‘Não faria nada diferente’, diz Lázaro Brandão ao deixar comando do Bradesco

‘Não faria nada diferente’, diz Lázaro Brandão ao deixar comando do Bradesco

Sonia Racy

11 Outubro 2017 | 00h20

LÁZARO BRANDÃO ONTEM, EM SEU ÚLTIMO DIA COMO PRESIDENTE DO CONSELHO. FOTO IARA MORSELLI / ESTADÃO

Ao se despedir do conselho do banco, o ex-presidente,
que nele atuou durante sete décadas, avisa
que continuará na administração
de duas fundações do grupo

Lázaro de Mello Brandão, que ontem entregou sua carta de demissão na reunião de conselho do Bradesco – conforme antecipado pela coluna no Broadcast – tem mais anos de instituição financeira do que o próprio Bradesco de vida. Começou a trabalhar há 75 anos na Casa Bancária, predecessora do banco, como escriturário. Tinha 16 anos. Este ano o Bradesco faz… 73.

Na carta, chama a atenção o título: Profissão de Fé. No segundo parágrafo, o discreto e tímido banqueiro, de 91 anos, assume: “Com o ego à flor da pele, perpasso em minha memória vida de jornada no Bradesco”. Lenda do mercado financeiro nacional, Brandão classifica Amador Aguiar como “mítico”. Afinal, foi unha e cutícula com o fundador do Bradesco e ambos, nesses anos todos, foram os únicos que ocuparam a cadeira de presidente do conselho do banco. O sucessor, como já estava previsto, é Luiz Carlos Trabuco, presidente executivo, com 48 anos de casa. Vai acumular os dois cargos.


Brandão, na conversa, sorriu ao ser perguntado sobre a fama da instituição, “quase religiosa”. Afirma que isso ficou para trás – e até brinca com a época em que cada funcionário tinha que fazer uma carta de próprio punho, todo fim de ano, assegurando os seus propósitos. Lembra que o Bradesco foi quem começou primeiro a usar computador, o primeiro a ter cartão de crédito.

Mas acha correto, em linha com a tradição do banco, que os oito membros do conselho sejam “bradesquianos”. Ele classifica FHC como o melhor presidente que o Brasil já teve e aponta o Plano Cruzado como o que deu a maior dor de cabeça aos bancos. “O real foi fácil”, compara. Aqui vão os principais momentos da entrevista de quase uma hora, feita na sede do banco, na Cidade de Deus.

O senhor está no banco há quantos anos?
De banco, tenho 75 anos. Mas o Bradesco tem 73. Comecei em 1.º de setembro de 1942, como caixa bancário. É um exagero de vida trabalhando assim, né?

Foi difícil a decisão de deixar o conselho depois de uma vida inteira no banco?
Deixar a presidência do conselho foi, sim. Eu saio e só fico nas presidências da Fundação Bradesco e da Cidade de Deus Participações.

O que o levou a tomar essa decisão?
Acho que se trata de uma renovação inevitável. Da vida. Eu sou o segundo presidente do conselho. Então…

O Bradesco só teve dois presidentes de conselho em toda sua existência?
Sim, Amador Aguiar e eu. Nós transportamos para o conselho os fundamentos de renovar forças, novos ritos, novas propostas. E isso tem que continuar.

Quem o senhor escolheu para substituí-lo?
O atual vice do conselho, o (Luiz Carlos) Trabuco, nosso presidente executivo. Uma escolha natural. Não teve pesquisa.

Será que ele não teria que ter um pouco mais de tempo para conhecer o banco?
Hahaha! Vou falar isso pra ele… Ele está há 48 anos no banco, está bem para a idade. E tem força natural.

O senhor acorda todo dia e vem para o banco. Pretende agora mudar a sua rotina?
Ligeiramente. Chego às 7 horas, talvez eu venha mais tarde. Uns 15 minutos mais tarde… Aí poderei sair um pouco mais cedo. Coisas que a família acha que seria razoável.

Quantas pessoas tem o conselho hoje?
Oito. É pouca gente. São todos egressos dos quadros do banco.

Como o Bradesco sobreviveu a todos esses anos de crise do País?
Com empenho de ajudar o Brasil, dar a sua participação. Mas nós somos, sobretudo, um banco doméstico. Temos agências lá fora só para apoio dos nossos clientes. O Brasil interessa sobremaneira para o banco. Ele está em todo canto.

Alcança mais municípios que o Banco do Brasil, não é isso?
Mais. A concorrência surpreendentemente não tomou esse caminho no sistema online. Nós temos nesse sistema 39 mil correspondentes.

Vocês nunca pensaram em ir para o exterior?
Para explorar, não. Temos para apoio de operações.

O seu maior concorrente na área privada entrou na América Latina inteira. Vocês algum dia avaliaram fazer o mesmo?
Sempre achamos que isso desviaria muito da nossa intenção de unidade, dos objetivos.

Indo para o futuro. O senhor viveu todos as fases deste banco e do Pais. Quais foram os momentos mais difíceis e os que lhe deram mais satisfação?
Bom, fundamentalmente quando veio o Plano Cruzado. A inflação batia recordes mas ela criava um floating. Um dinheiro que ficava sem ser utilizado e era uma fonte importante para o banco, nós trabalhávamos com isso. Não que o banco quisesse inflação, mas ela existia. O momento mais crítico foi quando veio o Plano Cruzado porque, com ele, a inflação desapareceu e o floating do sistema financeiro também. Os bancos, antes disto, não cobravam tarifas dos clientes. A inflação supria este custo. Tínhamos margem para sobreviver sem tarifa. Até implementar as tarifas e repor as coisas cada uma em seu lugar, tivemos um período de resultados financeiros muito estreitos. Cortamos despesas para compatibilizar com o faturamento. Fechamos 500 agências. Foi um choque em relação à rotina. Mas nós enfrentamos. Quando veio o Plano Collor, que subtraiu a poupança, também tivemos um choque grande. Enfrentamos então a ira do poupador. Esses foram os dois choques de impacto. O Cruzado e o Collor.

