‘Não há apatia pela disputa política: há desencanto’, diz Boris Fausto

‘Não há apatia pela disputa política: há desencanto’, diz Boris Fausto

Sonia Racy

14 Maio 2018 | 09h35

BORIS FAUSTO

BORIS FAUSTO. FOTO: IARA MORSELLI/ESTADÃO

Historiador fala da crise atual da democracia, adverte que os partidos ‘perderam o chão’ e se diz atento à mobilidade social e às novas formas de atuação na sociedade

A meio caminho de uma eleição presidencial, o Brasil convive, hoje, com dois desafios diferentes, mas que se misturam. De um lado, uma política desmoralizada e uma economia que não deslancha. De outro, a impressão, em muitos setores, de que a democracia não dá mais conta de atender, num mundo globalizado e digital, às demandas da sociedade.

Já entrado em seus 90 anos, o historiador Boris Fausto, que viu de perto o intenso sobe desce da democracia brasileira ao longo do século 20, admite: os dois desafios são reais. Mas acrescenta: “A sociedade não tem apatia pela disputa eleitoral. Ela tem é desencanto.”

E ele vê cenários novos pela frente. “Assistimos à emergência de uma nova classe média ligada aos serviços, à tecnologia, aos pequenos negócios – e ela vai ter um peso político no futuro”, diz nesta entrevista a Gabriel Manzano. Esses grupos, segundo ele, “vão ocupar o antigo espaço das classes médias hoje envelhecidas”. A seguir, os melhores trechos da conversa.

As altas taxas de votos nulos e brancos nas pesquisas coincidem com uma onda de teses em que a democracia é acusada de não conseguir atender às demandas de uma sociedade digital e globalizada. Vê relação entre os dois?
Não dá para falar da democracia no Brasil sem falar de uma crise que temos no sistema democrático no mundo ocidental inteiro. Ele viveu, de um século para cá, altos e baixos. Primeiro a fase de ascensão da liberal democracia até a crise nos anos 20, depois as etapas de regimes autoritários, inclusive no Brasil. Nazismo, fascismo e estragos da Segunda Guerra Mundial foram seguidos de novo período de êxito do sistema democrático. Por aqui houve um hiato com o regime militar e enfim a redemocratização, que trouxe muitas esperanças, até exageradas. No entanto, a crise que temos hoje é diversa das outras. É mais profunda, representa uma virada.

Por que uma virada?
O discurso mudou. O que se diz, agora, é que a democracia não está dando conta. E por que isso acontece? Porque a estrutura da sociedade mudou. Não falo de princípios morais ou de comportamento. Falo no sentido de que não há mais um sistema fabril industrial como o do passado. As classes, tal como existiram naquela fase, desapareceram. Hoje temos mais uma sociedade de massas do que de classes. E isso resultou, no nosso caso, numa crise dos partidos.

Como definiria essa crise?
Comecemos lembrando que o Brasil nunca teve coesão social, a consistência e a fidelização de um grupo a uma ideia – enfim, partidos que de fato “representassem” grupos. Mas em décadas passadas, bem ou mal os partidos tinham alguma fisionomia ideológica e de classe. Havia três grandes legendas, PSD, PTB e UDN. Era Juscelino contra Lacerda… A disputa representava, sem erro, a dinâmica social. Hoje são tantos partidos e nenhum tem de fato um chão na sociedade. Não representam os representados. Levam a uma desmoralização total da democracia.

A que atribui essa decadência?
Aconteceu um grande erro cometido pelo Supremo Tribunal Federal – o de ter derrubado lá atrás a cláusula de barreira e permitir o aparecimento de dúzias de partidos. Mas o fenômeno é mais amplo. A sociedade mudou, e também a política. No passado pelo menos havia limites que ninguém se atrevia a ultrapassar, eticamente falando. No atual regime partidário se troca de legenda por tudo ou por nada, para vender apoio, comprar conforto. Implantou-se uma corrupção sistêmica como nunca se viu.

Há duas críticas básicas quanto ao regime democrático: que parte da sociedade não se interessa por política e que desafios cruciais – meio ambiente, explosão demográfica, poder financeiro, crime organizado – são hoje de ordem planetária. O que pensa disso?
É fato que os Estados nacionais não dão mais conta dessa realidade mundial. O descompasso é claro e isso põe as democracias contra a parede. A realidade da globalização tromba com a estreiteza dos Estados nacionais e isso vale não só no universo da política mas para todos os outros. Mas dizer para onde isso aponta seria mero exercício de adivinhação. E fica ainda mais complicado com a vitória de um Donald Trump e sua política, apoiada por uma massa que não quer ver essa realidade.

