‘O entusiasmo dos brasileiros inspira as pessoas a jogar futebol’

‘O entusiasmo dos brasileiros inspira as pessoas a jogar futebol’

Sonia Racy

16 Junho 2014 | 01h02

Trevor Edwards (Foto: Fábio Minduim/Nike)

Presidente da marca Nike, Trevor Edwards afirma que atletas como Neymar são essenciais para o  desenvolvimento de seus produtos. E aposta no País: “Queremos surpreender”.

A marca na Nike é tão valorizada que a empresa mantém, em seus quadros, um CEO destacado para cuidar especialmente deste ativo. Trata-se de Trevor Edwards, que, em sua passagem pelo Brasil, semana passada, fez questão de frisar a importância do País no desenvolvimento da linha esportiva de futebol – opção que só aconteceu nos anos 90. O movimento tardio é um dos motivos pelos quais a Nike não patrocina a Copa do Mundo – sua concorrente Adidas mantém parceria com a Fifa desde 1970.

Entretanto, logo nos primeiros anos de produtos futebolísticos, a marca conseguiu atrair parceira significativa: a seleção brasileira, de quem é patrocinadora desde 1996. “Me disseram uma vez que eu só entenderia o futebol de verdade se o visse por meio de olhos brasileiros. E o futebol de vocês sempre deu forma para nossos produtos. O entusiasmo que vocês têm inspira as pessoas a jogar. O Brasil sempre teve e acredito que sempre terá esse papel para nós”, contou Edwards à coluna – que foi recebida na “casa” montada pela empresa no Rio, especialmente para o Mundial. O espaço, um galpão de 3.800 m² localizado no zona portuária da capital fluminense, terá atividades abertas ao público todos os dias, enquanto durarem os jogos.

Além da declarada paixão pelo futebol brasileiro, Edwards – que impressiona por sua informalidade – explicou que a pesquisa da tecnologia de chuteiras da Nike é feita a partir dos jogadores que carregam a marca no peito. É o caso de Cristiano Ronaldo, David Luiz e, claro, Neymar. Segundo explicou o expert, a empresa olha, como muito cuidado e atenção redobrada, para a demanda e a necessidade dos jogadores. E, a partir daí, avança no desenvolvimento de seus produtos. “Antigamente, esses atletas eram julgados apenas pela sua capacidade de jogar. Hoje, também conta muito seu lifestyle. Esse jeito, o cabelo, o que eles vestem, tudo isso é uma oportunidade para o público se espelhar”, justifica o CEO.

Durante seu rápido rasante pelas terras tupiniquins – que considera uma das mais apaixonadas por esporte do mundo – Edwards também afirmou que o Brasil tem muito potencial. “Vocês, hoje, são o terceiro maior mercado consumidor da Nike. E aí não estou falando apenas de futebol, mas conto também com as mulheres, com o mercado do skate, tudo muito forte nas grandes cidades.” E, claro, para alegrar todos por aqui, o presidente encheu a boca para dizer que se a Nike fosse um país, seria… o Brasil.

A seguir, os melhores trechos da entrevista.

Você já afirmou que jogadores de futebol são os novos astros do rock. O que quer dizer com isso?

O que eu quis dizer é que os jogadores são os verdadeiros astros de rock do século 21. As pessoas estão observando tudo o que eles fazem, eles são fontes de inspiração e de exemplos para o público em geral. Antigamente, esses atletas eram definidos apenas pela sua capacidade de jogo, hoje também conta muito seu lifestyle. O jeito que eles andam, o que eles vestem, o cabelo, que música eles escutam… tudo isso é uma oportunidade para o público se espelhar e expressar sua paixão pelo futebol.

Neymar tem potencial para ser um grande rockstar?

Ele já é! Um jovem brasileiro, jogando no Barcelona, podendo compartilhar a sua história. Claro que ele ainda tem um futuro brilhante à sua frente, mas, sem dúvida alguma, ele já é um rockstar.

Há quem diga que a Nike é como a Apple do mundo dos esportes – em especial pela tecnologia e design. Você acha que a comparação é acertada?

Nossa marca é muito focada em trazer inspiração e inovação para qualquer atleta no mundo. E, como atleta, me refiro a qualquer pessoa que pratique esportes. Então, para nós, o mais importante é sempre desenvolver e entregar o melhor produto. Queremos surpreender nossos consumidores com algo que eles nem imaginam que poderia existir. Nossas chuteiras são um grande exemplo dessa combinação de tecnologia e design. Fazemos isso para resolver uma questão que foi trazida pelos próprios jogadores de futebol: eles queriam um produto mais leve, em que o pé estivesse mais próximo do chão. Foi a partir dessa descrição que fomos estudar essas chuteiras. Nesse sentido, podemos dizer que a Nike e a Apple são marcas semelhantes – ambas estão perseguindo o objetivo de criar os melhores produtos para os seus consumidores.

