‘Este é o momento de SP tornar o balé acessível’, diz Ismael Ivo

‘Este é o momento de SP tornar o balé acessível’, diz Ismael Ivo

Sonia Racy

03 Abril 2017 | 00h40

FOTO IARA MORSELLI / ESTADÃO

FOTO IARA MORSELLI / ESTADÃO

Consagrado em grandes palcos no exterior,
o bailarino assume o Balé da Cidade com planos de
aproximá-lo de quem tem “fome de viver e fome de criar”

.
Nascido em uma família de classe baixa da Vila Prudente, na periferia de São Paulo, Ismael Ivo tem uma trajetória digna de cinema. Depois de uma carreira brilhante no exterior – entre outras, tendo passado pelo Teatro Nacional Alemão, fundado o Festival de Dança de Viena e dirigido, por oito anos, o setor dança da Bienal de Veneza, o bailarino voltou à sua cidade natal com uma missão: dirigir o Balé da Cidade. Convidado por André Sturm – que já conhecia –, o coreógrafo abraçou a causa sem pestanejar.

Dispensou, para tanto, convites importantes como dirigir o Balé da Ópera de Gotemburgo, na Suécia, ou se tornar, talvez, o novo diretor da Companhia L’Arte Balletto, da Itália. O motivo de seu retorno é muito claro e esteve presente no nome de seu primeiro espetáculo à frente da companhia: “Risco”. “O momento que a cidade onde eu nasci, São Paulo, está vivendo, culturalmente, politicamente – e em relação ao País inteiro – é de revisão. O Brasil está revendo os seus valores morais, políticos, sociais, existenciais, culturais. Então, penso que é muito bom participar dessa revisão da minha cidade”, explica à repórter Marilia Neustein, em entrevista no salão nobre do Teatro Municipal.

Primeiro diretor negro do Balé da Cidade, Ivo entende que o Brasil tem tudo para se tornar uma potência criativa da dança. “O bailarino brasileiro tem uma forma de se atirar, de se jogar, de tentar, de arriscar, diferente dos outros corpos. Talvez porque nós nascemos em um país onde a fome existe. E não é só a fome como um fenômeno social que a gente tenta amparar e resolver, mas uma fome de viver, uma fome de criar”, explica, sem ignorar as contradições sociais e raciais do País. “Existe racismo no Brasil e não podemos empurrar isso para debaixo do tapete”, observa. Abaixo, os melhores trechos da conversa.


Você estava cheio de propostas que davam continuidade à sua carreira internacional. Por que voltar ao Brasil depois de tantos anos? Voltar é um grande prazer e a decisão tem tudo a ver com esse espetáculo que apresentamos, Risco. O momento que a cidade onde eu nasci, São Paulo, está vivendo, culturalmente, politicamente, – e em relação ao País inteiro– é de revisão. O Brasil está revendo os seus valores, morais, políticos sociais, existenciais, culturais. Então, penso que é muito bom poder participar dessa revisão da minha cidade. E o próprio Balé da Cidade – que completará 50 anos no ano que vem – também está se revendo, fazendo um outro equilíbrio de valores, estéticas, caminhos artísticos. E isso pra mim representa um grande prazer.

Acredita que os períodos de crise podem, também, ser fonte de criatividade e reflexão? Exatamente. É um risco, mas é também uma chance. Vejo que, apesar das dificuldades, abre-se uma oportunidade para outros caminhos, soluções. Tudo é um risco, mas o risco positivo. Tenho refletido muito e me sinto confortável neste momento, depois que ocupar essas posições internacionais, para fazer isso também na minha cidade. Porque eu vejo que existe uma forma de olhar, acionar, praticar cultura, arte, de uma outra maneira.

Nesses anos todos em que você morou fora, esteve acompanhando o que acontecia no Brasil? Em termos de arte e política? Sim. Periodicamente vinha ao Brasil, me acercava do que estava acontecendo, sempre muito curioso. Acompanhando a evolução das artes e da dança daqui. Vejo o nosso País como um potencial de linguagem, de inovação. Eu sempre digo que nós nascemos com o DNA da criatividade. Isso é Brasil. E mais: existe um componente no bailarino brasileiro – que é ser um tipo de “camicase”. O bailarino brasileiro tem uma forma de se atirar, de se jogar, de tentar, de arriscar, diferente dos outros corpos. Talvez porque nós nascemos em um país onde a fome existe. E não é só a fome como um fenômeno social que a gente tenta amparar e resolver, mas uma fome de viver, uma fome de criar. E isso é uma coisa maravilhosa, que não encontramos em outros países ou culturas, nas quais já existe uma grande zona de conforto.

