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Sonia Racy

29 Fevereiro 2016 | 01h09

Foto:Priscila Prade

Foto:Priscila Prade

 

Personagem de Velho Chico, que a Globo estreia em março, ator fala do excesso de trabalho e da importância do esporte e da cultura como ‘uma saída para o País’

Nem bem Alex, de Verdades Secretas, saiu de cena e da rotina dos telespectadores, e Rodrigo Lombardi já assumiu novo papel – agora ele é o capitão Ernesto Rosa, personagem na primeira fase de Velho Chico – a novela do horário nobre da Globo que estreia dia 14. Sua participação será de oito capítulos.

Mesmo tendo o Rio São Francisco como cenário, a nova trama não abordará, no entanto, a polêmica da sua transposição, motivo de discussões acaloradas há tantos anos. O que não impede o ator de deixar seu recado. “Como é que você vai transpor um rio condenado? Essa obra é um elefante branco”, diz o agora “capitão” . E ele não perdeu a chance de comentar outro tema diário das conversas em cidades do Nordeste por onde tem andado: o vírus zika. Assunto frequente nas gravações de janeiro, o ator diz que, até onde sabe, ninguém da equipe foi mordido pelo Aedes aegypti, o mosquito transmissor da doença.

Desde que apareceu na telinha, há dez anos, o ator emplaca um protagonista atrás de outro, nas sete novelas em que atuou. “Nem eu me aguento mais”, brincou, bem-humorado, na conversa por telefone com a repórter Sofia Patsch. Consciente do ritmo acelerado a que se submeteu, ele acha que está na hora de uma pausa. “Quando o ator está trabalhando demais, precisa fazer algo que não tenha nada a ver com atuar”. E diz, brincando: Sinto que quero estudar cerâmica…”

Na conversa ele mostra, também, como o esporte está atravessado em sua biografia: seu sonho era jogar vôlei. Não conseguiu – faltou altura. Padrinho da delegação brasileira na Olimpíada, acompanha tudo de perto e espera “que o Brasil dê o exemplo”. Acima de tudo, torce “para que o esporte mostre que ele é uma saída para o País, porque ele é”. Seu lema: “Um país sem esporte e sem cultura não pode ser considerado país, né? Não adianta ter bomba nuclear, precisa ter cultura”. A seguir, os melhores momentos da conversa.

Como será Ernesto Rosa, seu personagem em Velho Chico?
Ele fará parte da primeira fase da novela, são oito capítulos, mas sua passagem será marcante. É um capitão de formação, que chega em Grotas (nome da cidade fictícia da trama) e não concorda com o modus vivendi da população, que trabalha sem descanso nos campos de algodão para enriquecer o coronel Jacinto (vivido por Tarcísio Meira). O coronel compra toda a produção para revender a um preço mais bem alto. É como a gente fala, compra a peso de rapadura pra vender a peso de ouro.

Será um herói do povo?
Ele vai clarear a mente dessas pessoas, que no começo ficarão com medo mas depois vão começar a entender sua linha de raciocínio e caminhar com o capitão, que vai bater de frente com o coronel… e aí começa o folhetim.

A novela gira em torno de duas famílias, uma a favor e outra contra a transposição do rio?
A novela não trata da transposição. Na verdade, a transposição do rio não está em questão. O Rio São Francisco é, talvez, o maior personagem da trama. Essa novela é um folhetim, é uma história de amor entre duas famílias, aquele amor impossível.

E você, Rodrigo, é a favor da transposição do rio?
Olha, isso é um assunto que vale uma outra matéria, né? Essa transposição é um elefante branco. É uma obra que não acaba e nem sabemos se ela está em andamento. Virou uma Transamazônica, que liga o nada a lugar nenhum. Acho que no mínimo é uma obra que precisa ser repensada. Como é que você vai transpor um rio condenado?

Em que sentido você diz que ele está condenado? Em termos ambientais?
Ele vai morrer porque o mar está avançando, o rio não tem pressão pra continuar. Se ele desemboca no mar, ele não tem mais pressão, o que acontece? O mar invade o rio… Aí o sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão … mas, vamos voltar à novela.

