‘Faço piada com tudo. O humor, quando é legítimo, tem de ser aceito’

‘Faço piada com tudo. O humor, quando é legítimo, tem de ser aceito’

Sonia Racy

29 Setembro 2014 | 01h00

Foto: TV Globo/ Alex Carvalho

Na pele do transexual Dorothy, de Geração Brasil, Luis Miranda diz que é função da TV – e dos políticos– discutir identidade de gênero: “O voto homossexual conta muito”.

O ator Luis Miranda tem uma carreira consolidada: são três décadas de estrada, a maior parte no teatro, com incursões pela televisão e pelo cinema. Mas só agora, aos 44 anos, o baiano de Santo Antônio de Jesus encara seu primeiro papel em uma novela. “A TV é preconceituosa, elege tipos”, afirma. E logo o de Dorothy, o transexual de Geração Brasil, da Globo – que está fazendo sucesso nas ruas. A personagem foi inspirada em… uma personagem interpretada pelo próprio Miranda no espetáculo teatral Terça Insana– considerado um marco no humor brasileiro. “Você se vê muito a partir do olhar do público, é ele que vai te dizer se está bom ou se está ruim. E a temperatura que o público tem me dado é a mais deliciosa possível”, diz. Para ele, desde o beijo gay de Mateus Solano, em Avenida Brasil, a TV brasileira trilha um caminho sem volta. E é função social dela levantar adiante a discussão sobre identidade de gênero. Assim como não dá para deixar a temática gay fora da pauta eleitoral: “A gente está vivendo essa encruzilhada. Se você não fizer, vai ficar para trás”.

Mesmo empolgado com a repercussão da personagem, Miranda – formado em Artes Cênicas pela EAD, da USP – não pretende engatar outra novela quando as gravações terminarem, em outubro. Mas nada de férias no horizonte. Atualmente, ele está na telona no filme Entreturnos, de Edson Ferreira – premiado no Festival de Vitória. No teatro, quer dar continuidade, em 2015, à turnê de sua peça, 7 conto – A Comédia, dirigida por Ingrid Guimarães. E encenar, também, O Grande Inquisidor, de Dostoievski.

Abaixo, os principais trechos da conversa com a coluna, por telefone, em meio às gravações da novela.

Você tem uma carreira longa, mas demorou para fazer novela. Foi de propósito ou teve dificuldades para se encaixar nessa linguagem?

A televisão é muito preconceituosa, mesmo entre nós, porque acaba elegendo tipos. Isso não acontece só na Globo. A televisão, de uma maneira geral, tem tipos que vão se encaixando naquele lugar e, às vezes, você tem de cavar um espaço. No meu caso, o start veio por causa do teatro, do cinema, pelo fato de eu ser esse ator meio “disfacetado”, que pode fazer personagens elaborados e específicos. Quando rolou a proposta de fazer esse transexual numa novela – que o Filipe (Miguez, um dos autores de Geração Brasil) escreveu inspirado na Sheila (personagem interpretada por Luis Miranda em Terça Insana) –, me pareceu muito perspicaz. Já tinha feito séries, minisséries, cinema, mas faltava essa experiência. E aí pude experimentar, como ator, a linguagem teledramatúrgica da novela.

Como é interpretar uma personagem tão polêmica?
Se fazer novela for essa experiência que estou tendo, vale muito a pena. Já trabalho aqui na Globo há algum tempo, mas, com a novela, a receptividade é muito grande. Isso dá uma inspiração para fazer bem o trabalho da gente. O trabalho na TV é muito moroso, mas tem uma torcida tão boa que até esse tempo de espera acaba virando uma diversão. Isso realmente é um diferencial. E a televisão surpreende. Quando você olha a Dorothy em cena, ela é uma mulher bonita, diferente. Isso gerou uma reação muito legal. As mulheres ficam torcendo para ela ter um romance. E aí você vence o preconceito, vai abrindo esse espaço. A coisa que mais me deixa feliz nesse trabalho é ver o olhar do outro sobre aquilo. As pessoas que eu encontro têm um olhar delicado em relação à Dorothy. Desde o início, a ideia foi fazer uma Dorothy sofisticada, chique e bacana. Decidimos tirar todos os exageros, todos os maneirismos.

