‘O diálogo é a única saída para que se possa jogar fora a ignorância e o ódio’

‘O diálogo é a única saída para que se possa jogar fora a ignorância e o ódio’

Sonia Racy

08 Setembro 2014 | 01h01

Em cartaz no cinema, na TV e no teatro, Caco Ciocler quer mediar encontros para a paz. “Israelenses e palestinos precisam perceber que as diferenças são admiráveis”

Caco Ciocler está quase sem tempo. Além dos compromissos de seu documentário Esse Viver Ninguém Me Tira – sobre a mulher de Guimarães Rosa, Aracy, que salvou judeus durante a Segunda Guerra –, ele está às voltas com as gravações da novela Boogie Oogie, da TV Globo, a segunda temporada da peça Sit Down Drama, no teatro Gazeta, e também um novo texto, Terra de Ninguém, que estreia dia 19, no Sesc Vila Mariana.
Às vésperas de completar 43 anos, o ator paulistano está em circuito com De Menor, longa de Caru Alves de Souza, que ganhou o Festival do Rio. E prepara ação pró-paz no Oriente Médio – vai mediar encontros entre judeus e palestinos para tentar achar pontos de entendimento. “Enquanto ficarmos em lados opostos, a situação só vai piorar.”
Pouco antes de mais uma sessão de ensaios no Club Noir, centro de São Paulo, Caco conversou com a coluna – enquanto saboreava seu almoço, um prato de açaí.

No palco, na telinha e na telona ao mesmo tempo. Como está administrando?
Não estou… (risos) Eu dei sorte, porque a novela já havia começado, mas meu personagem ainda não tinha entrado. Ainda bem, porque as coisas teriam ficado bem mais complicadas.

Você mandou para Gramado uma versão provisória de Esse Viver Ninguém Me Tira?
Mandei, porque o processo de finalização de um filme é bastante complicado, leva tempo. A versão definitiva terá pequenas alterações.

Entrará quando em circuito?
Olha, ser selecionado para Gramado foi uma honra. Agora, sabemos que é difícil entrar no circuito de cinema, principalmente para um documentário. Estamos colhendo, por enquanto, o que a seleção para o festival nos deu, conversando com distribuidores e ainda pensando em uma estratégia de lançamento.

O filme ia se chamar O Anjo de Hamburgo. Por que a mudança?
Eu e a roteirista decidimos pela alteração porque essa alcunha, O Anjo de Hamburgo, foi criação de um jornalista muito depois do fato histórico. A Aracy jamais foi conhecida assim.

Foi difícil reunir informações para fazer o filme?
Existe pouca documentação relativa a esse episódio da vida dela, até porque a Aracy não imaginou que estivesse realizando um gesto heroico. Além disso, não podíamos falar sobre a relação dela com o Guimarães Rosa, por causa de direitos autorais. As herdeiras dele não permitem. O grande desafio do filme foi sustentar a Aracy como protagonista, retirá-la do papel de mulher do escritor. A gente escolheu falar sobre uma existência, uma vida e o que sobra de uma vida. Ela morreu com Alzheimer, sempre foi relegada à sombra do marido. Por isso o título Esse Viver Ninguém Me Tira, frase que consta de uma carta que ela escreveu para o Guimarães Rosa quando ele já estava morto – e na qual faz uma revisão da vida ao lado dele. É uma carta linda, que encerra o filme.

É uma ironia triste que ela tenha morrido com Alzheimer…
Exato, morreu esquecida de quem era e de quem foi em um país que não tem memória. É uma frase muito simbólica, que traduz o que é o filme.

Você também filmou na Austrália. Por quê?
Existe uma senhora lá chamada Marion Aracy, que tem esse nome porque a Aracy salvou os pais dela durante a Segunda Guerra. Lá descobri que ela é mãe de um dos meus melhores amigos de infância. Uma coincidência incrível. Foi quando o filme passou a fazer sentido para mim. Pois a Aracy, ao salvar os pais da Marion, que eu chamava de “tia Marion”, também mudou a minha vida.

