‘Eu peço muito a Deus, mas só o que não consigo fazer sozinho’, diz Abilio Diniz

‘Eu peço muito a Deus, mas só o que não consigo fazer sozinho’, diz Abilio Diniz

Sonia Racy

24 Outubro 2016 | 00h40

LEONARDO SOARES/ESTADÃO

LEONARDO SOARES/ESTADÃO

Religioso, o megaempresário Abilio Diniz lança novo livro e diz que cada um tem de traçar suas metas na vida e ir atrás delas. Como a dele hoje, de conseguir ‘longevidade com qualidade’

Conhecido pela determinação absoluta, o presidente do Conselho da BRF, acionista do Carrefour e comandante da Península – empresa de investimentos da família – volta com um segundo livro sobre sua história, 12 anos depois do primeiro e no mesmo ano em que completa 80 de vida. Abílio Diniz estava com a nova edição já pronta em 2014 mas suspendeu assim que soube que ela coincidiria com a publicação de outro escrito pela jornalista Cristiane Correa, também sobre sua vida.

Nas 175 páginas de Novos Caminhos, Novas Escolhas, a ser lançado na quarta-feira, na Livraria Saraiva do Pátio Higienópolis, o pai da Ana, João Paulo, Adriana, Pedro Paulo, Rafaela e Miguel relata, com ajuda do jornalista Sergio Malbergier, o caminho para conseguir o que se quer. “Muita coisa aconteceu nos últimos anos”, explica Diniz. O empresário mudou de rumo, saiu do Pão de Açúcar, casou-se e teve dois filhos.

“Eu me reinventei, e não só profissionalmente. Atribuo isso à minha fé em Deus.” . No fim do livro, o marido de Geyse reforça sua fé católica: dá receita de diferentes rezas para serem feitas durante 63 dias ininterruptamente. Olhando pra trás, o que faria ele hoje de diferente? “Quando tive o meu primeiro conflito com a família, se tivesse 70% da cabeça que tenho hoje, a história teria sido completamente outra.” Aqui vão os melhores trechos da conversa com a coluna.

Você planejou uma trajetória de vida e, no meio do caminho, as coisas mudaram. A briga com o Casino pelo Pão de Açúcar foi só financeira ou também emocional?
O objetivo, creio eu, não era financeiro. Mas tem o seguinte: o Abílio é um pacote, é um conjunto de coisas. O Abilio é um lutador, um winner, acho que sou um vencedor e que preciso sempre buscar desafios, procurando me superar.

Acredita que o ser humano controla o que ele quer ser?
Prego isso para os meus alunos. Uma das coisas de que falo no livro é: “Se eu posso, você também pode”. Quem olhar minha trajetória sabe que eu nasci filho de imigrante português, um padeiro. Nunca tive dinheiro, nasci num berço honrado mas sem nada. Se cheguei aonde cheguei, por que outros não podem chegar?

Então todo mundo tem possibilidade de vencer na vida?
Calma. É o seguinte: você escolhe o que quer na vida. Eu escolhi. Um caminho de desafios, de inconformismo com certas situações, um caminho com ambição, uma ambição controlada. Cheio de metas, para que eu fosse buscá-las.

E que fazer quando se faz uma escolha e não se consegue seguir?
Se coisas incontroláveis acontecem… e isso acontece, aconteceu comigo, só que eu consegui superá-las. Mesmo o caso do meu sequestro, contado no primeiro livro – eu falo muito en passant no segundo – eu superei. Da minha forma, pela fé em Deus. Foi Ele que mexeu os pauzinhos lá em cima. A crise de 90 eu superei, a briga que me levou a sair do GPA eu superei. Eu podia ter me acomodado, ir fazer outra coisa. As pessoas têm que traçar metas na vida. Eu tinha tudo para não dar certo na vida.

Por quê?

Eu era um sujeito de poucos recursos. Vivi na Várzea do Glicério boa parte da infância, era gordinho e baixinho, um horror. E fui buscar a minha condição física. Toda a minha vida dedicada ao esporte começou por precisar aprender a lutar para não apanhar. Foi mérito só meu? Não. Acho que tive uma boa base, minha mãe me deu uma coisa sensacional que foi me apresentar para Deus, e aí eu segui por esse caminho.