Eles se inspiraram em você para criar a personagem. E você, se inspirou em quem?
Ela é bem sóbria. Teve de Michelle Obama a Fernanda Montenegro, passando por Odete Roitman, todas essas figuras que permeiam a televisão e enchem a nossa teledramaturgia de elegância e sofisticação.

Quanto tempo você leva para se “montar”?
Uma hora de montagem – isso só a maquiagem. Com cabelo, figurinos, adereços, essas coisas todas, deve dar em torno de uma hora e 15, uma hora e 20. E para desmontar, você sabe que é sempre mais rápido, né? Em 20 minutos estou pronto para ir embora.

Como é a reação do público?
Muito carinhosa. As pessoas inclusive falam: “Mas eu achava que era uma mulher”. Ela é o quê? Travesti, transexual? Em nenhum momento houve reação negativa. Já disse isso em outra entrevista: você se vê muito a partir do olhar do público, é ele que vai te dizer se está bom ou ruim. E a temperatura que o público tem me dado é a mais deliciosa possível.

Ter uma personagem como essa, na Globo, é uma revolução na linguagem da TV?
Claro. Tudo começou com o beijo do (Mateus) Solano e do Thiago (Fragoso, em Avenida Brasil). Depois, veio o beijo das lésbicas na outra novela (Giovanna Antonelli e Tainá Müller, em Em Família). A gente está vivendo em um mundo tão selvagem que é preciso dar essa contribuição à sociedade para aceitar as diferenças. Quando você tira a curiosidade desse olhar, quando você revela esse olhar, ele começa a ser inserido na sociedade como um olhar normal e comum. E aí você começa a não ter mais aquele estranhamento quando vê um travesti na rua, ou se um homossexual for morar no seu bairro ou no seu prédio.

Você acha que essa é uma função social da televisão?
Acho. A gente não faz com as novelas uma leitura da sociedade? A gente não mostra o preto que é preso? Por que o lado sofrido não pode ser visto na televisão? Por que não pode mostrar um casal gay? Por que não pode mostrar beijo gay? Por que não pode mostrar relação correta homossexual? Por que isso tem de ser visto só no lugar que é escondido? Por que esse amor também não é bonito? Por que o riquinho também não é duvidável? A gente tem de pensar nisso, inclusive em termos de intolerância religiosa, social e política. Melhor ainda quando você pode trabalhar com poesia. No caso da Dorothy, ela foi construída sem nenhuma conotação sexual. É uma mulher da alta sociedade, vivendo numa família multimilionária, que teve um filho com outra mulher transexual, que tem requinte social e se dá ao respeito. Mostrar isso também é superprodutivo. Sabe o que acontece? A gente está vivendo essa encruzilhada: se você não fizer, vai ficar para trás. Por exemplo: se negou tanto o beijo gay, que chegou uma hora em que não houve mais jeito. Mas o que é que os caras fizeram? Vamos ser dramaturgicamente corretos. Eles construíram uma história, esse cara (Félix, personagem de Mateus Solano) precisava ter uma redenção que o público aceitasse, não foi? Ele passou a cuidar do pai (vivido por Antonio Fagundes) para que ele tivesse direito a beijar e amar.

Ainda sobre preconceito: ser um ator negro dificultou, em algum momento, sua carreira?
Sempre vai dificultar. São ainda poucas as vezes em que você vê o protagonismo negro, como no caso dessa novela, com tantos atores negros na linha de frente: eu, Lázaro (Ramos), Taís (Araújo), Danilo Ferreira, um monte de gente sendo muito bem vista dentro de uma novela. Mas daqui a pouco a gente vai conseguir mudar isso. Cada vez mais os talentos se revelam e a gente percebe o quanto os atores têm conseguido encontrar seu espaço no mercado.

