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‘Na educação, começamos a sair da indigência, e a ruptura é para melhor’, diz Cortella

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‘Na educação, começamos a sair da indigência, e a ruptura é para melhor’, diz Cortella

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Sonia Racy

15 Fevereiro 2016 | 01h40

Ricardo Chicarelli – Estadão

Filósofo e educador se diz otimista com o futuro, mas avisa: não basta maior acesso ao ensino, é preciso que os alunos permaneçam e isso ‘seja relevante para a vida coletiva’
Mario Sergio Cortella escreve livros, faz comentários em rádio e TV e dá pelo menos 60 palestras por mês. Mas garante: sua vida “não é corrida, é organizada”. Antigamente, compara, dava aula de manhã, à tarde e à noite. Filósofo, educador e escritor, ele tem uma bagagem que vai além da sala de aula: foi também secretário municipal da Educação da gestão da Luiza Erundina. Nesta entrevista a Marina Gama Cubas, ele volta o olhar para os últimos 30 anos – um período em que o Brasil “começou a sair da indigência na área da educação escolar” e constata “uma ruptura para melhor”. Mede a temperatura da geração que foi às ruas reivindicar seus sonhos, conclui que há muito o que fazer, mas sua mensagem é a de um otimista, inclusive quando o assunto é ética: “Somos um País na adolescência, caminhando para a maturidade”. A seguir, os principais trechos da entrevista.
O Brasil tem conseguido avançar na direção de ser a pátria educadora?
Bastante. O lema adotado veio num momento perturbado, de restrições orçamentárias, mas deveria ser colocado como um projeto de nação. O Brasil, nos últimos 30 anos, começou a sair da indigência na área da educação escolar. Seja nos governos de FHC, de Lula, no primeiro mandato da Dilma ou agora. Evidentemente isso não nos acalma. Apenas traz a certeza de que é possível fazê-lo.
O que chama de indigência na educação?
Durante séculos tivemos um nível de exclusão na educação básica muito forte, além de um nível de analfabetismo adulto que ainda é vergonhoso, mas que saiu dos patamares de tempos anteriores. Havia ainda um ensino superior restrito a uma camada menor da população sob o argumento de que isso resultaria em maior qualidade – o que, numa democracia, é um argumento inaceitável. Se você não tem quantidade total, não tem qualidade, tem privilégio. Nesse sentido, há uma ruptura nos últimos 30 anos, para melhor. Além disso, o Brasil não tinha quase instrumentos de avaliação das suas estruturas educacionais. As ferramentas de hoje permitem uma visão mais nítida do que estamos fazendo. E também, claro, a Constituição de 1988 alterou a distribuição de recursos e aumentou a possibilidade de sustentação da educação municipal. Mas, repetindo Churchill, estamos no fim do começo. Não no começo do fim.
Qual o grande problema da educação brasileira hoje?
Temos três grandes problemas. Um deles é a democratização não só do acesso, mas também da permanência. Não basta colocar crianças na escola em larga escala, é preciso que elas permaneçam e tenham uma educação que seja relevante para a vida coletiva. Não só com capacitação técnica, mas com base de cidadania. Em segundo lugar, precisamos de uma nova qualidade de ensino, com uma estrutura mais voltada para o século 21. Costumo brincar que temos um choque intersecular na estrutura educacional. Os alunos são do século 21. Nós, professores, somos do século 20. E as metodologias e a organização são do século 19. E essa necessidade de atualização exige uma formação mais continuada da parte docente. O que significa, também, ter maiores recursos.
Como viu a ocupação de escolas por estudantes no final do ano passado?
Um movimento belíssimo no sentido pedagógico, porque acabou fazendo com que se desse uma atenção maior para a questão que era decisiva na vida das famílias e das comunidades: a da reestruturação escolar. Ela mostrou do que um grupo de jovens, que não teve como referência de ação política uma estrutura ditatorial, é capaz quando pode atuar em um contexto democrático e para aquilo que considera correto. Houve um equívoco, no primeiro momento, de chamar a atitude dos estudantes de invasão. Quando o espaço é público, se tem uma ocupação. E essa ocupação se dá em nome das ideias defendidas. Essa ação pode se transformar em um esforço coletivo para que tanto a autoridade docente como os estudantes surfem em outras ondas – as necessárias para que a educação não seja menos relevante do que deve ser.