O filme foi importante para você também espiritualmente, já que muito da gravação aconteceu em Israel?
Olha, não me considero uma pessoa religiosa, minha família não sofreu os horrores do nazismo, mas fui deparando com cenas intrigantes. Em uma gravação que estávamos fazendo no IEB (Instituto de Estudos Brasileiros, da USP), na seção de conservação de documentos, uma técnica mostrava como se conserva um jornal de época. E era um diário alemão, com uma suástica vermelha enorme. Enquanto ia me mostrando como se fazia, a câmera pegava as mãos dela cuidando do símbolo nazista, jogando água, passando a ferro… e eu não aguentei. Pensei: “Não posso botar uma suástica na tela sendo bem tratada, não posso!”. E estranhei aquele meu comportamento. Já em Israel tive a sensação de volta ao passado, porque muitas coisas que aconteciam, coisas comezinhas, como uma conversa na rua, me lembravam da minha infância na escola judaica aqui em São Paulo, ou no clube judaico. Foi como se o tempo tivesse voltado, me senti conectado com o país, me senti em casa lá. Chorei muito na hora de voltar ao Brasil.

Se sentiu mais exposto em Olga, no papel do Luis Carlos Prestes, ou filmando o documentário?
Filmando o documentário, porque eu estou assinando uma obra e, ao fazer isso, você diz muito sobre si mesmo, mais do que ao interpretar um personagem histórico. Em Esse Viver Ninguém Me Tira eu me mostro, narro em primeira pessoa, compartilho minhas descobertas. É uma exposição grande, principalmente neste momento que estamos vivendo. E só tive essa noção lá em Israel, quando exibimos o filme pela primeira vez. Pensei: “Caramba, estou me expondo (faz uma longa pausa) demais”.

Como você está vendo o atual conflito em Gaza?
O mais importante a dizer, antes de mais nada, é que a gente sabe muito pouco sobre o assunto, as pessoas têm pouquíssima informação histórica.

Você se refere aos brasileiros?
A todos nós que não vivemos lá dentro. A questão histórica existe, mas tem um outro lado que a gente precisa tentar entender. Eu posso imaginar, mas não sei que tipo de trauma, que tipo de ódio é capaz de desenvolver uma criança que assiste ao pai sendo levado, sendo morto na sua frente. Dos dois lados. Que tipo de trauma carrega uma criança que, a cada cinco minutos, precisa correr para um abrigo, porque um míssil está chegando. Tive uma reunião ontem com um grupo de amigos e nós vamos fazer alguma coisa nesse sentido.

O quê?
Há pouca gente promovendo encontros. O que mais se vê é opinião defendendo um lado ou o outro. Sem que a gente invista em encontros, a segregação vai continuar, cada vez mais raivosa, cada vez pior. Porque começa a resvalar em outras questões, em que entram o preconceito, a ignorância. Porque, quando você não conhece o outro, acaba criando uma imagem do outro. Acho que está faltando um movimento de integração. Não adianta dividir o país, por exemplo, enquanto os jovens dos dois lados não se olharem com interesse e com o amor que a diferença deveria causar. Esse discurso de que é preciso respeitar as diferenças é absolutamente hipócrita, só contribui para que se mantenham essas diferenças.

Respeitar por obrigação?
Claro, “ter de respeitar”. Enquanto a gente não entender que o legal é exatamente a diferença, o admirável é a diferença, estaremos perdidos. Por isso eu vou começar a promover eventos para reunir pessoas com opiniões opostas sobre o tema. Encontros que serão publicados na internet. Não é um debate, ainda estamos pensando no formato ideal, talvez com a presença de crianças fazendo perguntas. Será quase uma terapia de casal. Os dois sentados em um sofá, possivelmente mediados por mim. O objetivo é descobrir a solução possível para esse conflito.

