Uma ideia e câmera na mão ‘não significam um filme’, adverte cineasta

Sonia Racy

16 Abril 2018 | 00h40

BRUNO BARRETO

BRUNO BARRETO. FOTO: IARA MORSELLI/ESTADÃO

Bruno Barreto conta desafios
de sua nova produção e avisa: o essencial é
ter ‘boa narrativa e bons personagens’

Poucos brasileiros conhecem Theodore Roosevelt, presidente americano, cuja história, descendo o Rio da Dúvida, no Mato Grosso – na companhia do Marechal Rondon – será tema de uma série produzida pela HBO Latin America e dirigida por Bruno Barreto. O cineasta se apaixonou pela história e começa filmar em maio. E ressalta que Theodore não é tão desconhecido por aqui. Tanto assim que, na quarta-feira passada, Sérgio Moro leu um trecho do discurso do mais jovem presidente que os EUA já tiveram. Onde? No seu Facebook.

Segundo o juiz da Lava Jato, no dia 7 de dezembro de 1903, Roosevelt, ao falar no Congresso americano, ressaltou: “Não existe crime mais sério do que a corrupção; outras ofensas violam a lei, enquanto a corrupção ataca todas as leis. Na nossa forma de governo, toda autoridade está investida no povo e delegada aos que os representam nos cargos oficiais. Não existe ofensa mais grave do que a daquele em que é depositada tão sagrada confiança, que a vende para seu próprio enriquecimento. E não menos grave, a ofensa do pagador de propinas.” E a leitura não ficou por aí. “Ele é pior que o ladrão. O ladrão rouba o indivíduo. Enquanto o agente corrupto saqueia toda uma cidade ou Estado. Ele é tão maligno quanto um assassino”, sentenciou Moro, repetindo o presidente americano. Nada mais atual…

O projeto de Barreto, entretanto, não tem nada de político. O cineasta explica que sua opção é sempre por contar histórias escolhendo um nicho da vida dos personagens, misturando aí a ficção. “Não faço documentários, é muito difícil. Gosto do que foi feito por João Moreira Salles, o Santiago. Ali ele mostra claramente como há sempre intervenções do diretor que deixam isso claro”, explica.

Atores? Aidan Quinn e Chico Dias. Aqui vão os melhores trechos da conversa.

Por que Theodore Roosevelt?
Dos presidentes americanos, ele foi um dos mais populares. Herdou seu primeiro mandato porque era vice de William Mckinley, assassinado por um maluco. Governou por três anos. Depois, foi eleito pela segunda mais alta porcentagem conseguida por um presidente. E foi também o mais jovem, assumiu aos 42 anos. A expressão Teddy Bear vem dele. Porque era loiro, adorava caçar ursos e era robusto (rrsrsrs).

Mas porque esse personagem o encantou?
Pelo fato de eu ter morado 18 anos nos Estados Unidos, eu sempre me interessei por histórias que reúnem duas culturas diferentes, os conflitos. Fiz o filme Flores Raras, que conta a história da grande poeta americana Elizabeth Bishop e a de Lota de Macedo Soares, que foi quem teve a ideia de fazer o Parque do Flamengo. Todo mundo acha que é o Burle Marx, mas não é. Marx foi o paisagista contratado pela Lota, A idealização foi da Lota que era uma mulher muito culta, muito além do seu tempo, né.

Por que Theodore optou por descer um rio no Brasil?
Ele já tinha governado por 7 anos, quase dois tempos. Elege então seu sucessor, William Taft. Só que, depois de Taft, ele fica com vontade de voltar. Parecido com o que ocorreu entre o Lula e a Dilma. E o Taft e o Partido Republicano decidem que não querem o Roosevelt – e ele perdeu as primárias. Ganhou no voto popular mas perdeu nas primárias. Aí ele cria um partido independente, divide os republicanos ao meio e o Woodrow Wilson, democrata, ganha a eleição.

Então ele veio literalmente afogar as mágoas descendo o rio?
Exatamente. Mas tem uma outra razão também bem importante, talvez mais importante do que essa. É que o filho dele, Kermit, o mais parecido com ele, já tinha se mandado pro Brasil quando ele decidiu concorrer ao novo mandato. O filho dele era contra o desejo do ái e resolveu ir pra o mais longe que ele pudesse. Veio trabalhar com os ingleses na construção da Madeira Mamoré.

Quando é que você começa a rodar essa série?
Começo a rodar dia 7 de maio. Contratamos Aidan Quinn, ator americano que fez A Missão, Brincando nos Campos do Senhor, com o Hector Babenco. Portanto, tem uma experiência de seis meses na selva brasileira. Vai fazer o papel do Theodore Roosevelt, e o Rondon vai ser feito pelo Chico Dias.

