Neurocientista americano se espanta com número de policiais na Cracolândia

Neurocientista americano se espanta com número de policiais na Cracolândia

Sonia Racy

14 Setembro 2017 | 00h45

CARL HART. SILVANA GARZARO/ ESTADÃO

 

“Melhor guardar o celular”, aconselha a ativista Rebeca Lerer. O aviso é para o neurocientista americano Carl Hart, que fotografava a polícia na Alameda Cleveland. É lá que se concentra, no momento, a maioria dos frequentadores da Cracolândia, que ele foi visitar ontem cedo. “É bizarra essa tentativa de mostrar a força policial de forma tão ostensiva”, observa o visitante, enquanto olha para os carros e inúmeros policiais que circulam pela área. Professor da Universidade de Columbia e especialista em dependência química e uso de drogas, Hart havia visitado a área pela última vez no fim da gestão de Fernando Haddad. “Acho que tudo está mais concentrado e com menos privacidade”, comparou. Antes de guardar de vez o celular, ele fotografa um ônibus com o slogan Crack, É Possível Vencer. “Esse slogan é estúpido. O que as pessoas estão tentando vencer realmente?”, pergunta, irônico.

A acompanhá-lo, um grupo de mais ou menos dez pessoas – jovens do Grupo Movimentos, que une moradores de favelas para discutir políticas de drogas, mais a socióloga Julita Lemgruber e ativistas. À medida em que avançam pela rua são seguidamente abordados. “Eu costumava fumar mais de 40 pedras todo dia. Foi Deus quem me salvou”, diz um senhor de terno e gravata que passava pela área. Logo depois, um morador de rua tenta em vão se comunicar com Hart. “Não sei falar inglês”, lamenta, antes de se afastar e perguntar quem era o gringo.


“Não quero que pareça que estamos visitando um zoológico”, explica o professor. Para ele – que na adolescência chegou a traficar maconha em Miami –, mais do que viciadas, boa parte das pessoas no local são vítimas da pobreza, do racismo e de doenças mentais.

“O que nós vemos aqui não é diferente do que se vê em áreas de Vancouver, por exemplo. Mas eles não chamam de Cracolândia. O uso dessa palavra permite que se descarte pessoas, classificando-as apenas como craqueiros. Isso é desonesto”, diz o professor. Quase no fim da visita, um frequentador da área é abordado por dois policiais militares em motocicletas. Eles observavam de longe o deslocamento do grupo pelo quarteirão desde o início da visita. Armas em punho e revista chamam a atenção do americano, que, ignorando a instrução inicial, filma disfarçadamente a cena. / MARCELA PAES