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Cultura » ‘Eu sei melhorar o que recebo, mas não crio’, diz produtor inglês

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Sonia Racy

20 Março 2017 | 00h28

FOTO IARA MORSELLI / ESTADÃO

FOTO IARA MORSELLI / ESTADÃO

De passagem por São Paulo, para a estreia de Les Misérables,
Cameron Mackintosh 
elogia brasileiros do elenco
e conta o que aprendeu em 50 anos de musicais

Cameron Anthony Mackintosh tinha oito anos quando viu um musical, Salad Days, e “descobriu” que queria ser produtor de teatro. Seis décadas e 50 produções de musicais depois, consagrado por sucessos (no palco) como Les Misérables, O Fantasma da Ópera, Mary Poppins e Cats – e já ostentando um “sir” antes do nome… –, ele foi citado pelo New York Times como “o mais bem-sucedido, influente e poderoso produtor teatral do planeta”.

Na rápida visita a São Paulo, onde veio para a nova estreia de Les Misérables no Teatro Renault, da T4F, Mackintosh elogiou o elenco brasileiro do musical garantindo que “quatro ou cinco deles” poderiam ser convocados “para elenco mundial” da produção. Com seu olho apurado, orientou a atriz Kacau Gomes a encontrar o melhor caminho para interpretar Fantine. “Seja feliz como demonstrou na audição”, disse-lhe o produtor. E, quanto ao fato de ser “o maior do mundo” dentro do seu nicho, mostrou-se modesto: “Eu me tornei o mais velho…”.

Bem-humorado, nesta entrevista a Sonia Racy e Ubiratan Brasil ele fez uma declaração de amor ao seu dia a dia: “Meus musicais são meus filhos, amo todos os meus shows”. Com uma fortuna em torno de 1 bilhão de libras (cerca de US$ 1,23 bilhão), garantiu: “Não estou interessado em dinheiro. Só quero o suficiente para produzir”. Além disso, ama arquitetura e cozinhar. “Meu novo trabalho é produzir queijos”, diverte-se. A seguir, os melhores momentos da conversa, realizada em uma agradável manhã, no Hotel Fasano de São Paulo.

Geralmente produtores focam no retorno dos recursos investidos. É assim que o senhor vê?

Não estou interessado em dinheiro. Só quero o suficiente para produzir outros shows. É um presente o fato de que posso escolher o show que quero fazer e acredito. Não preciso produzir nada só para pagar contas.

Como sabe o que dará certo ou dará errado?

Ninguém sabe. Nunca. É uma das glórias do teatro: (o sucesso) vem de onde ninguém espera. Quem diria que o musical Hamilton, um assunto da fundação da América, poderia se tornar tão popular? O mesmo com Les Misérables. Críticos britânicos não gostaram, quando abrimos a peça. E o show está em cartaz há 32 anos.

No caso de Les Misérables, foi você que decidiu fazer? Como se escolhe um espetáculo?

Quando escolho fazer um musical, sou inspirado pelos escritores. Preciso identificar coisas originais mas que precisem ser criadas. Eu consigo receber “pronto” e melhorar, mas não crio. Qualquer um poderia ter feito Les Misérables como um show.

Les Misérables é uma história triste.

Triste, mas é também uma história de triunfo. É sobre a sobrevivência do espírito humano e isso é mais importante do que felicidade ou tristeza. É impossível traduzir e por isso nem tentamos. Eu não tinha lido o livro (de Victor Hugo), mas, quando decidi ler, voltei à peça para ver o que faltava. Fiquei pensando coisas como “não achamos um jeito de contar esta parte…”, ou “esta emoção”. É maravilhoso. Por isso, leio todos os meus musicais. Este ano, completo 50 anos produzindo musicais.

Quantos?

Centenas. É deprimente pensar nisso. Cheguei a uma idade em que começam a me dar prêmios e tudo o que conseguem é me deixar deprimido. Aos 20 anos, eu pensava “vou fazer mais um show, mais um”. E agora eu digo “Ai, meu Deus!”.

Nos novos tempos, com as novas mídias digitais, como encara essas mudanças?

A maior surpresa é que nunca imaginei que o teatro hoje estaria mais vibrante agora do que nunca. Quando comecei Les Misérables, a audiência era formada por pessoas entre 35 e 55 anos. Agora, a maior parte está abaixo dos 35. Os jovens amam. Estão cansados de trabalhar parados diante de uma tela. Eles querem sair e interagir com pessoas. Gostam de ouvir música ao vivo, de estar onde há unidade. Pessoas de todos os lugares conseguem entrar na indústria do entretenimento se tiverem talento. Conseguem hoje fazer uma boa carreira no teatro.

Não é o que ocorre no Brasil.

Ainda não. Mas, como eu conversava com alguém da equipe, não havia teatro antes de Les Misérables. Foi o primeiro grande musical. Depois vieram outros e virou uma indústria.

