‘O ator não tem de ser dramático ou  cômico. A história é que é a motivação’

‘O ator não tem de ser dramático ou cômico. A história é que é a motivação’

Sonia Racy

11 Janeiro 2016 | 01h00

FOTO IARA MORSELLI / ESTADÃO

FOTO IARA MORSELLI / ESTADÃO

Depois de viver o palhaço Bozo em 
‘O Rei das Manhãs’, Vladimir Brichta
diz que o desafio não é
fazer drama ou humor, 
é envolver-se. E avisa: a plateia quer
‘filmes fortes, de todos os tipos’
Foram diversos projetos paralelos, entre cinema e TV, e ao fim deles Vladimir Brichta diz que, pela primeira vez em muito tempo, está realmente de férias. O ator terminou, no fim de 2015, a filmagem de O Rei das Manhãs, história baseada na vida de Arlindo Barreto – o Bozo – na qual Brichta interpreta o protagonista, processo que diz ter sido “muito intenso”.
Antes da pausa, Brichta conversou com a repórter Marilia Neustein, no lançamento do longa Vai que Dá Certo 2, sequência da comédia de mesmo nome, que estreou semana passada e na qual faz o papel de um vilão malandro. A relação do artista com o humor é de longa data. Apesar de dividir sua atuação entre comédia e drama, muitos ainda o reconhecem — ele conta — por sua atuação na TV, predominantemente voltada para o humor. Essa situação já o incomodou;  agora, não mais. “Num dado momento da carreira me preocupou. Hoje, não. Não importa o papel ser dramático ou cômico. As histórias é que têm que ser a motivação”.
De família ligada ao tema do meio ambiente (o pai é geólogo e o irmão, funcionário do Ibama), o ator comentou a tragédia de Mariana e a situação atual do País: “Estamos sendo negligentes com a própria existência, maltratando o planeta. Como diria Raul Seixas, ‘o planeta como cachorro eu vejo, quando se cansar das pulgas se livra delas no sacolejo. É assim, a gente vai ser sacolejado’”. Abaixo, os melhores trechos da entrevista.
Elói, personagem que você interpreta no longa, destoa um pouco dos outros.
Sim. Vi a pré-estreia do Vai que Dá Certo e saí com a impressão de que eu tinha acabado de assistir à melhor comédia nacional desta última leva. Quando fui convidado a fazer a sequência, aceitei sem ler o roteiro. É legal brincar um pouco com o contraponto de um personagem, em um universo de personagens tão atrapalhados. E todos conhecidos meus. Foi muito divertido.
Essa leva de atores de humor parece muito entrosada.
Sim. O convívio é muito agradável. A gente viveu um pouco esse clima também. Mas eu detesto esse papo de, ‘ah, vai ver minha peça porque a gente se diverte muito’. Temos que divertir o público. É legal e é divertido trabalhar, mas somos profissionais, trabalhamos com o objetivo de que isso tenha um bom resultado. Que divirta, agrade, que entretenha e emocione.
Você já afirmou que concorda com a ideia de a Ancine barrar algumas salas para esses grandes lançamentos internacionais. O que pensa sobre isso?
É isso mesmo. Inclusive, eu uso muito a palavra “barrar”. É um grande mérito das comédias nacionais. Mas vivemos uma coisa que também não é legal, o fato de que praticamente um único gênero domina hoje o cinema nacional.
Fala da bilheteria?
Sim, a bilheteria. E isso é legal. Essas comédias nacionais estão ganhando na bilheteria, em público, de muito blockbuster americano. Temos também o nosso blockbuster, que supera no interesse do espectador o americano. Isso é um trunfo do cinema nacional.
Acha que essa tendência devia ser estimulada? 
Queremos ser indústria. O que significa indústria? Andar com as próprias pernas. Gerar lucro. E para isso a indústria tem que ser forte, apresentando filmes fortes. E, nesse sentido, Vai que Dá Certo foi de longe, entre essas comédias, como já falei, a que mais me agradou. Agora, além disso, também é importante a Ancine limitar ou tentar coibir o que parece quase um cartel – que é o fato de um filme chegar e ocupar absolutamente todas as salas. Pois o exibidor se interessa porque sabe que vai dar bilheteria – ele é, então, o vilão da história. O que temos é que achar qual é essa medida, sem ficar culpando um único responsável. É do nosso interesse, também, que não acabe a “pesca artesanal”.
Como resolver essa equação?