Como se resolveria?
Talvez com a criação de organismos internacionais que tivessem poder de decisão. Mas a experiência da ONU revela também os limites disso. A instituição vive paralisada por um mundo de vetos. Os cinco países do Conselho de Segurança adquiriram o poder de impedir qualquer coisa que não lhes agrade. Imagino aqui duas hipóteses. Uma otimista: nós vamos ter de chegar lá, porque os fatos vão se impor. Veja como os chineses estão se virando para enfrentar a calamidade da poluição. A hipótese pessimista é o que já disse Claude Lévi-Strauss: que um dia o mundo vai acabar (risos).

Outra cobrança é que a democracia ficou muito lenta ante o avanço da cultura digital. Estas enfraqueceram as formas tradicionais de organização e luta política. Concorda?
Sim, e o quadro das eleições deste ano no Brasil é um exemplo disso. A fragmentação que vemos no universo político nunca ocorreu antes. Mas é bom lembrar que temos na sociedade grupos unidos por religião, por outras causas comuns, nas quais os filiados mantêm um nexo com seu representante. Daí a atividade das bancadas da bala, a ruralista, os evangélicos. A sindicalista foi ativa, hoje está numa crise enorme.

Esses grupos são os verdadeiros partidos de hoje?
É o que temos. Haveria uma quarta força que se mostra ativa na cena política, o PT – mas ele ignorou sua missão original, virou um campeão da corrupção sistêmica e mergulhou em profunda crise. A conclusão que me ocorre disso tudo é praticar um sadio ceticismo, que não é o niilismo.

Um passo adiante seria uma reestruturação partidária?
Sim, mas é bom lembrar que a sociedade avançou muito em novos aspectos. Temos uma boa oferta de organizações sociais, movimentos contra o racismo, das lésbicas, dos gays. A pergunta é: por que esses grupos não conseguem atuar no mundo das decisões políticas?

Talvez porque, no geral, enfrentem a apatia da sociedade?
Não me parece. A sociedade não tem uma apatia ao plano eleitoral. Ela tem é desencanto, que é uma coisa diferente. As pessoas querem votar. Quantos votos teve a Marina em 2014, por exemplo? Acho que se os partidos cumprissem direito a sua parte a sociedade estaria hoje animada com a disputa eleitoral. E claro que esse eleitorado teria também a ilusão – a palavra é essa – de que um presidente resolve tudo.

O estudioso Jason Brennan Banner divide a sociedade em três grupos: os “hobbits” (desinteressados), os “hooligans” (fanáticos) e os “volcans” – a minoria que debate e busca o equilíbrio. Ele diz que só estes deveriam poder votar…
Esse quadro faz sentido nos Estados Unidos, acho. Aqui, bem menos. O que vejo no Brasil é uma crescente onda no sentido de “que se vayan todos”. Você tem uma saída para isso, que é o voto facultativo: se eu não me interesso, não vou votar. Mas valeria a pena introduzir no Brasil o voto facultativo? Pessoalmente, acho que não. Porque as minorias organizadas iriam tomar conta da política, do poder. Acho que tem outro dado a considerar. É que a sociedade brasileira tem uma classe média que é móvel.

E o que significa uma classe média móvel?
Falo de uma classe média emergente, ligada aos serviços, à tecnologia, a pequenos negócios… Para onde ela vai? Que tamanho vai ter? Não sabemos, mas isso acabará tendo um peso político aí pela frente. Eles vão ocupar o espaço das classes médias arcaicas que não têm mais lugar. E estas incluem os setores ligados ao funcionalismo público, igualmente em declínio e dependente de um Estado mergulhado em imensa crise fiscal.

A classe intelectual, nisso tudo, tem cumprido seu papel de investigação, análise e orientação para o País?
Acho que está aquém desses problemas. Sobretudo contaminada por um vírus do tipo “tenho razão e não quero saber o que você pensa”.

Ou seja, ela tem uma visão autoritária?
Não diria necessariamente autoritária, mas que se resume ao seguinte: o Lula fez grandes transformações para as classes pobres e então é razoável aceitar a corrupção como um mal menor. Ora, deveriam fazer uma análise serena, segurar essa simpatia toda, avaliar o que mudou de fato e o que é propaganda… Essa função falta no nosso meio acadêmico. Falta ouvir o outro. A identificação ideológica com os mais pobres permite aceitar coisas inaceitáveis.