E quanto aos preços dos ingressos? As pessoas conseguem comprar? Como encara isso para você, para a produção?

Tudo o que é feito manualmente é mais caro, seja um musical ou uma bolsa de mão. Acho que o equivalente a um preço maior é o que se paga em Londres. Em Nova York, os preços estão ficando muito altos para grandes shows. Em Londres, onde eu tenho oito teatros, sou bem rigoroso em garantir que os ingressos mais caros devem compensar os mais baratos. E estes precisam ser lugares bons, não ruins.

Até onde vocês podem cobrar?

As pessoas estão pagando R$ 900 para ver Hamilton num lugar premium. Eu, que sou do ramo, poderia pagar, mas não iria. Mas veja, estou produzindo Hamlet em Londres e, para nossa surpresa, vendemos os primeiros 8 mil lugares em 48 horas. Com dois anúncios no jornal. Mas é porque os jovens ouviram as musicas no Spotify ou outro lugar nas redes e amaram.

Qual é, hoje, sua paixão futura?

É seguir em frente e curtir minha vida. Amo produzir e criar musicais. Também amo arquitetura e amo cozinhar. Estou unindo tudo no meu novo trabalho, de produzir queijos.

O que acha dessas novas tecnologias em que as pessoas voam, como no Homem Aranha?

Já fiz shows de sucesso com voo. Um foi As Bruxas de Eastwick, o outro Mary Poppins. Amo o meu voo, mas ele precisa fazer parte da história. Pessoas no candelabro (Fantasma da Opera). Tenho uma nova versão nos EUA, com as mesmas roupas mas utilizando outro cenário e direção. É mais moderno. Não posso continuar apresentando o mesmo show por 34 anos seguidos, não me interessa. Porque sou eu que tenho a responsabilidade disso.

Acredita que, se fizer algo por paixão, dá certo e, se for por dinheiro, até dá mas não dura?

Se você faz só por dinheiro, raramente dá certo. Eu estou numa posição privilegiada por ter shows em vários países, os custos caem drasticamente. No Brasil, não faria sentido produzir Les Misérables se tivéssemos de pagar um cenário novo. Eu já tinha um cenário para adaptar.

E você trouxe esse cenário?

Sim. Se tivesse de construir aqui ou na Austrália, poderia acrescentar mais US$ 10 milhões para cenário e roupas. Não faria sentido. Sempre procuro fazer com que o cenário se adapte em vários países. Ao fazer Miss Saigon na Broadway, eu levei a produção de Londres. Fez sucesso em Nova York, agora está em Cleveland. Eu produziria esse show por US$ 9 milhões. Se não tivesse aquele cenário, sairia por US$ 20 milhões. Finding Neverland provavelmente custou US$ 70 milhões. Shows médios e pequenos na Broadway custam de US$ 50 milhões a US$ 70 milhões. Posso levar o cenário para onde quiser, readaptar.

E quais são os problemas no Brasil?

Eu já fiz quatro espetáculos por aqui. Não fiz o Fantasma, mas fiz Miss Saigon. E acho que o elenco daqui tem talento. Há quatro ou cinco pessoas que eu consideraria para um elenco mundial. Levaria, se fossem fluentes em inglês, para Londres ou Broadway. O problema é que a indústria aqui não é muito grande. Acontecia o mesmo em Londres, quando Andrew Lloyd Weber e eu fizemos Cats. Foi difícil a cidade receber três espetáculos ao mesmo tempo, não havia gente suficiente capacitada para cantar, dançar e atuar. Hoje, é possível ver 30 musicais em Londres porque a expertise é fantástica.

Você também ajuda a escalar o elenco?

Sim, eu aprovo o elenco.

O que você não faz?

Eu não faço o café da manhã. Mas ajudo em tudo, desde o compositor ao arranjador… Bem, em tudo.

É a razão do seu sucesso?

Fui abençoado. Não é que consiga fazer melhor que outros, mas eu entendo como o trabalho funciona. E pressiono até conseguir.

Qual o musical que lhe toca o coração?

Meus musicais são meus filhos. Todos eles tocam o meu coração. Amo todos os meus shows. É engraçado, não me arrependo de nenhum espetáculo que já fiz. Às vezes, eu me arrependo de não ter feito melhor.

O que aprendeu a não fazer?

Se você tenta realizar os projetos pensando no que o público vai gostar, geralmente dá errado. Você não consegue adivinhar o que o público vai aprovar. Para mim, o mais importante são a história e os personagens. Se eu não gostar da história e do personagem, não importa quão boa seja a música, porque não vai me interessar.

Seria possível fazer um espetáculo sobre o Trump?

Não. Acho que ele já é o próprio show (risos). Não precisa da minha ajuda.      

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