O público precisa ter acesso a todos os tipos de filmes. Acesso à informação, educar-se para gostar. O público – e me incluo nele – precisa conhecer outro tipo de cinema. A gente precisa de mecanismos para proteger o que chamei de “pesca artesanal”. É necessária uma gestão inteligente para o espectador e para o cinema nacional.
Você terminou de filmar O Rei das Manhãs, que conta a história de Arlindo Barreto, o Bozo. Como se integrou nesse processo?
Ele foi muito intenso, durou uns três meses. Ainda estou tentando entender tudo. Com calma, e mais para frente, vou poder falar melhor sobre o filme. Mas posso dizer que foi uma experiência realmente intensa. O filme é inspirado no Arlindo mas não é a história dele propriamente. É diferente de fazer o Tim Maia, a Elis Regina… E isso dá uma certa liberdade. Mas foi uma experiência incrível. O Daniel Rezende (diretor) tem longa experiência e um fino trato.
Como você organiza sua preparação para um processo desses?
Normalmente eu não uso preparador de elenco, mas o filme, eventualmente, tem. Também tenho um trabalho individual, que vai um pouco pelo meu feeling. Por exemplo, pra fazer esse filme, o Vai que Dá certo 2, eu achava que precisava ter um certo peso físico e, para isso, engordei 10 Kg. Não é que precisava, mas eu sentia que isso me ajudaria. E um costume que tenho é de pedir filmes de referência para os diretores. Aí eu assisto realmente muitos filmes.
Você já disse que é sempre muito reconhecido por seus papéis cômicos, que é comum, nas ruas, os fãs te cumprimentam rindo. No entanto, você também interpreta papéis dramáticos. Como é essa relação?
É verdade. Eu faço humor e faço drama com a mesma frequência, desde sempre. Comecei em Salvador fazendo teatro, peças dramáticas, como Calígula, Equus. No Rio, comecei a fazer televisão e humor. Há bastante tempo vivo esse equilíbrio. Eu acho que, de alguma forma, o grande público no Brasil nos reconhece pela TV. Inevitavelmente, esse público me associa a humor, não tem jeito. É o frentista que vai me abordar rindo, é o garçom, o meu próprio chefe dentro da Globo, que já espera isso. É como as pessoas me reconhecem.
Isso o incomoda? 
Num dado momento da minha carreira preocupou um pouco. Hoje, não. Agora, é claro que, quando eu tenho a oportunidade de aparecer fazendo um personagem para o grande público, que não seja cômico, é um trunfo. Por outro lado, também não quero virar refém disso.
Do quê, exatamente? 
De ter que aceitar papéis dramáticos só pra fugir desse estereótipo. Isso não pode ser o que me motiva. As histórias é que têm que ser a minha motivação, não se o papel é cômico ou dramático. Tenho que ler aquela história e dizer: eu quero contar isso. Mas, como eu vinha fazendo humor na televisão com muita frequência, fui convidado pra muitas comédias no cinema… Essa associação é normal.
Seu pai é geólogo e você afirmou que o meio ambiente é assunto recorrente na sua família. Como você viu a tragédia de Mariana? 
Falamos muito sobre isso, de fato. Mas o que me preocupa de verdade é o fim do ser humano. É o fato de estarmos sendo tão negligentes com a própria existência, maltratando o planeta. Como diria Raul Seixas, “o planeta como cachorro eu vejo / quando se cansar das pulgas se livra delas / no sacolejo”. É assim, a gente vai ser sacolejado. Agora, além da questão do impacto ambiental, que é brutal, é preciso lembrar o quanto o nosso País é conivente com o jeitinho. O quanto existe, na verdade, de gente desonesta, antiética, imoral. E o Vai que dá certo brinca com isso. Retratamos nesse filme os mesmos indivíduos que estão a todo instante à nossa volta.
Você é pessimista? 
Eu acho que a gente vive um momento de intensa discussão e de esclarecimento também, no qual não dá pra abrir mão de nenhum tema que seja relevante para a sociedade. A facilidade de comunicação pelas redes sociais existe, e é claro que também algumas pessoas vão se dedicar a dizer bobagem. Apesar disso, acho bom que se discutam assuntos importantes, como o racismo, por exemplo. Só se fala de racismo porque ainda é necessário falar sobre isso. / MARILIA NEUSTEIN