‘Literatura está bem, mas falta diversidade e risco’, diz autora

‘Literatura está bem, mas falta diversidade e risco’, diz autora

Sonia Racy

30 Janeiro 2017 | 01h58

EXCLUSIVO DIRETO DA FONTE

 

Noemi Jaffe, que prepara novo livro, não crê
em uma
‘literatura feminina’ e critica
‘essa pasteurização,
a necessidade de uma coisa
que surpreenda o tempo todo’

Para Noemi Jaffe, dar aulas e existir “são a mesma coisa”. Ela começou a ensinar aos 17 anos e acumulou uma grande experiência em escolas, cursos e oficinas até abrir seu próprio espaço no ano passado, o Escrevedeira. Ali, ela orienta grupos de escrita, aulas, oficinas. “As pessoas têm uma relação de gratidão por aquele conhecimento”, explica à repórter Marilia Neustein, em sua casa no Butantã. 

Participar dessa democratização de conhecimento é só uma das frentes de trabalho da escritora, que está debruçada em um novo romance que aborda os conflitos de uma professora de Filosofia que se aposenta. Indagada sobre as questões que afligem muitas mulheres escritoras, é enfática ao dizer que não acredita em uma “literatura feminina”: “Como seria uma dicção feminina? Mais sensível, delicada? E essa visão do que seja uma dicção feminina é muito machista, porque uma narradora mulher pode ter uma dicção grossa, rude, agressiva, e ainda assim ser muito feminina”, diz.

No entanto, não deixa de acreditar que escritoras devem cada vez mais galgar seu espaço no mercado editorial. “Não podemos nos deixar levar por esse automatismo de ir sempre atrás do que está mais em voga porque o que está mais em voga são sempre os homens.”

Além do bom e velho livro, Noemi também faz uso das redes sociais. Todos os dias posta uma etimologia em seu Twitter e escreve em seu blog. Mesmo assim, procura refletir  sobre os impactos que a internet causa na experiência literária – tanto de leitura como de escrita “As mediações que estão ocupando todos os espaços fazem com que a duração – que eu acho a coisa mais importante na fruição de qualquer manifestação estética – desapareça”. Abaixo, os melhores trechos da entrevista.

Além de escritora, você é crítica literária e professora de literatura. Qual a sua avaliação do atual cenário literário do Brasil?
Vejo pontos positivos e negativos. Por exemplo, a poesia brasileira vive uma explosão de ótimas poetas mulheres, jovens, incríveis. Isso é algo muito bom, mesmo não sendo tão valorizado comercialmente. Outra coisa positiva é o surgimento de editoras pequenas e ótimas, com uma seleção e uma curadoria de autores muito boas. Na periferia também existem muitos movimentos interessantes de poetas. E um ponto no qual eu sempre encorajo meus alunos é usar as redes sociais, mostrarem seus trabalhos antes de publicar. Então acho que a literatura brasileira tá num bom momento sim, nesses sentidos.

E os lados negativos?
Um exemplo são as grandes livrarias comprando tudo e fazendo com que as pequenas fechem. Os investimentos que diminuíram, o governo que está comprando menos. E outro ponto, literariamente falando, é que eu acho que está havendo uma elevação do nível da qualidade literária mais ou menos mediano. Os livros que estão saindo são bons, mas só. Falta diversidade, autoria, experimentação, loucura e risco.

Por quê?
Porque está tudo muito travado. E também é uma necessidade tão grande de vender que eu vejo muito pouca experimentação. E eu acho que era o momento de experimentar, sabe. Se está tudo travado, você não vai ganhar nada mesmo, então ousa, sabe?

Nesse contexto, as redes sociais, na sua opinião, atrapalham o processo de leitura e escrita? O tempo e a experiência da literatura mudam com a internet?
Acho que sim. Essa pasteurização da literatura, essa necessidade de uma história, de uma coisa que te surpreenda o tempo todo… tem muito a ver com uma diminuição do tempo de tudo, uma diminuição da capacidade de fruição, de um gozo lento e do silêncio. Porque está tudo muito “mediado”. Agora, por exemplo, participo de um grupo bimestral no qual as pessoas leem seus poemas e uma das regras desse evento é que não pode fotografar, nem aparecer nas redes sociais. Assim eliminamos a mediação.

De que maneira isso impacta a experiência?
É bom não ter a mediação, porque as mediações, que estão ocupando todos os espaços, fazem com que a duração – que eu acho a coisa mais importante na fruição de qualquer manifestação estética – desapareça. Porque você está lá no evento de poemas, mas está pensando no futuro, ou seja, como isso vai aparecer na foto que será vista ali. Ou no passado, que é “eu fui lá, eu estive lá”, e como isso repercutiu. A duração é a percepção imediata no aqui e no agora de que eu estou aqui diante do que eu estou fazendo, isso está se perdendo.

Isso influencia o seu trabalho como escritora?
Sim. Sinto que eu perco muita oportunidade de ler e de escrever porque eu frequento bastante as redes sociais. Agora eu estou diminuindo.