Se tivesse de comparar teatro, TV e cinema, onde você diria que se sente em casa?
Eu me sinto muito confortável no cinema, que te dá a possibilidade de mergulho. O que mais me interessa na vida hoje em dia é fazer coisas mergulhado e com profundidade. Mas, no teatro, tenho espaço para críticas sociais, levanto as questões com meu humor. Uma das coisas que mais me dão prazer é ver a alegria das pessoas que assistem a um espetáculo e levam alguma coisa para casa para pensar. Me deixa muito feliz ser um ator com essa qualidade de trabalho.

Você reforçou o coro contra o Marco Feliciano. Na campanha, a pauta gay entrou em discussão com a divulgação do programa de governo da Marina Silva. Há maturidade política para discutir essa questão?
Por mais que a sociedade esteja hoje pautada como heterossexual, não adianta negar que há um crescimento gay, principalmente da nova geração. São essas pessoas que têm se movimentado. E aí nasce um desejo muito grande de ter esse País da diversidade cultural, da diversidade étnica, da diversidade sexual. Por mais que os candidatos tenham posicionamentos contrários, não podem negar isso. Os votos dos homossexuais contam muito. Nos EUA, o Obama e outros políticos acabaram aceitando milhares de artigos que promoviam liberdade, igualdade, casamento gay. O Brasil segue nessa linha. Politicamente, é desfavorável para eles não apoiar a causa gay. Então, o que acontece? A Marina não vai se posicionar contra, em um momento decisivo, em que ela quer chegar à presidência. A Dilma, provavelmente não vai. A gente perde com o retrocesso do Congresso, é lá que está a maior problemática. O grande perigo é o país, em vez de avançar, começar a ficar careta e conservador.

Com o que você não faz piada nunca?
Eu faço piada com tudo, mas com respeito.

Acha que tem muita gente ultrapassando os limites?
Ih, minha filha, tem gente que já foi para além do cabo do desrespeito…

Por que mudou a maneira de se fazer humor? Foi a internet, foram as redes sociais?
Acho que tem a ver com a violência do cotidiano. O YouTube, a internet e os vídeos que se mandam hoje têm uma agressividade tão grande, que as pessoas começaram a reproduzir. Por exemplo, quando você vê um vídeo de uma mulher caindo e dá risada, ou da mulher que dá porrada no marido, ou o bêbado que é preso, ou o traficante que diz que matou a mãe e aquilo vira uma febre na internet, vira uma piada – mas é real. Aí a gente vai perdendo um pouco do critério, da autopiedade, do amor-próprio, do amor pelo outro.

Dá para sobreviver como humorista no Brasil hoje?
A gente não pode separar o humorista do ator. Quem é que está trabalhando hoje? Dá para fazer uma lista dos atores que estão na ativa. Há atores que fazem sucesso, que não fazem, a diferença é que hoje está todo mundo se virando, meu amor. Hoje está todo mundo correndo para pagar conta, não tem ninguém vivendo bem. Eu não vivo bem, vivo dentro de uma linha confortável, porque trabalho como um condenado para pagar conta e tenho um conforto mínimo. Porque eu também sou filho de Deus, também mereço meu salmão, tomar o meu vinho, a minha cervejinha. Ninguém é de ferro.

Muita gente diz que é difícil fazer sucesso com humor na Globo. É verdade?
A gente já gravou cenas que só foram censuradas na hora de ir para o ar. Por quê? Porque, na novela das sete, não pode isso, não pode aquilo. Tem a censura do Ministério (da Justiça, responsável pela classificação indicativa dos programas de TV) e também tem a censura das donas de casa, porque esse conteúdo as crianças acabam vendo. A TV não pode ser tendenciosa, mas não pode ser omissa. Essa dubiedade entre omissão e excesso tem de ser filtrada. Mas acho que, quando alguém poda você em um lugar, você vai ter a TV a cabo; quando poda na TV a cabo, você vai para o cinema; quando poda no cinema, vai para o teatro. De alguma maneira, a gente nunca deixa de falar. E a gente tem de falar mesmo. O humor, quando é bom, quando é genuíno, tem de ser aceito. /MIRELLA D’ELIA