‘Não é difícil levar o público à cultura, desafio é criar programas diferentes’

Sonia Racy

31 Outubro 2016 | 00h35

André Sturm (Foto: Iara Morselli/Estadão)

FOTO IARA MORSELLI / ESTADÃO

À frente de uma gestão bem sucedida
no MIS, André Sturm conta as mudanças que fez e propõe um ‘passe cultural’, com transporte grátis
para eventos nos fins de semana, a quem mostrar que já tem a entrada
 

André Sturm tinha muito claro seu objetivo ao assumir, em 2011, a direção do MIS. Pretendia reconduzir o museu, plantado no coração dos Jardins, de volta a um papel de repercussão, efervescência e ocupação do espaço público.

Conseguiu. Hoje, o museu é um ponto de referência, no mundo cultural paulistano, de boas exposições, festas matutinas, encontros gastronômicos e feiras temáticas. A qualidade da programação é um dos pilares da “reforma” que ele pôs em marcha. “Não é difícil trazer público. O desafio é criar uma programação diferente, original”, contou o cineasta, em conversa no próprio museu, com a repórter Marilia Neustein.

A labuta de Sturm, gaúcho de 50 anos e dono da distribuidora Pandora, não para por aí. Ele também toca o Cine Caixa Belas Artes, cuja reabertura, em 2014, aconteceu depois de uma mobilização popular e de boa vontade da Prefeitura e dele próprio para renegociar o contrato de aluguel com os donos do imóvel. Com esse currículo na bagagem, Sturm defende destemidamente o uso da Lei Rouanet e afirma: “A lei é essencial. Claro que houve projetos  com problemas – acabamos de ver um cara ser preso. Mas, enfim, quantos projetos são feitos por ano? Quantos recursos são investidos? Temos, hoje, uma vida cultural riquíssima no Brasil – eu digo de acesso, não de produção”.

O cineasta, que abandonou o carro há 4 anos, defende a ideia de que a cidade é um lugar a ser ocupado por todos e que seus equipamentos culturais devem ser aproveitados. Sobre a nova gestão que começa em janeiro, na área cultural, deixa uma sugestão. “Aposto numa ideia simples para facilitar o acesso da população aos eventos culturais: negociar com o governo do Estado uma espécie de passe cultural ônibus/metrô aos domingos. Mediante apresentação de um ingresso de algum espetáculo as pessoas deveriam poder usar o transporte público gratuitamente. Isso permitiria que muito mais gente pudesse circular pela cidade no dia de folga.” A seguir, os melhores trechos da entrevista.

Como foi o processo de mudança que você estabeleceu no MIS?
O museu tinha perdido sua relevância em São Paulo, estava realmente apagado. Mas ele tinha um trabalho sendo feito, tinha a sua qualidade, só que não repercutia nos meios culturais . Ele não dialogava com muita gente. Então, quando eu vim pra cá, queria atrair as pessoas com uma programação interessante. Não é difícil trazer público, o desafio é criar uma programação diferente, original. Então eu fui estabelecendo ideias, alguns conceitos.

Que tipo de conceitos?
Primeiro, criar uma série de programas para fidelizar o visitante: o cinematógrafo, a maratona infantil, os Estéreo-MIS. Com essas iniciativas, eu crio um público fiel. A segunda coisa foi a simultaneidade. É importante ter mais de uma exposição em cartaz, além desses programas. Então, o frequentador que gosta de música chega pra ver o show uma hora antes, e descobre que tem uma exposição. Ele entra, e de repente descobre um universo que não conhecia. E outra iniciativa em que nos empenhamos foi buscar temas interessantes, exposições, que pudessem trazer um público que talvez não estivesse tão acostumado a ir a museu.