Haverá uma contextualização histórica também, para balizar a conversa?
Passaremos por toda a história. E como teremos dois pontos de vista diferentes sobre essa mesma história, creio que será uma discussão bastante interessante. E que pode, sim, aproximar. Porque o que vemos hoje são apenas embates. Isso só contribui para afastar ainda mais as pessoas, complicar ainda mais a situação. Eu nunca vi a população civil de Israel tão raivosa, em um estado tão bélico, sabe? Do outro lado também. E tudo que se tem feito no sentido de informar sobre o que está acontecendo só vem piorando o cenário. É uma confusão muito perigosa para os dois lados.

As pessoas não conseguem mais pensar com tranquilidade sobre o assunto?
Parece que as pessoas têm de ser pró ou contra. A única saída é o diálogo, é juntar, para que monstros sejam desfeitos, para que se possa jogar fora a ignorância e o ódio.

Como lidar com a pecha de que “só quem vive lá entende o que está acontecendo”?
Sei que é muito fácil falar sobre o assunto aqui em São Paulo, comendo açaí. Eu, que nunca tive um grande trauma na vida, vou à terapia há dez anos para tentar entender coisas que não consigo resolver…

Seus últimos trabalhos no teatro e no cinema têm sido algo ‘intimistas’. Alguma razão especial para isso?
Tenho sentido que o mercado vem tomando conta do cinema, e isso é a coisa mais desesperante de todas. Arte e números nunca tiveram a ver. Claro que é preciso criar uma indústria… mas é importante que essa indústria não seja tão dependente e possa criar filmes experimentais. Esse outro lado é que eu não vejo nunca. A gente vive uma ditadura do “um milhão de espectadores”. Como se isso, por si só, fosse suficiente para tornar um filme bom.

Estamos vivendo também uma ditadura das comédias.
Porque é o que dá um milhão de espectadores. Mas existe uma diferença muito grande entre entretenimento e arte. Nada contra entretenimento. Eu costumo escutar dos meus pais: “A vida já está tão difícil, porque eu vou ao teatro ou ao cinema para sofrer?”. Entendo, mas a arte não é isso. Ela não faz você se esquecer da vida, pelo contrário, ela te joga de cara com a vida. Não é feita para você sofrer, mas para que você repense coisas e saia desse lugar medíocre de existência. Só que ninguém parece estar muito a fim disso. Eu me sinto, pelo menos no teatro, como um guerreiro resistente. As últimas coisas que fiz, que procurei para mim, não tinham compromisso com retorno financeiro.

Não é todo mundo que pode se dar esse luxo…
Sim, eu sei. Posso me dar esse luxo porque resolvi a questão financeira em outro lugar. Consegui que o teatro se mantivesse um lugar sagrado para mim nesse sentido. Não tenho nada contra que uma peça dê certo e que se ganhe dinheiro, mas isso não me move. Faço por questões pessoais, porque são encontros que me interessam. Acho que faz muito mais sentido um lugar como este (o Club Noir, onde ele concedeu a entrevista). É pequeno? É. São só 50 lugares, mas está sempre lotado, tem fila, tem movimentação. Permite que a gente faça coisas novas. Porque o que me interessa é o processo. Esse formato de ir atrás de um texto clássico, juntar atores que não se conhecem, caçar dinheiro… eu estou cada vez menos conectado com esse tipo de teatro.

Acha que o teatro está tentando disputar espaço com o cinema e a TV?
Acho. O teatro está tentando dar conta do entretenimento. É um erro, ele vai perder para a TV e o cinema, porque esses meios reúnem mais recursos para a linguagem do entretenimento. E o que é que só o teatro pode oferecer às pessoas? A potência do encontro físico entre quem está no palco e quem está na plateia. Esse é o desafio de diretores e atores de teatro. /DANIEL JAPIASSU