Pesquisa do Data Popular mostra que apenas 3% dos brasileiros afirmam ser corruptos, mas que 70% admitem ter tomado pelo menos uma vez na vida uma atitude corrupta. Uma ação torna alguém corrupto?
Nenhum e nenhuma de nós é imune à degradação ética. Nenhum e nenhuma de nós é invulnerável. Por exemplo, se eu considerar um ato corrupto eu ter colado na prova, ou ter tentado passar à frente de alguém na fila. Esses atos do cotidiano, se reiterados, caminharão em direção a uma corrupção mais extensa. Esses delitos nossos, que individualmente ou isoladamente têm uma ressonância menor, se tornados hábitos agregam uma negatividade. O fato de se poder dizer que nenhum de nós é imune, no entanto, não significa que isso seja obrigatório. Como costumo dizer sempre, a corrupção é uma possibilidade, não é uma obrigatoriedade. Apenas 3% admitirem isso é um índice que eu olharia como reduzido se imaginarmos o quanto somos, de fato, capazes de qualificar a corrupção de vários modos.
As pessoas não conseguem ver a corrupção nos próprios atos?
Não conseguimos. Temos uma coisa chamada consciência que trabalha muito fortemente o que chamamos de “ética da conveniência”. Ela ocorre em vários casos. Por exemplo, quando a pessoa diz “eu faço, mas todo mundo faz”. Ou: “se não for assim, eu não vou conseguir”. A ética da conveniência é malévola porque degrada a nossa condição, mas não é privativa da brasilidade. Precisamos ter cautela ao falar em ética para não esquecer que ética não é cosmética, uma coisa de fachada. Vamos a um exemplo. No parâmetro em relação à corrupção do mundo, que saiu há algumas semanas, um dos países menos corruptos, em nível de governo, é a Suíça. Mas é um dos países que mais acolhem dinheiro corrupto do mundo. É necessário ter cautela com essa hipocrisia. Ao mesmo tempo, temos um aprendizado de conduta em relação ao nosso modo de vida privado e público. Isso significa que há uma construção histórica em relação aos nossos direitos e deveres. Por que somos hoje mais propensos a desejar a honestidade? Porque temos uma imprensa livre que pode tornar público aquilo que é necessário. Também porque temos tecnologia digital que nos coloca em estado de vigilância mais contínua. E porque uma parte de nós já entendeu que a fratura ética leva à derrota coletiva.
Acha que o Brasil vai sair melhor da Lava Jato?
Cada vez mais. Há todo um ambiente, hoje, que é mais favorável a que a gente fique mais atento em relação às condutas privada e pública. Se nós formos os mesmos daqui a 10 anos, isso será um sinal de que a nossa canalhice é superior à nossa decência, e não acredito que assim seja.
Você diz que a democracia é aceitação coletiva das regras.  A coletividade, então, pode quebrar essas regras?
Nas democracias há o direito de insubordinação civil, que é a recusa da população ou de parte dela a algo que considere inadequado, injusto ou violento. O filósofo John Locke, no Tratado sobre o Governo Civil, fala do equilíbrio entre os poderes, e esse elemento é um dos que influenciaram a independência dos Estados Unidos e a Constituição brasileira de 1988. A Constituição não está além da própria vida em comunidade.
Os atos nas ruas mostraram também manifestações de intolerância. Como vê isso?
Há aí algo que Vladimir Lênin chamava de teoria da curvatura da vara. É uma ideia fácil de entender: após você pegar uma vareta que está fincada no chão e envergá-la fortemente numa direção, ao soltá-la ela vai fortemente na direção oposta. As manifestações dos últimos tempos permitiram que viessem à tona não só pensamentos contrários e divergentes, mas também as doenças. Isto é, as doenças mentais, principalmente a da intolerância, que é sinônimo de covardia e de incapacidade de ouvir aquilo que não pensa.
Estamos mais intolerantes?
É maior, hoje, a possibilidade de aclarar a intolerância. As pessoas têm muito maior condição de ser intolerantes e repartir esse comportamento. Não tínhamos, até algum tempo, qualquer plataforma em que eu pudesse manifestar isso, exceto individualmente. Em segundo lugar, eu nem poderia fazê-lo porque seria imediatamente submetido à pressão de alguém mais poderoso. Em terceiro, a violência no mundo é muito mais reduzida, comparada ao que já foi. Nós temos hoje capacidade maior de produzir violência, mas a rejeição a ela é maior.
Você se considera um realista ou um otimista?
Eu acho que todo o otimista é um realista compromissado. O pessimista é acima de tudo um desistente, que se senta e espera dar errado. O otimista tem muito mais trabalho porque precisa ir atrás. Prefiro ser otimista.
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