Também cresceu o engajamento nas redes sociais. Muitos visitantes postam as fotos e acabam gerando uma comunicação espontânea, não é?
Exato. Eu chamei o pessoal do acervo e falei, por que é proibido fotografar? Não havia motivo pra se proibir fotografar. Era proibido porque era proibido. Eu então falei: “Não é mais proibido”. Isso fez com que a exposição do Stanley Kubrick, no primeiro final de semana, batesse um recorde de mídias sociais. E serviu também como um efeito, porque as pessoas viam aquelas fotos e queriam ver o que era aquilo. Tanto que a fila da exposição era majoritariamente de gente jovem. V

Você está à frente de um museu do Estado. Um dos “lugares comuns” que os gestores de cultura citam é que falta dinheiro para fazer uma programação de qualidade. Qual foi a fórmula que você encontrou?
É importante dizer que o nosso orçamento de 2011, 2012 e 2013 foi exatamente igual ao de 2010, em termos de dinheiro que veio do Estado. Em 2014 foi diferente, tivemos 1 milhão a mais. O que fizemos foi uma reforma administrativa, uma outra gestão dos recursos. Começar gastando menos aqui para sobrar pra programação, buscar receitas – primeiro receitas próprias, ou seja, bilheteria, cursos, colocar um restaurante aqui no museu, uma livraria, mudar o contrato de locação do estacionamento, abrir o museu mais dias da semana, colocar uma pessoa pra cuidar de eventos e alugar o museu para alguns eventos.

Tudo isso fez o museu crescer…

Nunca deixamos de abrir uma exposição porque o museu está alugado. E, em um segundo momento, fomos atrás de patrocínios. Que hoje são fundamentais. Estamos em um momento de crise no País. Nosso orçamento em 2015/2016 foi menor do que o de 2014, em valores absolutos. Ou seja, o número de reais que a gente recebeu em 2016 foi menor que em 2015, menor que em 2014. Se pensarmos em números reais, perdemos quase 40% do repasse vindo do Estado. E, mesmo assim, mantivemos uma boa programação e o museu lotado. Então, os patrocínios são fundamentais, e acho que também é importante citar a Lei Rouanet, que, agora, está sob cerco.

Sim, teve, e continua tendo, uma investigação ampla a respeito de contratos feitos no passado. Como você vê essa lei?
À parte as irregularidades que estão sendo investigadas, acho que ela é uma iniciativa essencial. Claro que foram constatados projetos com problemas – acabamos de ver um cara ser preso. Mas, veja, quantos projetos são feitos por ano? Quanto é investido? Temos, hoje, uma vida cultural no Brasil riquíssima. Eu digo de acesso, não de produção, a produção sempre teve. Mas de acesso, por causa da Lei Rouanet, que permite que muitos recursos sejam investidos na produção e no acesso. Fazemos exposições aqui no museu com ingressos a preços absolutamente acessíveis e um dia por semana com entrada gratuita. Isso só é possível quando se tem um patrocínio que permite.

De que modo o MIS se beneficiou desses recursos?
A exposição do Tim Burton só aconteceu porque tínhamos patrocínio, ela foi integralmente patrocinada com recursos via Lei Rouanet e o ProAC-ICMS. É importante ressaltar que o recurso do Estado é o que garante o pagamento da conta de água, de luz, dos funcionários, ou seja, a manutenção do equipamento é o dinheiro que vem do Estado que permite que a gente mantenha.

Mas a programação é bancada com recursos de captação?
Sim. Por exemplo, foi o patrocínio da Samsung que permitiu que a gente fizesse vários desses espetáculos gratuitos, ao invés de ser no auditório, na área externa. Então, essa parceria com as empresas é fundamental. E é bacana ver que tem empresas que percebem que isso é um ganho para a marca. Existem ainda algumas empresas que acham que a Lei Rouanet é marketing, também não é ruim. Mas muitas empresas percebem como isso pode ser integrado ao marketing como uma ferramenta nova de posicionamento, de apoio às atividades culturais.