Você foi sempre religioso?
De menino, eu ia à missa sozinho. Saía da rua Tutoia, subia a av. Brigadeiro e ia na igreja da Imaculada Conceição, sozinho. Por que um menino de sete anos e meio vai à missa sozinho? Não é normal, mas eu ia.

O que o atraía? A missa, a liturgia, o estar na igreja?
A proximidade com Deus. E toda vez que eu ia à missa eu ganhava um dinheirinho da minha mãe (rsrsrsr…) Aí , eu passava na banca e comprava um gibi. Quer dizer, eu também experimentava um prazer tremendo. Mas minha mãe me deu a religião, a proximidade com Deus, e meu pai as noções de honestidade e ética. E aí, o que veio? Foram as escolhas que fiz. Antes de começar com supermercados eu estava pronto para sair da FGV e ir estudar nos EUA. Estava com o application da Michigan State University, queria ser professor. Minha ambição naquele momento era estudar, ter conhecimento e subir na vida.

O que é a religião pra você?
Acho que todos os caminhos levam a Deus. Religião, pra mim, é espiritualidade e fé. Eu peço muito a Deus, mas só peço a parte que eu não consigo fazer. Faço a minha parte. Depois, digo que já a fiz e que agora estou pedindo isso. Como peço, hoje, que Deus me dê longevidade com qualidade. Eu me cuido, faço esporte, controlo a alimentação, o estresse. O que não posso controlar eu peço a Ele.

Você sempre apostou nessa opção pelo esporte. E quanto à alimentação?
Comecei pelo esporte, a alimentação veio depois. Eu acreditava, quando pequeno, que se me pendurasse em alguma coisa eu ia espichar. Então, na minha casa, na Tutoia, arrumei uma barra de ferro e outra de madeira e ia me exercitando, achava que aquilo me alongava. Evidentemente não tem nenhuma base científica pra isso, mas o fato é que, com 15 anos, eu já tinha a altura que tenho hoje. Quanto à alimentação, um cara esportista, como eu sempre fui, queima o que come em excesso. Depois vai diminuindo a atividade física, o metabolismo desacelera, hoje não consigo fazer coisas como antigamente.

Fala disso no novo livro?
O Novos Caminhos, Novas Escolhas não tem só minha mudança de vida, tem a dos meus hábitos. No primeiro, eu dizia que quanto mais esporte, melhor. No segundo, mudo o conceito: você vê qual é o seu momento, o que quer do esporte, vai e faz. Agora, se você quer o esporte para qualidade de vida, longevidade, não pode exagerar. Está comprovado que o chamado endurance não é a melhor receita. Maratona, exercícios de longa duração, isso não é o melhor para a saúde.

Sua saúde física e mental é incrível, claro que devido, em parte, ao seu DNA. Mas se alguém nasce com DNA ruim, o que pode fazer?
Não tem DNA ruim nem bom. A genética é importante, na vida da pessoa, uns 20%. O restante é você. O que você faz, o que come, o seu entorno…

Você comenta sobre estresse, que é importante mapear e controlar pra sofrer menos…
Sim, o jeito de se controlar o estresse é não se estressando por coisas que não sejam importantes. Eu lhe proponho: pegue um caderno de 100 folhas e comece a escrever o que é importante. Vai escrever duas ou três linhas. Tem muito pouca coisa realmente importante na vida.

O que é importante na sua?
Nós mesmos. Nossa saúde, as pessoas que amamos.

Em outro trecho do livro há referências à morte. Você parte do princípio de que é imortal e não pensa mais nisso…
Acho que a gente deve pensar assim. Sem sair da realidade, mas a gente não deve se preocupar com a morte. Você tem de olhar pra frente e não ficar pensando.

No texto aparecem, também, menções ao valor da humildade. 
Sim. É que muita gente diz: “Pô, esse Abilio, imagina se ele é humilde…” Se as pessoas imaginam que humildade é fazer voto de pobreza e usar roupa velha, não tem nada a ver comigo. Mas se imaginam que é você ter a consciência de que não sabe tudo, que tem de ter respeito pelas pessoas, buscar coisas novas, estar aberto para ouvir coisas que não tem vontade de ouvir, isso sim é humildade – e eu a pratico.

Quando vem o próximo livro?
Tem gente me provocando para fazer o terceiro, mais técnico, mais business, ou sobre esportes, mas não sei se vou fazer. Dá trabalho, muito trabalho.