‘Infelizmente, há 16 anos eu anulo meu voto’

‘Infelizmente, há 16 anos eu anulo meu voto’

Sonia Racy

05 Março 2018 | 00h46

CAROLINA FERRAZ. FOTO DANIELA RAMIRO/ ESTADÃO

A atriz, que estreou nova peça na sexta-feira,
em SP, diz que não
se sente representada pelos políticos.
“Nem sei mais a quem responsabilizar, mas
chega. Estamos em uma hora em que chega.”

Ação conjunta entre Carolina Ferraz, Otávio Martins e Isser Korik tem tudo para se transformar em uma nova empresa. Seu primeiro passo está dado. O trio produziu a primeira de uma série de espetáculos que serão apresentados em São Paulo. “Estou muito interessada em resgatar as minhas raízes paulistanas”, contou Carolina, em conversa com a coluna.

A peça estreou sexta-feira, no Teatro Folha. Intitulada Que Tal Nós Dois?, é uma comédia a respeito de casal que se encontra uma vez por ano, sempre em uma ocasião especial, dentro de um quarto de hotel. São amantes, apesar de casados. Mais que isso, Carolina não conta. “O Isser é brilhante, nunca trabalhei com um diretor que tivesse tanta técnica de comédia”, afirma, embora se considere uma atriz de formação cômica. Já Martins é “supercompanheiro, trabalhei algumas vezes com ele. E é também autor da peça, com a Juliana Araripe”.

Para Carolina, o momento do Brasil é complicado. A atriz anula seu voto há 16 anos: não se sente representada. Faz alguma ação  política? “Como cidadã, acho que deveríamos, em tese, nos envolver.Em movimentos sociais, sou uma pessoa bastante engajada. Mas não fico falando a respeito, muita gente usa isso também como maneira de se promover”, explica. “Nem sei mais a quem responsabilizar, mas chega. Estamos em uma hora que chega.” E acrescenta: “Quero fazer tudo que eu puder pra que todos vivam melhor”. Aqui vão trechos da entrevista.

Fazer peça no Brasil é difícil. Como vocês estão se financiando?
Estamos fazendo a peça totalmente sem dinheiro. Chegou uma hora em que não dava mais para esperar patrocínio. Tínhamos o texto, o ator, o diretor. Falei: gente, vamos fazer, tenho certeza de que vai dar certo. As dificuldades do País acabam obrigando a gente a encontrar soluções mais criativas. Que podem até abrir novas portas para não ficarmos parados esperando o mercado mudar ou a situação melhorar.

Por falar em apoio, o que você acha da Lei Rouanet?
O mercado do entretenimento no Brasil devia ser visto de uma maneira mais profissional. Gera empregos, cria oportunidades e até gera dividendos para sociedade. Entretanto, fazemos isso sem incentivos fiscais. É muito difícil produzir qualquer coisa relacionada à cultura. Só estou conseguindo porque a peça tem duas pessoas e uma delas é o autor. O cenário é uma cama e o diretor está com a gente.

Você saiu da Globo recentemente. Outros projetos novos?
Além deste, acabamos de comprar os direitos para fazer um longa em julho que se chama A Chance. E lanço meu livro de culinária novo agora em abril, o Na Cozinha com Carolina 2.

Novela?
Não estou pensando nisso, apesar de ter enorme prazer em fazer novela. Mas já que eu estou livre para poder tentar outras coisas, vou experimentar.

Cozinhar é uma das coisas de que você mais gosta. Pretende montar outro programa de cozinha como o que tinha na GNT?
Montei um projeto novo que engloba a cozinha e outras coisas. O programa de culinária na TV fechada me humanizou muito. Foram cinco temporadas, era a maior audiência do GNT em São Paulo, era a segunda maior audiência da grade do programa do canal. Fiquei muito feliz com o sucesso porque o ator sempre está protegido pelo personagem. Quando as pessoas assistiram a Carolina ali, batendo colher na panela, tomando um copo de vinho, falando bobagem e dando risada, sendo verdadeira, se surpreenderam.

Onde foi que você aprendeu a cozinhar?
Minha mãe sempre cozinhou muito para os amigos em casa. Desde pequena eu ia pra cozinha, tentava experimentar alguma coisa. Minha mãe é mineira – e assim, grande parte da cultura da família acontece em torno da mesa. Para mim é importante almoçar, jantar.

Como é, para você, a experiência de ficar mais velha?
Fiz 50 anos, mas fiquei mais traumatizada mesmo foi com os 46. Deixei de ter 40 e poucos pra ter 40 e muitos. Agora, estou mais afim de levantar essa bandeira, na qual o Brasil vai um pouco à margem de uma tendência mundial. Se você olhar todas as campanhas publicitárias no mundo, verá que são feitas com mulheres acima de 45, 50 anos. Julianne Moore, Julia Roberts, Jennifer Aniston… até Penélope Cruz já tem 47. O mercado publicitário investe nesse tipo de mulher porque é uma mulher bonita, bem-sucedida, pode estar casada ou não, mas é uma mulher de sucesso, representa o poder aquisitivo e pode consumir determinados produtos.

