‘Gosto do humor porque ele nos conduz  à  crítica’, diz Denise Fraga

Sonia Racy

17 Outubro 2016 | 00h41

RAMON VASCONCELLOS / GLOBO

RAMON VASCONCELLOS / GLOBO

Após 15 anos longe das novelas, a atriz
comenta participação em ‘A Lei do Amor’ e admite que gosta mesmo é de palco – e, nele, de textos
que levem a plateia
à reflexão
.

Denise Fraga quer acabar com a fama de que não é uma atriz de novelas. “Não é que eu não faça novela, até tenho um pouco essa fama mas não é verdade. Acho que o que todo ator quer é um bom personagem, uma boa história, independente da forma como vai contá-la”, explica.

O assunto veio à tona porque, depois de 20 anos longe dos folhetins, ela aceitou uma participação em quatro capítulos de A Lei do Amor – novela de Maria Adelaide Amaral que estreou há duas semanas na Globo. “A Maria Adelaide gosta de gente, escreve com humanidade, traz para perto questões da vida de todos nós. Quando soube que eram ela e a Denise (Saraceni), não pude recusar”.


Questionada sobre a pressão cada vez maior por audiência em tempos de internet e redes sociais, foi categórica: “Me incomoda muito essa vida medida em números, audiências, curtidas, seguidores”. Não é adepta das redes sociais? “Tive que me render. É um ótimo meio para divulgar o meu trabalho”, resumiu em entrevista por telefone à repórter Sofia Patsch. 

É nos palcos, no entanto, que ela se sente em casa. “Tenho coisas a dizer no teatro, autores de cujas palavras preciso me apoderar.” E é no humor que ela encontra essa chave. “O humor é um poderoso ingrediente para reflexão. Através dele você diz coisas que conduzem o pensamento das pessoas à crítica. Ele passa pela inteligência, você não ri daquilo que não entende. Minhas escolhas no teatro têm muito disso”. Confira a seguir os melhores momentos da entrevista.

Quinze anos sem novelas… Como se sentiu ao voltar?
Na verdade são mais, faz uns 20 anos. A última foi uma participação no primeiro capítulo de Uga Uga, em que eu morria. Então, quase não conta.

Desta vez também foram quatro capítulos. Só aceita participações especiais?
Não é isso. Fiquei muito tempo no Fantástico com o quadro Retrato Falado. Tive que recusar muitos convites que adoraria ter aceito. Não é que eu não faça novela, tenho um pouco essa fama e não é verdade. Acho que o que todo ator quer é um bom personagem, uma boa história, independente da forma como vai contá-la.

Por que aceitou fazer a novela?
Tinha feito a minissérie Queridos Amigos, com texto da Maria Adelaide Amaral e direção da Denise Saraceni. Foi uma delícia, a Maria Adelaide gosta de gente, escreve com humanidade. Traz para perto questões da vida da gente, mas com filosofia. A Denise me ligou convidando para fazer A Lei do Amor e era de novo a Maria Adelaide. Eu não tinha como recusar.

Como foi a volta à telinha?
Foi tão bonito como a gente gravou, montaram o barracão, que era minha casa, à beira de um rio em um cenário lindo.

Gosta de trabalhar sempre com a mesma equipe?
Isso já é meio caminho andado, não? O Retrato Falado, a série Três Teresas e A Mulher do Prefeito foram feitos por uma equipe que sempre trabalhou junto.

Como uma pessoa conhecida pelas comédias, gosta também de papéis dramáticos, como o de Cândida? 
Já fiz personagens que nada tinham de comédia. Nem fico mais dizendo que sou comediante. O que acontece é que acredito no humor, sabe? Ele é um poderoso ingrediente para reflexão. Digamos assim, através do humor você diz coisas que conduzem o pensamento das pessoas à crítica. Ele passa pela inteligência. Você não ri do que não entende. Então adoro quando tem humor no meio.

O teatro, como definiu antes, é para você uma necessidade. Nos palcos se sente mais à vontade?

