Faltam estadistas, mas temos as ruas, diz Guilherme Mota

Faltam estadistas, mas temos as ruas, diz Guilherme Mota

Sonia Racy

28 Dezembro 2016 | 01h00

Carlos Guilherme Mota.  FOTO: Divulgação

Carlos Guilherme Mota. FOTO: Divulgação

Na passagem de um ano conturbado para outro incerto, o historiador Carlos Guilherme Mota fica no meio: para sair da crise, “faltam-nos estadistas”. Não é difícil constatar que “as atuais lideranças não têm claro o ponto a que desejam levar o País”. Em compensação, “despontou uma nova sociedade civil” que sabe cobrar dos governos que façam seu papel. Ela inclui não só juízes, advogados e procuradores, mas profissionais liberais, cientistas, estudantes…

Como estudioso dos conflitos brasileiros desde a colônia, Mota separa o drama nacional em dois níveis. O de agora, “uma crise político-institucional, econômica, jurídica, educacional, urbana, carcerária e, sobretudo, de valores”. E um nível anterior, mais profund0, no qual “um patrimonialismo coronelístico deu lugar a um jaguncismo pós-moderno tipo Renan, expressão do capitalismo senzaleiro”.

Resultado disso tudo? O tal presidencialismo de coalizão, patinando numa multidão de partidos, “transformou nosso modelo de república, mal costurado na Constituição de 1988, numa caricatura de si mesmo”. O Brasil se afogou na cultura de marketing, na sociedade do espetáculo”, onde manobras espertas “convivem com a impunidade movida a propinas”.


Existe uma saída? Por enquanro, adverte, o que se pode dizer é que a crise “não tem data para acabar”. Mota não se refere a uma “melhoradazinha” de momento: fala de um País arrumado, sabendo o que quer, transparente e republicano. Pra chegar até lá, é preciso “enfrentar o patrimonialismo, que não é só tema de historiadores, mas a perversão maior da nossa sociedade”. A esquerda “está velha, o lulismo mostrou seus limites e a enterrou. E com ela toda uma geração de lideranças políticas, sindicais, universitárias… Repetiu a história do Partidão!”

Sobraram, então, as ruas. “As desigualdades e a exclusão, em muitos outros países, só foram superadas pelo povo nas ruas.” Vem despontando, segundo o historiador, “uma nova geração de juízes, procuradores, liberais, cientistas, até empresários. Impõe-se mexer na Constituição. A voz das ruas precisa ser atendida”. / GABRIEL MANZANO