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O brilho da coragem

Sonia Racy

03 Março 2016 | 01h40

Foto: Iara Morselli/Estadão

Foto: Iara Morselli/Estadão

Fotógrafa mundialmente conhecida por seu trabalho com bebês ou crianças pequenas caracterizadas como personagens de contos de fadas, a australiana Anne Geddes está no Brasil para clicar retratos de atletas paralímpicos vitimados por meningite – parte da campanha global Win for Meningitis, causa da qual é defensora e embaixadora na ONU. O resultado de seu trabalho será divulgado dia 24, no Dia Mundial da Meningite.

Nessa primeira visita ao Brasil, Anne, cujos livros venderam mais de 18 milhões de exemplares, em 24 línguas, resumiu em conversa com a coluna a essência de seu trabalho: “Através da arte, tento capturar a fragilidade da vida humana”.

Como surgiu o interesse em ajudar a conscientizar as pessoas?
Como defensora das crianças representando a ONU, tenho interesse em ajudar a quem precisa, de todas as formas que puder. Neste caso, as vacinas são eficientes e estão disponíveis. Meu mantra pessoal é “Proteger, Sustentar, Amar” – e, ao longo destes últimos 30 anos trabalhando com pais e mães, nunca encontrei alguém que não tivesse a saúde e o futuro dos filhos como prioridade, muito acima de qualquer outra coisa preocupação.

Você veio ao Brasil para fotografar atletas paralímpicos que perderam seus membros por causa da doença. Anos atrás, você fez algo semelhante, mas com crianças que tinham vivido o mesmo problema. Como foi isso?
Foi uma experiência impressionantemente positiva. Viajei por toda a Europa, Canadá e Austrália para conhecer sobreviventes da doença e ouvir suas histórias, que achei inspiradoras. Foi um privilégio conhecê-los e às suas admiráveis famílias. Tenho muito orgulho de ter participado dessa campanha de conscientização e sinto que as imagens registram tanto a vulnerabilidade quanto a resiliência daqueles cujas vidas foram transformadas para sempre por essa doença devastadora.

Apesar de ser um tema forte, as imagens das crianças foram muito elogiadas na época. Como será a campanha Win for Meningitis desta vez?
Vai celebrar o triunfo dos sobreviventes e honrar todos  aqueles que tragicamente perderam suas vidas. A longo prazo, espero que ela confira aos pais o entendimento da doença meningocócica e que conheçam o caminho para proteger seus filhos: a vacinação.

Já definiu quantos atletas serão fotografados?
Vou retratar seis ou sete atletas paralímpicos com recém-nascidos, evocando tanto a força dos atletas como a esperança e a promessa representadas pelas jovens vidas. A campanha almeja descrever visualmente o poder do esclarecimento e inspirar outras pessoas a se engajarem na cruzada pela prevenção.

Os recém-nascidos estão muito presentes em sua carreira. Em 1990, chamou muita atenção o trabalho que você fez com bebes imersos na natureza. Como surgiu essa ideia?
Cada vez que seguro uma criança nos braços fico impressionada com o milagre diante dos meus olhos. A natureza sempre me inspirou e vejo essa mesma beleza e pureza em cada recém-nascido. A paixão da minha vida é a fotografia e, através da arte, tento capturar a fragilidade da vida humana, envolvida e protegida pela natureza. Em termos práticos, aprendi que devo estar calma e organizada na véspera de cada sessão de fotos. Quando os bebês chegam, tudo gira em torno deles. Na verdade, tirar as fotos acaba sendo a etapa mais curta desse processo.

É a primeira vez que você visita o Brasil?
Sim. Há muito tempo venho querendo conhecer o País, já que um dos sobreviventes de meningite da campanha anterior é brasileiro e viajou ao Canadá para a sessão de fotos. Ele e sua mãe me impressionaram pela coragem e simpatia. Eu disse que tentaria vir ao Brasil se pudesse e esta viagem me deu a oportunidade de cumprir essa promessa./SOFIA PATSCH