Sinto que sou uma pessoa do teatro. Tenho coisas a dizer no palco, projetos a fazer, autores de cujas palavras preciso me apoderar. Acho até que o que tem me movido pro teatro é isso, a vontade de contar tudo aquilo que li. Não que não possa fazer uma novela. Tem a hora que você está no palco e a hora que está diante das câmeras. São linguagens diferentes. Sempre estarei atrás de projetos que quero fazer, vou com a nossa produtora, eu e o Luis (Villaça).

Você e seu marido são donos de uma produtora. Gosta de priorizar os projetos pessoais?
Pelo contrário, gosto muito quando faço um projeto que não é meu. Um dos prazeres do ator é ser um intérprete, dar voz ao outro. Por exemplo, gravando com a Denise eu ficava feliz quando via os olhinhos dela brilharem com a cena. Fico muito feliz ao reproduzir uma coisa que o diretor está querendo. Esse casamento ator-diretor é muito bonito.

Há algum tempo, você declarou que os personagens não chegam por acaso.
É tão bom agora com essa história da internet, as pessoas podem pesquisar sobre a gente… (risos). Acho que os personagens vêm pra você.

De que maneira?
Sinto que os personagens nos dizem coisas. Não sei se sou uma pessoa que acredita em sinais, mas por exemplo, essa novela da Maria Adelaide, A Lei do Amor. No início, pensei: “Por que esse nome?” Quando fui lendo a trama vi que é perfeito. Estamos acostumados com a palavra “amor” no sentido romântico, homem-mulher. E o que faz uma falta danada é esse amor mais amplo, da atenção ao outro, de se estar conectado em compaixão.

Essa novela resgatou a velha fórmula da mocinha pobre que vence na vida?
Às vezes, no que parece um clichê existe uma força muito grande de adesão que não pode ser desprezada. Um clichê tem uma força imensa de quereres coletivos. Como aquele livro que você não consegue largar, a torcida para que o mocinho fique com a mocinha.

A pressão por audiência aumentou nos últimos anos?
O que me incomoda muito é essa vida medida em números, audiências, curtidas, seguidores.

Costuma usar as redes sociais? 
Tive que me render, é um ótimo meio para divulgar o trabalho. Estou há um ano e meio viajando com a peça Galileu e vejo a força que as redes têm. Mas esse negócio de postar dá um trabalho… É o dia inteiro postando e medindo o que é postável ou não, dá uma aflição.

Quais são os próximos projetos da sua produtora?
Vamos fazer a terceira temporada do Três Teresas, no GNT. O Luís tá sempre com uma nova ideia por aí, temos um equipe de criação sempre atrás de novas coisas. Mas, tudo também depende de aprovação e tal.

Sente que a TV aberta está passando por uma crise atualmente com a oferta das TVs por demanda? 

Tudo mudou. Nossa vida foi invadida por um monte de facilidades que não havia antes, inclusive a TV por demanda. É louco, porque com as inúmeras opções de séries e filmes, se vacilar o tempo que se demora para escolher o que assistir é o tempo de ver um filme inteiro…

Há um tempo atrás você se envolveu em uma polêmica ao perguntar, em um artigo, por que se ensinava química nas escolas, porque seus filhos iam mal nessa matéria e você também tinha ido mal no passado. Se arrepende?
Eu sempre peço, leiam de novo, por favor. Imagina se eu ia dizer que não precisa estudar química. Eu sei a importância da química. O que acho é que a escola perde tempo com matérias específicas demais, que os alunos estudam só para ir bem na prova. É um tempo que poderia ser ocupado com coisas direcionadas ao autoconhecimento. Era sobre isso a crônica.

É a favor da reforma do ensino médio?
Não estou a par completamente do que é essa reforma, mas acho que a escola tem que repensar. As coisas precisam ter uma conexão com a realidade. O que eu sinto é que o mundo da informação é tão vasto e violento na sua velocidade, que ele perde essa conexão.