Com as redes, existe hoje quase uma obsessão pela informação e uma exposição maior da realidade. Ao mesmo tempo, há muita procura por oficinas de literatura que trabalhem a ficção. Neste momento de superexposição da realidade, onde fica o espaço para a imaginação, a criatividade, a subjetividade?
É incrível. Parece uma cisão esquizofrênica. Eu mesma sinto isso. A realidade política está podre, então está todo mundo muito frustrado, esvaziado de expectativa, de sonho, de projetos. E isso faz com que as pessoas queiram desentupir essa questão de uma forma mais criativa, imaginativa. Então, eu vejo as pessoas nas aulas com muita vontade de desabafar, de compartilhar, de imaginar, porque a literatura é aquilo que a gente gostaria que as coisas fossem ou que a gente gostaria que as coisas não fossem. Percebo uma dedicação, uma intensidade nos projetos criativos.

Acha que a literatura pode ser transformadora?
Pessoalmente, eu tenho certeza disso. É uma coisa que eu advogo, assim, convictamente. A literatura, diferentemente do que muita gente pensa, não é abstrata como a filosofia, psicologia, antropologia. A literatura é concreta. É a vida cotidiana, pragmática, a vida objetiva de personagens. E quando você está lendo a vida de um personagem vive junto com ele a dor que ele sente, o frio, o calor, o medo. O que me permitiu compreender diversas situações da minha vida foi eu ter vivido a vida de personagens, mesmo que abstratamente. E vejo isso também nos meus leitores e nos meus alunos. Um dia desses, uma aluna falou assim, “Noemi, eu li esse conto da Clarice Lispector, eu preciso mudar meu casamento. Não dá pra eu continuar casada…” (risos).

Você já afirmou que se interessa pelas pequenas coisas que revelam um aspecto mais complexo do ser humano. De que se trata?
Acho que é justamente isso. A literatura tem muito uma forma de projetar as coisas do pequeno pro grande, por causa dessa concretude. São as pequenas coisas que revelam as grandes. Isso me interessa muito, porque as coisas pequenas são muito reveladoras das pessoas, das cenas, das ações, dos grandes sentimentos…

O que acha do recente movimento de escritoras mulheres, que reivindicam maior representatividade na literatura?
Essa discussão tem muitos lados, dois principais. Um deles é se existe literatura feminina. Eu acho que não. Acredito que homens podem escrever livros com narradoras mulheres e mulheres podem escrever livros com narradores homens, e essa coisa de dicção feminina em princípio não existe. Uma dicção feminina pode ser feita por homens, e também é muito discutível o que significa uma dicção feminina.

Em que sentido?
Como seria uma dicção feminina? Mais sensível, delicada? E essa visão do que seja uma dicção feminina é muito machista, porque uma mulher, uma narradora mulher, pode ter uma dicção grossa, rude, agressiva e ainda assim ser muito feminina. Apesar de que, acredito que o que a Virgínia Woolf disse no Um Teto Todo Seu, no começo do século XX, ainda tem um certo valor. Por exemplo, ela diz que a escritora mulher – autora, não a narradora – acabou adotando certos recursos de linguagem como as metáforas, ou aquilo que é dito pelas entrelinhas, pelo fato de que, ao longo de séculos, não pôde dizer o que queria. Por isso, precisava encontrar formas subliminares e acabou assimilando essa forma mais enigmática de dizer as coisas. Então, por conta de questões culturais, sociais, o discurso feminino acabou se tornando mais simbólico do que o discurso masculino, que é mais direto e mais pragmático. Mas isso pode muito bem ser desfeito, desarranjado.

E quanto à questão da representatividade?
Esse é o outro lado da discussão, importantíssimo. A participação das escritoras mulheres no mercado editorial. A aceitação pelos leitores das escritoras mulheres, pelas editoras, pelo mercado, pelos eventos, pelos prêmios. Precisamos estar muito atentos a isso. As editoras têm que buscar mais autoras mulheres e elas também se colocarem no mercado. Não podemos nos deixar levar por esse automatismo de ir sempre atrás do que está mais em voga porque o que está mais em voga são sempre os homens.

E você acha que a escritora mulher ainda precisa de “um teto todo seu” pra conseguir escrever, como diria Virginia Woolf?
Acho. Guardando as proporções, muita coisa melhorou, mas muita coisa ainda precisa ser feita. Porque pelo fato de muita coisa ter melhorado, deixamos de enxergar outras coisas que ainda estão sintomáticas e meio despercebidas. Então, ninguém questiona que a mulher trabalha, que a mulher precisa ganhar bem, que o homem precisa dividir as tarefas, mas deixa-se de questionar um monte de outras coisas. Então, ainda acho sim que a mulher escritora, artista, tem muitas dificuldades. A mulher do mercado corporativo, das profissões liberais, não tem tanto problema quanto a mulher artista.

Por quê?
Porque a arte é um problema. A arte não é considerada como um trabalho produtivo, um trabalho lucrativo, um trabalho que está inserido dentro do mercado de produção. Então, se a arte já é problemática, a mulher na arte é mais problemática ainda. Em conclusão, eu acho que ela ainda precisa, sim, de um teto todo seu.

A respeito do que vai ser o seu novo livro?
Esse livro é sobre um dia na vida de uma mulher que está com 58 anos e acaba de se aposentar. Ela é uma professora de Filosofia e vive essa crise do envelhecimento, de ter duas filhas já realizadas, mulheres. Tem muito a questão da mulher também nesse livro.

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