Marcelo Rosenbaum cria instituto e transforma vida de vilarejo com arte

Marcelo Rosenbaum cria instituto e transforma vida de vilarejo com arte

Sonia Racy

25 Junho 2016 | 00h40

FOTO: IARA MORSELLI/ESTADÃO

FOTO: IARA MORSELLI/ESTADÃO

Como grande confirmação de um projeto pessoal, Marcelo Rosenbaum inaugura quarta-feira, no MAM, o Instituto A Gente Transforma. Na noite, ele também lança livro e documentário em que fala de sua aventura e da transformação de Várzea Queimada – uma pequena comunidade perdida no interior do Piauí que, em 2012, tinha o menor IDH do País. O novo instituto terá como diretora Mônica Barroso. O projeto transformou cestos e pneus de caminhão em peças de design, numa virada que mudou o destino do povoado. A seguir, trechos da conversa, em que o designer fala da economia criativa em comunidades carentes.

Como você foi parar em Várzea Queimada?
Cheguei por estatística. Era o local com o menor índice de desenvolvimento humano do Brasil. Lá todos são primos: ou é Carvalho ou é Barbosa. Por causa desse cruzamento entre parentes, é proporcionalmente, um dos lugares do mundo onde existem mais pessoas surdas. Imagine como foi chegar nesse lugar parado no tempo.

E como foi esse contato?
Vimos que lá as pessoas são felizes com o pouco que têm e que o contato direto com a natureza é muito rico. Mas ao invés de transformar o lugar, ele acabou nos transformando. Além dos cestos, os homens criam joias com uma faca e a borracha dos pneus. São verdadeiros artesãos. Essa riqueza cultural é a alma do projeto A Gente Transforma.


Que tipo de trabalho foi feito?
A experiência em Várzea Queimada serviu de laboratório para criarmos uma metodologia que chamamos de Design Essencial – que é olhar para uma cultura, potencializar seus valores em projetos que inovam e mudar a realidade através do design. O instituto vai aplicar essa metodologia em diversos projetos, gerir o relacionamento com as comunidades e zelar por seus direitos de propriedade intelectual e pela repartição de benefícios. Ficará mais fácil articular parcerias com os setores público e privado e dialogar com universidades. Já aplicamos esse método no Peru, a convite do governo de lá.

Na prática, como é aplicada essa metodologia?
Trabalhamos o artesanato com a reinclusão da cultura de seus antepassados. Mesmo um local tido como pobre têm enorme potencial de desenvolvimento, revela saberes ancestrais e novas oportunidades.

Foi o que fizeram no Piauí?
Em Várzea Queimada havia cestos feitos com a palha de carnaúba e fabricados por técnicas passadas de geração em geração. Ninguém dava o menor valor. Com a ajuda do nosso projeto, os cestos viraram peças de design – são eles que ilustram a foto com a modelo Carol Trentini. Em resumo, resgatamos o passado e geramos renda para melhorar a qualidade de vida dessas comunidades. / SOFIA PATSCH