O Plano Cruzado foi mais difícil que o Plano Collor?
Sim, foi mais grave e teve mais impacto para nós. Sem floating, as receitas encolhiam e as despesas continuavam estáveis.

O senhor acreditava que a conversão da URV, no Plano Real, iria dar certo? A população iria trocar CR$ 2,750 por um real?
Achei que fazia sentido. A conversão foi uma sofisticação, mas isso era algo paralelo e não a essência.

Olhando o futuro, o que o sr. acha da desbancarização do sistema financeiro?
É relativo porque o que tem hoje é o digital e o banco tem um ganho de produtividade indiscutível com o avanço da tecnologia. Isso repõe outras margens que desapareceram e gera um equilíbrio.

O Bradesco tem o maior número de agências e isso tem custo alto. Vocês têm um plano de transformação dessa capilaridade?
É questão de adaptação. Isso foi sendo reajustado. O trabalho nas agências foi simplificado. Lembre-se que nosso forte é o varejo. Que não é alcançado.

Vamos falar de política. O senhor acredita que o governo Temer vai se manter até o fim?
Acredito. O primeiro teste sobre sua permanência já foi feito.

O senhor, que acompanhou o Brasil todos esses anos, acredita que a Lava Jato vai acabar com a corrupção no País?
Pelo menos vai trazê-la para níveis não tão estupendos como hoje, uma coisa de proporções gigantescas. Vai vacinar o Brasil.

Vacinar como?
Fazer com que não seja tão alarmante. Isso vai acabar.

É algo da nossa cultura?
É um despreparo do cidadão, do empresário, mas que está se conscientizando de que não vale a pena. Essas prisões e tudo, são lições, né?

Como é que o sr. está vendo as eleições de 2018?
Está muito impreciso, porque se mexe na composição política, se tem financiamento, parece que não terá… Há muitas incógnitas ainda, muitas…

O senhor acha que há possibilidade, como na França, de aparecer alguém novo, de fora do sistema, e vencer o pleito? Alguém que ainda não apareceu?
Vamos depurar, mas dentre os que já estão na prática. Não creio em pessoa nova até lá.

Henrique Meirelles se colocou como candidato. Alguém com o perfil dele tem chance?
Depende do êxito do trabalho dele. Da economia.

Qual foi o melhor presidente que o Brasil já teve?
O FHC me parece que teve um comportamento ajustado.

Foi um ponto fora da curva?
Acho que sim.

Como é que está vendo hoje a economia brasileira?
Patinando.

Tem perigo de voltarmos para trás e haver uma piora?
Não.

O sr. acha que a economia descolou da política?
Ligeiramente.

Mas não totalmente?
Não, totalmente não.

O senhor tem tido notícias de interessados em investir novamente?
O Brasil ainda tem credibilidade no exterior. A China não está pondo dinheiro à vontade aqui?

Mas a China sempre arrisca, comprará metade da África. Há interessados fora a China?
Sim.

O que o senhor acha da queda dos juros?
Para a economia, é fundamental. Os bancos têm que se recompor e por certo haverá uma menor inadimplência, que será fundamental.

Mas menor ganho também, né? Como foi a história de quando Amador Aguiar foi procurar o Walther Moreira Salles para fazer uma fusão, nos anos 70. Por que não andou?
O Bradesco sempre teve comando próprio de decisões. No protocolo que foi assinado, se dava a presidência do conselho para o Walther Moreira Salles. Era mais capitalizado. Feito o protocolo, criaram duas comissões, aqui e lá, para detalhar o processo. Nessas comissões havia recíproco desinteresse. A comissão de cá não estava interessada, nem a comissão de lá (risos). Não houve nem um árbitro pra bater na mesa. Se o Walther ou o Aguiar batesse na mesa…

O Bradesco não compra ativos financeiros que não pode controlar. Por quê?
A ideia de que o comando tem que ser unificado, mais apropriado do que dividido. Se você vai ter um companheiro sócio que tem o poder mas pensa diferente, cria um embate que enfraquece um pouco a organização.

O senhor é a favor do parlamentarismo?
Acho que não seria um bom sistema hoje em dia.

Que mensagem o senhor deixa para os mais jovens poderem acreditar no Brasil de novo?
Não há dúvidas quanto a isso, foi a sétima economia. Não há dúvida de que vamos retomar a economia do País. O nosso agronegócio é uma lição para o mundo.

O que o senhor teria feito diferente na vida profissional?
Nada.

É necessário ter Caixa e BB?
Não, é um erro tático, não tem sentido. O BB devia incorporar a atividade da Caixa, ele teria um ganho de produtividade, de vantagens. Ficam duas políticas financeiras, são distintos os trabalhos de um e outro.

E o BNDES?
O BNDES é repassador, é uma outra coisa.

Mas é necessário?
É necessário.

O senhor foi feliz aqui?
Muito.

Qual o seu sonho agora?
A Fundação, que é um trabalho que merece respeito.