Como é feita a pesquisa quando vocês estão trabalhando em algum produto?

Nós trabalhamos com grandes atletas. É interessante, porque as pessoas acham que estamos envolvidos apenas com o patrocínio, mas, na verdade, eles são essenciais para nossas pesquisas. São a nossa fonte: nos dizem o que precisam, como podemos melhorar e suas demandas são extremamente altas. Assim, desenvolvemos nossos produtos, de acordo com a demanda. Alguns, por exemplo, pedem mais agilidade. É por isso, também, que acreditamos ter o melhor da Copa do Mundo. Porque fomos muito além da imaginação para criar essas chuteiras para serem as melhores do mundo. Elas foram desenhadas para esses atletas, a partir de demandas próprias, para conseguir conectar melhor o pé e as pernas.

Você tem uma grande visão de marketing. A que atribui o sucesso do slogan Just Do It?

É uma chamada para a ação. Uma mensagem simples, que ao mesmo tempo, é um convite e um desafio. Ele joga nos dois níveis. Isso é entendido de forma clara por todo mundo. Porque fala com a sua habilidade de se desafiar.

Os brasileiros são os maiores compradores estrangeiros das Nike stores nos EUA?

Sei que tem muitos brasileiros comprando em NY(risos), eu já vi e conversei com eles. Mas temos lojas ótimas aqui também. Acabamos de abrir uma loja inédita na praia de Copacabana, exclusivamente de futebol. Fizemos isso para que esse espaço expressasse a jornada de um jovem jogador de futebol. Sempre de olho na inspiração, na experiência. E também temos a nossas lojas online.

Os norte-americanos têm se interessado mais por futebol? A Nike aposta nisso?

Acho que agora podemos dizer que os americanos estão passando a assistir futebol aos sábado (risos). Antigamente não era assim. Estamos vendo o crescimento do futebol nos EUA. Para nós é bom porque é um mercado crescente. Temos, obviamente, uma presença forte nos EUA. E o futebol é algo que vemos como paixão em diversos países do mundo – na Europa, na África. É muito bom que nos Estados Unidos também cresça o interesse.

O Brasil teve um papel importante para o desenvolvimento da linha esportiva focada no futebol da Nike?

Sempre. Desde quando começamos a trabalhar com o Ronaldo – o original, o Fenômeno (risos)– até hoje, o Brasil tem esse papel importante. Me disseram uma vez que eu só entenderia o futebol de verdade se o visse por meio de olhos brasileiros. E o futebol daqui sempre deu forma para nossos produtos, com seu entusiasmo, questionando o que inspira as pessoas a jogar.

Em qual posição está o Brasil no ranking da marca?

Hoje, vocês estão em terceiro lugar, mas existe ainda muito potencial. Há inúmeras oportunidades de crescimento para a Nike aqui. É um país em que a população adora praticar esportes. Vocês, obviamente, amam futebol, e por isso a Copa do Mundo é um época muito importante para nós. Mas não é só isso. Olhando para o futuro, vemos um caminho de crescimento de mercado e de maior conexão com os consumidores.

Algum plano especial para o Brasil nos próximos anos?

Sim, como eu disse, o Brasil é nosso terceiro maior mercado. Além de amar futebol, o povo brasileiro gosta de praticar esportes. É só observar aqui no Rio de Janeiro mesmo: as pessoas estão nas ruas, correndo ao ar livre, na água, mexendo o corpo. Por isso, sempre digo que se a Nike fosse um país, claro que seria o Brasil.

Por quê?

Pela paixão por esportes e pela capacidade de arriscar, de ser criativo. Nós gostamos disso. E isso nos dá a segurança de que podemos dar continuidade à conexão que temos com os consumidores daqui. Só nos leva a crer que vamos crescer, não apenas no mercado do futebol, mas na nossa linha feminina fitness, na linha de skate, é uma grande oportunidade.

Quais são os maiores desafios da empresa?

O desafio é manter a continuidade com foco no consumidor. Nós conquistamos o consumidor e nosso lugar como marca, fazendo os melhores produtos. Nosso trabalho é manter essa qualidade, todos os dias, sempre, e não fazemos nada à toa.

Você pratica algum esporte?

Atualmente eu corro e jogo tênis. Sempre testo os produtos para ver como me sinto com eles.

Vazou na internet um vídeo do Obama fazendo ginástica e muita gente o criticou.

Não vi o vídeo e vou passar essa (risos). /MARILIA NEUSTEIN