De que forma chegou à decisão de ser atriz?
As meninas cresciam e queriam ser atrizes. Hoje, elas querem ser blogueiras. Fui modelo por um curto tempo, depois apresentei um programa na extinta TV Manchete e fui “descoberta”. Um diretor chegou e falou: você tem temperamento de atriz. Vamos fazer uma novela. Eu falei: não vou, eu não vou, ator é muito louco, eu não vou. Fui, gostei, e ganhei prêmio e tudo.

Tem muita gente que diz que os atores têm que ter uma personalidade mais fraca para incorporar todo tipo de personagens. Não é o seu caso. Como é que você se anula pra deixar, sei lá, a Beatriz, a Maria, a Ana, entrar?
Acho que meu universo pessoal é sempre infinitamente maior do que o universo de qualquer personagem que eu venha a interpretar. Então, não preciso me anular. Encontro um jeito de encaixar aquela personagem dentro do meu universo. Quando fui fazer um travesti em A Glória e a Graça, filme que estreou no ano passado, decidi que não ia fazer uma caricatura, algo estereotipado. Para ser autêntica, busquei dentro de mim a verdade dessa personagem.

Fez pesquisa? Foi pra rua?
Fui a campo, cheguei a ir pra noite travestida e a caráter. E falava: ai, meu Deus, e se eu encontrar alguém? Elas diziam: Carolina, se você encontrar alguém, tudo bem, que você está fazendo laboratório. O pior é o outro que você encontrar, tá fazendo o que aqui? (risos).

Fez entrevistas?
Várias, fiz 62 entrevistas. Dormi com esse projeto ruminando dentro de mim por dez anos. Ninguém queria me dar patrocínio, diziam que não ia dar certo, que eu ia destruir a minha carreira se fizesse um personagem desses. Até que a sociedade mudou diante da questão do gênero.

Você já sofreu abuso sexual, assédio, algum tipo de coisa assim?
Por acaso, não sofri. Mais conheço vários casos de amigas próximas. Infelizmente isso é fato, acontece mesmo. E tem que denunciar, tem que educar a população para uma convivência civil mais agradável, onde a gentileza de fato gere gentileza. Onde seja normal as pessoas somarem, não subtraírem. Isso é parte do momento que a gente está vivendo no Brasil.

Pessoas públicas, atores e atrizes têm facilidade porque podem falar e serem ouvidos. E como fica quem não tem esse poder?
É uma questão social. A sociedade brasileira como um todo é muito desinteressada. No Brasil, o individualismo impera. Os americanos têm consciência civil gigante e, com esse problema, montaram juntos a Fundação Times Up para ajudar pessoas que não têm condições financeiras de contratar um advogado. Aqui, reclamam até de leis de incentivo cultural.

As leis americanas estimulam a coletividade a doar, a se unir?
Sim, eles pensam: vou dar US$ 2 milhões de dólares pra subsidiar o departamento de pesquisas da universidade X porque é bom e porque tem também abatimento do imposto de renda. Eu já fui a leilões beneficentes onde alguém oferecia uma bolsa que custava 18 mil dólares e ela não era vendida nem por 3 mil dólares. Mesmo sem leis de incentivo, falta a muita gente a consciência de devolver um pouco.

E como vê o governo diante dessa situação?
A sociedade tem que exigir do governo. Eu não quero nem falar do governo porque eu acho que eu estou de saco cheio de política, estou revoltadíssima, acho que nós somos, infelizmente, coprodutores dessa situação terrível em que a gente se encontra, sabe? São anos, anos e anos de maus gestores, de corrupção geral, de banditismo, é quase uma gangue armada, sabe?

Acha que atores têm que se posicionar?
Muitos falam muito em política e falam às vezes até demais. A classe artística é muito presente. É que, de um modo geral, a classe artística está mais presente na esquerda. Eu não sou de direita, nem de esquerda porque eu não gosto de ninguém,. Anulo meu voto há 16 anos.

Isso não é omissão?
Me sinto muito mal representada. Muitos colegas de classe dizem: ah, mas e se você descobrisse que o fulano e tal, que supostamente foi considerado um cara bacana, tinha um caixa 2? Dane-se. Se descobrir que ele tem um caixa 2 tem que ir pro xilindró, tem que ser responsabilizado. O problema da corrupção está diretamente ligado à impunidade. Se a gente não cria uma sociedade que possa gerar oportunidades melhores e iguais, a gente não melhora como um todo. É como querer cuidar da criança, não basta só estar na escola.

Você mora no Rio. Sente-se segura?
Me sinto abandonada. E olha, eu moro no Rio há vários anos, nunca tive medo. Agora eu tenho. Medo de sair de carrinho com a minha filha. Moro em bairro bacana, meu IPTU é altíssimo, e tem gente que mora na porta do meu prédio. Difícil você explicar, para sua filha de dois anos e meio, que o País está miserável. As pessoas perderam não só a esperança como as condições de ter uma vida digna. Nem sei mais a quem responsabilizar, Mas chega. Estamos em uma hora que chega.