No Memorial, toda força à pluralidade

No Memorial, toda força à pluralidade

Sonia Racy

13 Abril 2018 | 00h15

Salvador Cordaro

O Memorial da América Latina está de cara nova. Ou melhor, de logo novo. A tradicional mão sangrando, desenhada por Oscar Niemeyer e símbolo do espaço cultural, agora ganha uma gota (foto à direita). Para Irineu Ferraz, presidente da instituição, a repaginada tem a ver com uma dinâmica que foi tomando conta da fundação, cada vez mais em busca da realização de eventos plurais. Abaixo, os trechos da entrevista.

Como está sendo estruturada essa nova fase do Memorial da América Latina pautado na pluralidade?

O Memorial sempre foi plural. Não podemos esquecer que somos parte do legado do Darcy Ribeiro, que tinha um pensamento plural. Fazia parte da luta incansável pelos indígenas, pela educação e cultura. É um exemplo de conduta, sobretudo nestes tempos que a gente vive hoje. E o Memorial, nesses últimos anos, mudou o perfil em cima da pluralidade. Completamos 29 anos e reestilizamos o nosso logo. Agora, a tradicional mão desenhada por Oscar Niemeyer, na qual escorre o sangue da América Latina, se transforma em uma gota. É basicamente isso: somos um espaço plural de cultura.

Isso pode ser percebido nos eventos do Memorial.

Sim, fizemos exposição do Chaves – um comediante mexicano, que trouxe 300 mil pessoas para o Memorial da América Latina. E também trouxemos a mostra de um discípulo de Picasso, o Wilfredo Lam. Então, tivemos a exposição temática de um artista cômico que dá oportunidade a um artista discípulo do Picasso de vir pra São Paulo e mostrar a sua arte.

Falou-se muito nas últimas eleições municipais em ocupar os espaços públicos e de cultura. Isso é uma prioridade?

Lógico. Na realidade, o nosso objetivo é que toda manifestação cultural brasileira, latino-americana, venha para o Memorial. Estamos de portas abertas tanto para os artistas que não são conhecidos como para aqueles que vêm em busca de bilheteria. E sempre prezamos os eventos gratuitos: shows de rua na Praça Cívica, sem falar nos festivais latinos – que são uma marca nossa – como o Alasitas e a festa multicultural da Bolívia, que chega a trazer 30 a 40 mil pessoas em um final de semana. Nós temos também a festa da independência da Colômbia, o Dia Dos Mortos do México. Tudo isso para a população de São Paulo.

Não é desafiador falar de diversidade e pluralidade em tempos de polarização?

Não deixa de ser um desafio, mas a minha grande missão é estreitar as relações culturais, sociais, econômicas e políticas que existem no Brasil e na América Latina. Então, eu tenho que tornar isto aqui cada dia mais plural, aceitando a diversidade étnica do afrodescendente e também do imigrante latino-americano – que é discriminado. Falo aqui principalmente dos bolivianos e peruanos, que estão vivendo situações muito difíceis. E também os brasileiros: existe uma discriminação do caiçara, do caipira. Abrimos espaço para todo mundo, procurando mostrar o que são todas essas culturas.

O Memorial ficou marcado pelo incêndio de seu anfiteatro. Como estão as instalações de segurança do local?

São três pilares: segurança, acessibilidade e conforto. Nós tivemos as licenças fiscalizadas e liberadas pelo corpo de bombeiros antes da inauguração do anfiteatro. Cumprimos todas as determinações e exigências do corpo de bombeiros. Hoje, nosso sistema é muito bem estruturado. Sem falar que toda a concepção do novo auditório, moderno, foi pensada com essa prevenção: carpete antichama, poltronas antichama, palco de madeira com produto idem. / MARILIA NEUSTEIN