Ainda hoje as mulheres ganharem menos que os homens. O que acha disso?
Olha, sou muito reservada em questões de valores, e até mesmo na minha vida familiar. Mas gostei muito quando fizeram um discurso no Oscar defendendo a postura de atrizes, não só americanas, mas das atrizes em relação aos atores. Agora, sei do meu valor, do que me faz feliz e luto pela minha felicidade, não fico olhando o lado do outro.

A Globo está apostando cada vez mais na novela das 23 horas, com conteúdo mais adulto e formato mais enxuto que as das 21 horas. Isso acontece por influência do sucesso do Netflix?
O Netflix tá muito forte, porque de fato é muito bom. Mas acho que o povo brasileiro também gosta de assistir novela. Se a história agradar, vai pegar. Particularmente, penso assim. Então, se a história continuar agradando, não tem por que as pessoas procurarem outra coisa. O que acho que tem agradado nas novelas das 23 horas é que são menores, com começo, meio e fim de muita objetividade. Ao invés de 180 capítulos, são 66. E às vezes a história com 66 capítulos fica muito mais forte na memória do público do que a que tem 180.

É adepta das redes sociais?
Ah, não sou. Não cutuco não.

Nem Instagram ou Facebook?
Só Instagram, que eu adoro. Acho um mimo, sabe?

Está otimista com a chegada da Olimpíada no Rio?
A Olimpíada cria uma onda muito positiva, adoro passar os 15 dias assistindo os atletas lutando por uma medalha e pelo seu país. Então, se você esquecer toda essa situação que está acontecendo no País, é muito positivo. Agora, o que vai acontecer, como vai acontecer, eu particularmente não sei.

Acha que depois do evento a cidade do Rio de Janeiro pode melhorar, principalmente na questão da segurança?
O Rio está um caos. Todos os dias, minha nossa, é uma maratona andar nessa cidade. A gente é que devia ganhar uma medalha de ouro por aguentar todas essas obras. Mas, quando ficar tudo pronto, se tudo der certo, vai ficar uma maravilha. Mas nós estamos sofrendo muito, toda essa arrumação pra que a coisa funcione.

Ou seja, o tal legado dos Jogos tem de valer a pena…
A gente só pensa nisso: e quando acabar a Olimpíada, será que vai se manter – a organização, a segurança? Será que isso não pode ser um start para que nunca mais a cidade volte a ficar assim, abandonada? Ou ainda, para que não tenha violência, que seja um outro pensamento a partir de agora? Tem que ter gente na rua cuidando, sim. Que a gente tem que ser um povo educado, sim. Eu não sei como é que vai ser, mas o que esperamos é que seja o melhor, aconteça o melhor, entendeu?

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