Acredita que a maioria das críticas à lei vem da desinformação?
É isso. Eu vi várias pessoas envolvendo-se em um certo “fla-flu” político. Ouvi várias vezes acusações de que os artistas apoiavam o governo do PT e faziam isso porque recebiam dinheiro do Ministério da Cultura na Lei Rouanet. A lei foi criada no governo do Collor, implementada no governo Itamar. Foi expandida no governo Fernando Henrique. Ela não é invenção do governo da Dilma, nem do governo do Lula. Percebe? Eles nem expanderam. Pelo contrário, nos últimos anos de governo da Dilma diminuiu o valor de Lei Rouanet. Então não, é um equívoco completo. E inclusive se você pegar os maiores recebedores de Lei Rouanet verá que não são artistas, são instituições, que a coisa não têm nada de ideológica. O ministro da Cultura, qualquer que seja ele, tem zero influência sobre o dinheiro da Lei Rouanet. A ideia da Lei Rouanet, e o que ela tem de legal, é que quem dá o dinheiro são as empresas. O governo tem zero influência.

Mas existem distorções? Uma das críticas feitas à lei é que muitos espetáculos que são carérrimos fazem uso dela, quando não precisariam. Acha que as normas devem ser aperfeiçoadas? Se uma empresa estiver usando uma isenção fiscal, deveria reverter em acesso ao público?
Claro. Infelizmente, na outra vez em que a Lei Rouanet foi objeto dessa discussão, quando o Juca Ferreira era o titular do ministério, o começo do debate foi muito rico. Mas a certa altura, infelizmente, a discussão desviou para “pobres contra ricos” ou “sul contra norte”, e a conversa foi desvirtuada e não aconteceu nada. Claro que a lei pode ser melhorada, eu não tenho a menor dúvida. Um dos pontos é esse. Hoje você tem uma série de eventos que já têm tanta força, que poderiam buscar recursos de patrocínio de marketing. A empresa não precisa mais patrocinar, para não citar nomes e não ofender ninguém, certos eventos com desconto de benefício de imposto de renda. Eu tenho um cinema que tem patrocínio de um banco, o nome do banco está no cinema, que é Caixa Belas Artes. É zero incentivo fiscal, dinheiro de marketing. Por que é que eu vou dar incentivo fiscal, eu, ou eles vão querer incentivo fiscal, se eles estão com o nome na fachada de um lugar por onde que passam milhares de pessoas por dia? Todos os veículos da imprensa de São Paulo e vários outros pelo País diariamente publicam isso, eles têm comercial na tela, o cliente do banco tem desconto, é uma operação de marketing. Então, o que eu defendo eu pratico.

Por falar no Caixa Belas Artes teremos o cinema aí mais alguns anos?
Eu espero que sim. Estamos nesse momento negociando a renovação do contrato, exatamente nesse momento. Ocorre, no entanto, que mudou toda a diretoria da Caixa, mas acho que a equipe técnica vai permanecer. E eles têm uma avaliação bastante positiva, imagino que a gente continuará com o patrocínio e as coisas seguirão bastante pra frente. A questão do cinema de rua e dos eventos ao ar livre e gratuitos faz parte desse modelo de “ocupação da cidade”. O que acha que o prefeito eleito, João Doria, poderá fazer pela cultura de São Paulo? A Prefeitura tem muitos equipamentos – bibliotecas, centros culturais – espalhados pela cidade, e também muita produção. Esta é uma grande oportunidade para ampliar o acesso da população à cultura, incrementando a programação nesses locais, e, ao mesmo tempo, fazendo circular a produção. O intercâmbio de produções culturais pelas regiões da cidade pode ser muito rico, levando as atividades culturais do centro para os bairros e vice-versa.

Como isso poderia ser feito?
Aposto numa ideia simples para facilitar o acesso da população aos eventos culturais: negociar com o governo do Estado uma espécie de passe cultural ônibus/metrô aos domingos. Mediante apresentação do ingresso de um espetáculo as pessoas deveriam poder usar o transporte público gratuitamente. Isso permitira que muito mais gente pudesse circular pela cidade no dia de folga. Alguns dos espaços culturais mais importantes estão localizados na região central e e para uma família ou grupo fica caro o transporte de várias pessoas de lugares mais distantes. Sem o custo do transporte, num dia de baixa demanda, muito mais pessoas circulariam em busca de opções culturais.