‘Ao PT o que resta é segurar o lulismo’, diz analista

‘Ao PT o que resta é segurar o lulismo’, diz analista

Sonia Racy

10 Abril 2018 | 00h55

LEONARDO AVRITZER

LEONARDO AVRITZER. FOTO: GUALTER NAVES/ESTADÃO

Com Lula preso em Curitiba, a Ficha Limpa no horizonte à espera de pescoços para cortar e o imponderável que ronda o STF a respeito de segunda instância, qual deveria ser a estratégia de Lula e do PT para garantir seu futuro? “Eu começaria dizendo que Lula simplesmente não será candidato”, aposta o cientista político mineiro Leonardo Avritzer. Que, nesta conversa com a coluna, revelou pesquisa recém-concluída na Universidade Federal de Minas Gerais segundo a qual 28% do eleitorado lulista não tem candidato. “E nem está claro para onde eles vão pender…”

A estratégia adotada pelo PT, de manter a candidatura de Lula e esticá-la até onde der é a melhor? O partido poderia ter outra?
Vejo de início duas realidades. A primeira é que Lula não tem como ser candidato em outubro — por todos os motivos já conhecidos e expostos. A segunda é uma pesquisa concluída na semana passada, pela UFMG, segundo a qual, com Lula fora, 28% de seu eleitorado cativo não tem hoje uma alternativa definida. Eles têm que “segurar” esse pessoal.

E “segurar” é manter Lula falando para eles até quando der…
Sim, boa ou ruim, não tem outra estratégia. Sabe-se que, historicamente, Lula é muito maior que o partido. Quando no poder, ele tinha uma aprovação pessoal em torno de 10% acima de seu próprio governo. Mas não está claro até que ponto ele pode ajudar.

E a força de Lula para atrair o eleitorado pode trombar com novas decisões na Justiça, não?
Pode. E some-se a isso alguns prazos que são decisivos. Principalmente o 17 de setembro, data-limite para o TSE decidir sobre inelegibilidades. A meu ver, nada impede o tribunal de antecipar essa decisão, já que a essa altura o País estaria a apenas duas semanas e meia da eleição. O recado que Lula pudesse dar ao seu eleitorado já teria sido dado. Vai ser uma alternativa eficaz? Não sabemos , mas não estão sobrando alternativas para os petistas. E nisso não temos padrões de comparação com o passado.

Concorda com uma conta já feita por alguns, pela qual o espaço político do PT vai ser menor que o atual a partir de 2019?
Difícil imaginar o contrário. É importante ponderar, nesse item, que teremos uma eleição de pessoas, não de ideias ou de partidos. E quais pessoas, no caso do PT? Jaques Wagner não aceita o lugar de Lula porque precisa do foro privilegiado, muito mais garantido por uma candidatura ao Senado. Fernando Haddad é hoje o nome mais provável, mas eleitoralmente modesto para as necessidades do partido. Resta avaliar o quadro geral da esquerda na disputa.

E qual é esse quadro?
Ele mostra que, sem Lula, o eleitorado de Ciro Gomes quase dobra. E pode emergir um outro cenário. O de uma aliança de esquerda, a partir de 2019, composta de um PT menor do que o eleito em 2014 e com uma fatia maior das outras legendas à esquerda, como Rede, PSOL e outras menores. / GABRIEL MANZANO