“Nem tudo é amor em Paraisópolis”

“Nem tudo é amor em Paraisópolis”

Sonia Racy

09 Maio 2015 | 01h12

Gilson Rodrigues (Foto: Paulo Giandalia/Estadão)

Diariamente, e várias vezes ao dia, moradores chegam à sede da União de Moradores e do Comércio de Paraisópolis, zona sul de São Paulo, com pedidos que vão de arroz e feijão a apartamentos. Seu presidente, Gilson Rodrigues, não consegue andar dez metros sem ser parado: “Ô, Gilson, e o esgoto que continua aberto?”; “Você tem algum alimento para me arrumar? Estou sem nada em casa”.

É ali, na segunda maior favela de São Paulo, que os atores Bruna Marquezine, Tatá Werneck, Caio Castro e Henri Castelli estão circulando desde agosto do ano passado, para o chamado “laboratório”. Eles fazem parte do elenco da próxima novela das sete da Globo, I Love Paraisópolis, que estreia segunda. Mas, apesar de se terem tornado protagonistas da ficção e estarem se acostumando a trombar com os globais pelas vielas da comunidade, os mais de 100 mil moradores vivem uma realidade em que “nem tudo é amor” – nas palavras de Gilson, há seis anos à frente da associação de moradores. “O nosso sonho não é ser a maior favela de São Paulo e a quinta maior do Brasil. É ver Paraisópolis transformada em um bairro, o melhor da cidade”, diz ele.

As principais demandas? A urbanização da área, e, principalmente com a canalização do Córrego do Antonico, que corre a céu aberto pela favela e recebe o esgoto de casas que não têm saneamento – cerca de mil famílias moram em cima do córrego – e a construção de unidades habitacionais. Hoje, de acordo com Gilson, cerca de seis mil pessoas, removidas de suas casas, recebem R$ 400 de aluguel social da Prefeitura, enquanto espera a sua unidade. “E, no momento, não tem nenhuma sendo construída. Se a Prefeitura juntasse o dinheiro que paga de aluguel social, construiria dois prédios por mês.”

A justificativa da Prefeitura, diz Gilson, é não ter recursos para obras de infraestrutura. “Haddad poderá se tornar o pior prefeito para Paraisópolis dos últimos dez anos. Nesta última década, independentemente da gestão, as obras aconteciam. Mas hoje não tem nada acontecendo”, compara.

A Prefeitura rebate: diz que foram investidos em Paraisópolis R$ 90 milhões, entre recursos municipais, estaduais e federais, beneficiando 20 mil famílias. Eles vão para obras de drenagem, infraestrutura, pavimentação, redes de água e esgoto, além de construção de casas e o que se informa é que 305 moradias foram entregues.

Outro problema de que se queixam os moradores é o atraso nas obras da Linha 17-Ouro do Metrô, o monotrilho. Prevista inicialmente para 2014, a nova linha só deverá ter seu primeiro trecho concluído (entre o aeroporto de Congonhas e a Marginal Pinheiros) em 2017. Mas a segunda fase, entre a Marginal e o estádio do Morumbi, passando pela favela, ainda não tem data para sair do papel. Na semana passada, Gilson esteve no Palácio dos Bandeirantes para cobrar de Geraldo Alckmin a aceleração das obras. O governador chegou a posar para fotos segurando um cartaz com os dizeres: “Eu amo Paraisópolis e garanto que o monotrilho chegará à comunidade”.

Moradores do Morumbi e a promotora de Justiça de Habitação e Urbanismo Camila Mansour Magalhães da Silveira, do Ministério Público de São Paulo, pedem na Justiça a mudança do traçado do monotrilho. A obra está interrompida. “Enquanto isso, a obra não avança. Acho inacreditável como um grupo pequeno de pessoas consegue parar uma obra tão grande, que vai beneficiar milhões de pessoas”, afirma Gilson. A associação de moradores vai entrar com ação na Corregedoria do MP questionando a decisão da promotora.

Até que o desejo de transformar Paraisópolis em bairro se torne realidade, Gilson diz que sua intenção é seguir tocando os projetos criados por lá, como o Escola do Povo, cuja madrinha é D. Marisa, mulher de Lula. O programa tem como principal objetivo erradicar o analfabetismo dentro da comunidade – e, garante, longe da política. Em 2012, ele foi candidato a vereador e, ano passado, disputou uma vaga na Assembleia paulista, pelo nanico PPL./THAIS ARBEX