‘Intolerância é a antessala da violência e a violência é a negação da política’

‘Intolerância é a antessala da violência e a violência é a negação da política’

Sonia Racy

16 Março 2015 | 01h02

Foto: Iara Morselli/Estadão

Para o professor da Unicamp, o clima pesado das manifestações e a invasão do debate político peloradicalismodas redes sociais revelam queo atualmodelo“estáesgotado”

Anarquista nos áureos tempos, hoje um dedicado professor do Instituto de Estudos da Linguagem, na Unicamp, o professor Francisco Foot Hardman olha os vários Brasis à sua volta, a bater panelas e agitar as ruas, de um jeito impaciente e preocupado. “A intolerância é a antessala da violência e a violência é a nega- ção da política”, adverte, sobre a alta temperatura a que chegaram as recentes manifestações de rua por todo o País.

Preocupa-o “a mais absoluta superficialidade e irracionalidade” do que se diz nas redes sociais – e também o peso que elas adquiriram, ao injetar no debate político altas doses de radicalismo e a incivilidade. Livre-pensador 24 horas por dia, formado na USP e há quase três décadas na Unicamp, Hardman – que escreveu, entre outros, os livros Nem Pátria nem Patrão e Trem Fantasma – passou a semana envolvido com a Mostra Internacional de Teatro, em São Paulo, mas sem deixar de acompanhar o tenso momento vivido pelo País. Nesta entrevista, ele afirma: o atual modelo político, montado a partir do fim da ditadura, “está esgotado e a saída talvez seja uma constituinte”. E o ano que vem por aí “não vai ser fácil, não”.

A seguir, os principais trechos de sua entrevista.

Que país é este, onde ficou tão difícil dialogar e as manifestações de rua viraram palco para ódio e grosserias?

É um país desigual e injusto, com uma enorme diversidade cultural. Vivemos um momento em que várias crises se cruzam – a estagnação econômica, a paralisia da política, a urgência de medidas na questão energética, na hídrica. Tudo isso aumenta a sensação de imprevisibilidade e de insegurança.

A política deveria ser o espaço para isso ser corrigido, mas não é. Por quê?

Porque persiste uma tradição de violência – além da corrupção – que levou a um descrédito profundo com relação à política institucional. O modelo de organização política montado depois do regime militar é extremamente insatisfatório, precário, frágil, e dá claros sinais de estar esgotado.

As redes sociais parecem estar tomando o lugar dos partidos como espaço para se fazer política. No que isso vai dar?

As novas tecnologias têm um papel central nesse cenário. Elas aceleraram enormemente o ritmo de ação pelas redes e isso está deixando os partidos, tão burocráticos, para trás. Bom exemplo foram as Jornadas de Junho de 2013. Elas trouxeram à cena um tema urgente e essencial, o da mobilidade urbana, questão decisiva para 80% da população das cidades médias e grandes. Mas essas demandas esbarraram no imobilismo dos poderes tradicionais – Congresso, Estados, municípios. Donde o recado daquelas Jornadas, me parece, foi o da urgência de uma reforma política. Mas não essa reforma de que se fala por aí. Uma mais profunda, no sistema partidário, na representação, na forma de financiamento de campanhas. Projeto que, a depender do Poder Legislativo, não avançará nunca, pois sabemos que no Congresso predominarão sempre os interesses corporativos.

Mas o dinamismo das redes, por serem mais imediatistas, mais concretas e plurais, não deveria ajudar a tornar o debate político mais realista?

As redes oferecem facilidade, velocidade, mas tudo acompanhado da mais absoluta superficialidade, irracionalidade e completa dispersão das vontades no processo. E esse fenô- meno é do mundo inteiro, não só do Brasil. Prova disso foi a Primavera Árabe, que despertou sonhos mas não tinha projeto. Acabou redundando em nova ditadura militar no Egito. Em Brasília, nas mobilizações de 2013, houve quase uma ocupação do Congresso… Foram repentes, mais nada.

O anonimato das redes abriu espaço para ataques e julgamentos sumários e isso mais cria problemas do que resolve, não?

Esse ambiente virtual produz um rebaixamento acentuado da educação pública – e este, por sua vez, provoca um afastamento da política. Essa facilidade de se apresentar e dizer algo é vendida como valor democrático mas, sabidamente, não tem nada a ver com democracia.

Também na política é mais fácil destruir do que construir.

Sim. O grande problema é que tais manifestações não conduzem a fóruns coletivos onde pautas e ideias predominem. No mais das vezes, elas vão dar num vazio completo. Vazio do ponto de vista da organização social e da construção teórica, um vazio conceitual.

Quer dizer que elas só fazem parte do serviço, é isso?

Uma coisa é trazer milhares de estudantes para a rua, outra coisa é conseguir convencer trabalhadores e operários a participar. Esses movimentos se apegam a uma ideia fixa – que é limitada – em sua recusa a participar do sistema político como um todo. Disso estamos vendo sinais agora.

Quais sinais?

Em 2013, o Movimento Passe Livre tocou numa questão central do Brasil contemporâneo, a da mobilidade urbana. Quando colocam o tema “por uma vida sem catracas”, falam de algo relevante. Mas a insistência nesse ponto, sem a devida articulação com algum plano de transformação da vida política brasileira, provocou um relativo isolamento.

Nas disputas partidárias, um lado chama de ‘fascistas’ todos os que discordam dele e outro fala em impeachment da presidente Dilma ou de ‘fazê-la sangrar’. Há institucional?