Você acaba de montar uma serie sobre as minorias, a Toda Forma de Amor. O que é que você acha desses movimentos minoritários no mundo, todos protagonistas?
Tem um lado muito positivo, uma questão de identidade. Aconteceu como uma reação à globalização, as pessoas ficaram com uma necessidade de definir, deixar bem claro quem elas são. Então existe uma urgência de se deixar claro a identidade. Agora, para o animal político que quer chegar ao poder, eu acho que é uma faca de dois gumes ficar abraçando as bandeiras das minorias. Porque aí você está buscando a divergência, não a convergência. Eu acho que os políticos inteligentes devem buscar a convergência.

Como seria isso?
Apostar no que o grande meio quer. Todo mundo quer ser feliz, quer ter emprego, quer ter educação, quer ter saúde. E como conseguir isso? Porque na medida em que você abraça a causa de uma, duas ou três minorias, o outro lado vê isso como uma ameaça. Então, qualquer tipo de radicalismo aí é totalmente ineficaz.

Como tornar isso realidade em um mundo que se mostra cada dia mais radical, em todos os sentidos? De que forma pregar essa convergência?
Olha, eu sou um artista, eu trabalho com dramaturgia e com o comportamento humano. As ideias pra mim vão até um certo ponto, mas elas não são o fim do meu trabalho, elas são o início.

Diria que não se faz um filme apenas com boas ideias?
Ao contrário, a ideia é um ponto de partida. Aquela coisa “uma ideia na cabeça e uma câmera na mão” é uma mentira. Porque, na verdade, para fazer um bom filme você precisa ter é um bom roteiro.

Qual é a fórmula de fazer um bom filme? Quais seriam os ingredientes?
Acho que hoje é melhor a gente falar de uma boa narrativa, porque pode ser um filme ou pode ser uma série de televisão. Tem que ter uma boa história, bons personagens. Eu acho que isso é a base.

Como é que é a produção? Como é que você monta? A TV fechada hoje em dia está dando mais audiência que o cinema?
Isso definitivamente. Hoje, como diz o Robert Mckee, o guru dos esoteristas – que escreveu um livro que é a bíblia dos esoteristas modernos, chamado Story – a dramaturgia migrou pra televisão, streaming, enfim, todas essas plataformas. O cinema, longa-metragem, virou meio parque de diversão, filmes, eventos e tal, enfim, você tem 10, 15 filmes no máximo no final de cada ano, são filmes que vão pro Oscar. Mas… esses filmes não são muito vistos. Então, a boa dramaturgia, onde você pode ser atrevido, porque você não está preocupado em agradar ao público num fim de semana, migrou.

Como você vê hoje o financiamento, no Brasil, de projetos audiovisuais?
É complicado, é um comitê, tem coisas boas e tem coisas absurdas. Por exemplo, um dos processos dessa triagem é uma arguição oral. Você tem que ir lá e responder a perguntas, ser sabatinado por um grupo de pessoas que fazem perguntas tipo “Bruno, esse filme, como é que você vai fazer pra não cair no melodrama?”. Aí eu disse assim: “Olha, você não viu meus filmes? Eu acho que para estar aqui fazendo uma arguição você deveria ter feito o seu dever de casa. Então veja Flores Raras, que poderia ter sido melodrama e não foi. A sua pergunta está respondida”.

O que as pessoas têm contra um melodrama?
O problema é que são seis, sete burocratas, que estão ali com o poder de ter um diretor na frente deles e de fazer perguntas idiotas. Entende? Então, isso se Deus quiser vai mudar, provavelmente depois que esta entrevista sair eu não vou ter mais nenhum financiamento estatal.

Você é cineasta desde os 17 anos, controla toda história. Como é que isso influencia na sua vida? Você controla ela também? Você planeja um jantar e o jantar queima, qual é a sua reação?
Olha, é complicado, por isso que eu faço análise desde os 13 anos de idade. É exatamente para tentar equilibrar isso… Porque sem a obsessão, sem essa obstinação, realmente você não faz, não é só cinema, você não faz nenhum tipo de arte. Então, equilibrar isso é um desafio muito difícil.

Você passou por vários casamentos ao longo da vida, já viveu várias experiências. Essa sua imaginação, a ânsia por controle, pode ter influído?
Se você imagina um roteiro para um relacionamento e esse roteiro não sai como você quer…

…qual a sua reação?
Minha reação inicial é de frustração, mas eu acho que com a idade, com o amadurecimento, eu comecei a entender que a vida não é um filme de Bruno Barreto.