Conte.
É um retrato do Nordeste. Durante as gravações, ouvimos relatos de que lá as brigas entre famílias se arrastam durante gerações. Isso parece que está no DNA dessas pessoas. Contaram que um matou o outro porque o cachorro passou da cerca para dentro da propriedade do inimigo. E que na verdade não é muito diferente da metrópole, onde se mata por causa de um par de tênis.

É uma questão cultural.
É duro pensar assim, mas, uma vez colônia de exploração, sempre colônia de exploração.

É uma questão historicamente enraizada. Aliás, o coronelismo, que a novela vai retratar também sobrevive nos dias de hoje, não? E que contribui para muitos dos escândalos de corrupção que o Brasil vem enfrentando.
Exatamente. E aí a gente assiste a TV Senado e olha a cara dessas pessoas, que estão ali, cada uma brigando pra defender o seu. O País sempre fica em segundo plano. Os partidos se perderam. Hoje é cada um pra si, virou time de futebol.

Por falar em futebol, antes de se tornar ator você era jogador de vôlei, não?
É, eu tentei, fiz todas as categorias de base, mas aí eu não cresci. E não tem jeito, é um esporte no qual você precisa ter tamanho. Eu tenho 1m82, não dá nem pra ser gandula.

Tinha sonhos de participar de uma Olimpíada, por exemplo?
Ah, eu tinha. Eu lembro. Nossa senhora, eu lembro quando o Marcelo Negrão fez o último ponto na Olimpíada, eu assistindo, chorando com o meu pai no apartamento em que a gente morava. Olhei pro meu pai e falei: ‘Pai, quem sabe na próxima sou eu’.

O que espera da Olimpíada do Brasil? Está otimista?
Olha, chega uma hora em que tem que parar e realizar. Então eu espero que o Brasil dê um exemplo, espero que o Brasil seja um ótimo anfitrião, espero que as obras fiquem prontas no tempo certo, e espero também que o esporte mostre que ele é uma saída para o País. Porque ele é. Um país sem esporte e sem cultura não pode ser considerado país, né? Não adianta ter bomba nuclear, precisa ter cultura. Os outros países precisam saber quem você é e eles só vão saber disso através da sua cultura.

Então você está otimista.
Ah, eu sempre sou otimista. Sou padrinho da delegação brasileira. Acompanho as pesquisas, acompanho todos os objetivos do País, a questão de medalhas.

Nas gravações no Nordeste, em janeiro e fevereiro, como a equipe se comportou diante do desafio do vírus zika por lá? Receberam alguma instrução sobre como se proteger?
Ah, sempre tem. Durante as gravações os nossos pontos de apoio eram as casas dos moradores – e lá eles tomam muito cuidado. Não vi garrafa virada pra cima, água desperdiçada, você não vê poça d’água em nada.

Então ninguém da equipe foi picado pelo mosquito?
Que eu saiba, não (risos).

Já recebeu proposta para fazer cinema fora do Brasil?
Ainda não. Mas se aparecer, me sinto preparado, meu inglês é bom, sou um ator, enfim, não penso, não tenho isso como um objetivo claro na minha vida. Eu penso mais em estudar fora, em me abrir, expandir meus horizontes. Acho que o ator, quando está trabalhando demais precisa dar um tempo, precisa estudar outra coisa que não tenha nada a ver.

Sente que está vivendo um momento assim?
Sinto que quero estudar alguma coisa que não tenha nada a ver com que eu faço, tipo cerâmica… (risos). Respirar um pouco do mundo.

Desde que entrou na TV, você tem emplacado de protagonista em protagonista. Acha isso cansativo?
São 10 anos de Rede Globo, estou indo pro meu décimo-primeiro, e pra minha sétima novela. É uma loucura, as pessoas não têm noção do volume de trabalho. Quando levo alguém pra ver as filmagens no Projac, a pessoa chega e fala “ah, que legal, o cenário, que bacana”. Eu vejo esse cenário todo dia o dia inteiro e a pessoa aguenta ver uma cena, na segunda já saiu do estúdio (risos), não aguenta. É uma loucura.

Como passa o tempo quando não está gravando?
Gosto de ficar em casa, vejo filmes, séries, fico com o meu filho, jogo videogame. Adoro esse universo de jogos, animação, sou um nerd.

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