A relação entre o baixo nível das redes sociais e essa violência e intolerância que invadiu a política A intolerância é a antessala da violência. E a violência é a negação da política. Esse é, no momento, um dos nossos dramas. Vivemos a negação da chamada pólis, da cidade como fórum aberto de ideias que se embatem e, pelo diálogo, produzem os consensos. É verdade que, mesmo nos modelos clássicos, essa condição da polis só se viabilizava num circuito muito restrito de cidadãos. Para cada bom cidadão grego havia milhares de escravos excluídos do sistema.

Quanto do atual mal-estar da sociedade decorre das desigualdades históricas, quanto se deve ao que o senhor define como “esgotamento do modelo” e quanto é responsabilidade direta, hoje, da presidente Dilma Rousseff?

Creio que a chamada “Nova República”, iniciada em 1985, esgotou seu ciclo histórico-político e que essa é a razão principal dos impasses atuais. Discordo da visão segundo a qual Dilma é a principal responsável pelas mazelas da conjuntura. É verdade que seu estilo muitas vezes “autista” – que talvez seja marca de um aprendizado político feito na clandestinidade da ditadura militar – não ajuda em nada e contribui para agravar a crise polí- tica. Mas sem uma reforma radical, que culmine num processo constituinte em que as for- ças da sociedade civil e de movimentos sociais participem ativamente, não creio em mudanças efetivas nem em superação da instabilidade crônica do atual sistema de poder. E isso nas três esferas de governo.

Existe hoje na sociedade uma imensa maioria que, pelas razões já mencionadas, se sente excluída do debate. É possível mudar isso, sem se dividir o mundo em “chapas brancas” e “fascistas”?

Quando os métodos de dialogo se tornam impositivos e se valem da força, da ameaça, da desqualificação, estamos no terreno autoritário – que pode, sim, contaminar os discursos de todos os lados. E por trás, existe esse enorme e decisivo desafio, a crise da representação. Que produz essa multidão dos sem mandato, sem cidadania, sem espaço, grande massa do povo brasileiro. O povo não se sente representado pelas dezenas de partidos, os milhares de candidatos.

Pode-se dizer que são partes do mesmo problema a aparição dos black blocs quebrando de tudo no final das manifestações e os conflitos entre torcidas organizadas de futebol– a ponto de se apelar para “torcida única” em clássicos?

Essas realidades são o retrato de uma luta política atravessada por manifestações irracionais. As torcidas organizadas do futebol não são diferentes. Mas há uma enorme faixa da população que não partilha desses métodos.

O clima talvez melhorasse se os dois principais partidos, PT e PSDB, pudessem estabelecer um diálogo sobre os grandes desafios do País. O senhor vê chances de superação desse impasse? E o PMDB, hoje fortalecido, pode ter papel mais decisivo nessa pacificação?

Não guardo mais nenhuma ilusão sobre o atual sistema partidário institucional, ele está todo “bichado”. O PT converteu-se em uma máquina burocrática, financeira e eleitoral poderosa. Há mais de uma década as lideranças que criticavam seu afastamento crescente dos movimentos sociais foram marginalizadas ou tiveram que sair. Ou ainda o farão. O PSDB é menos um partido e mais um clube de caciques e luminares, imaginar que em sua sigla inscrevia-se a proposta de uma “social-democracia brasileira” parece piada de mau gosto. E o PMDB, cada vez mais, revela-se o que nunca deixou de ser: um entulho do regime autoritário, fisiológico e corrompido até a medula. Triste que o governo Dilma tenha se tornado, em razão de suas escolhas estratégicas, refém dos apetites dessa sigla.

A crise de hoje tem alguma ligação com os antigos “Brasis” descritos por Gilberto Freyre, em Casa Grande e Senzala, ou Sergio Buarque, em Raízes do Brasil?

Essa pergunta me traz à mente uma visão final de Raimundo Faoro em Os Donos do Poder, onde ele fala de “uma civilização tolhida no seu crescimento, como se tivesse sido atacada de paralisia infantil”. Ele fazia uma imagem com Jesus e o “deitar vinho novo em odres velhos” para dizer que “os velhos odres devem ser abandonados”. E definia o País como “uma monstruosidade social, engendrada por instituições anacrônicas, comandadas pelo estamento burocrático”. Não é uma marca só do Brasil. As redes sociais não fazem o que fazem só em nosso País. Mas aqui formam um caldo que cria toda essa urgência.

Como imagina que o País vai atravessar 2015?

Vai viver mal. Percebe-se que há vários impasses. Para falar do meu lado, temos uma clara crise financeira na universidade pública paulista – produto direto do momento, pois se a economia para, os tributos diminuem, faltam os recursos. Some-se a situação dificílima do emprego. Acho que a resposta – de novo – tem que ser política. Mas não essa da intolerância, da gritaria. Política no sentido de articular as forças em busca de mudanças reais.

Por falar em universidades, acha que os intelectuais, como classe, estão desempenhando o papel que deles se espera no atual momento?

Esse cenário todo é completado, não podemos negar, com a falha deixada pela ausência de um papel mais positivo dos intelectuais. Sabemos que as universidades enfrentam uma dura crise, mas isso não pode nos impedir de admitir que o papel social da universidade pública no Brasil de hoje está muito inferior ao que deveria ser. Não é só questão financeira, não. Também a responsabilidade das pessoas que lá estão. Vou me apropriar, aqui, do nome de um grupo de teatro colombiano novo, que participa da MIT, a Mostra Internacional de Teatro. Ele se chama La Maldita Vanidad (“A Maldita Vaidade”). Esta é uma das marcas mais deletérias do perfil acadêmico dominante do Brasil, que se tornou individualista, carreirista, e muitas vezes completamente indiferente ao País e à sociedade que o sustenta. / GABRIEL MANZANO