Acha que esse pode ser um dos maiores diferenciais do bailarino brasileiro? Sim. Talvez nos doemos mais intensamente. É um país onde nós ainda temos no nosso dicionário a palavra “intuição”, porque em outras nações… intuir para quê? Está tudo seguro, né? E a própria configuração racial do Brasil coloca componentes culturais que são incríveis. Todos somos descendentes de negros, índios, brancos. Isso dá uma moqueca… (risos)

Acredita que o brasileiro só valoriza os artistas que são bem sucedidos internacionalmente? Há uma resistência de olhar com bons olhos a nossa cultura? Sim, todos os projetos internacionais que eu fiz – de Tóquio a Bangkok, Dinamarca, Alemanha… eu não precisei virar alemão para desenvolver o meu trabalho e as minhas ideias. Então, me sinto voltando a SP para rever a cidade com os olhos abertos. E, assim, tentar então traduzir o que eu estou vendo, vivendo, absorvendo. O Balé da Cidade é um representante de vários aspectos que permeiam a nossa vida. Não quero uma companhia que esteja distante. Não sei se foi o André Sturm ou o próprio Cleber Papa que falou, quando estreou nesta gestão a Orquestra Sinfônica do Municipal, que “a cidade tem concerto”. Aí eu digo assim: “Agora a cidade tem um corpo”. Um corpo de baile.

Como vê a ideia de democratizar a cultura? Como viabilizar isso em uma instituição como o Teatro Municipal? Essa é uma prioridade. A cultura tem que ser acessível não só para as pessoa que têm um diploma acadêmico. Nós somos a terceira maior população do mundo. E este é o momento do Balé da Cidade. Fazendo 50 anos, essa companhia tem um histórico que não só deu prioridade a repertório, mas também a se constituir como um ninho de ideias, um laboratório vivo. Com todo esse histórico e a perspectiva do futuro, este é o momento de tornar também a cultura do balé acessível. Eu, por exemplo, comecei a praticar, no Balé da Cidade, o projeto Portas Abertas, no qual a gente abre os ensaios para as crianças de periferia. No caso do espetáculo Risco, expliquei pra eles a ideia do “risco”, que é o risco de viver. Qual é o risco de viver numa cidade como São Paulo? É uma cidade de sobrevivência, na qual você tem que criar os seus caminhos, os seus objetivos, para poder construir a sua vida.

Você nasceu na Vila Prudente, em uma família de classe baixa, e sempre diz que a dança mudou sua vida. Como é reviver essa história em outra posição? Quando fui convidado eu disse: olha, eu sou um menino negro, da zona Leste, de condições econômicas muito modestas, mas tive a sorte de encontrar a arte como uma perspectiva – o que me direcionou na vida. Tive um sonho de realizar uma carreira. Me permiti acreditar, me empenhar e me inserir em um contexto onde provavelmente não era previsto que eu viesse a estar. Saí da periferia, me infiltrei e comecei então a trilhar e a sonhar que era possível. E, de repente, foi possível. Por isso, sendo esse menino negro da zona Leste – o primeiro bailarino negro a ocupar a posição de diretor do Balé da Cidade – estar nessa direção, cuja proposta é acessibilidade, é como, mais ou menos, encontrar a minha própria história. Eu me vejo nesses meninos do Capão Redondo que vêm visitar o Municipal.

Como é essa experiência? Esses garotos que vêm e entram nesse teatro assim… talvez tenham passado pela porta mas sem sonhar com entrar nesse palácio. E eu parto com eles de um princípio muito simples. Tratamos de refletir: o que é a arte? Para que fazemos arte? Parto do pressuposto de que eles não precisam entender, precisam ter acesso, confrontar-se com isso.

Nesse contexto, como vê a discussão sobre o racismo no Brasil? Existe racismo, sim, no Brasil. Há uma separação dentro de uma escala social, econômica, cuja consequência é que a população afrobrasileira é relegada. É um fator histórico. Veja hoje os EUA… como são mal resolvidos nessa questão, por exemplo. Não se pode abafar as coisas, colocar debaixo do tapete. Acho que é vital que o jovem afrobrasileiro, os artistas jovens afrobrasileiros, criem vozes. Criem consciência. E é preciso germinar um outro entendimento racial dentro dessa sociedade, que muitas vezes se autodenomina tolerante, mas tolerante sem realmente colocar o dedo na ferida.

Você pretende abordar esse assunto no balé, assim como fez no Risco, no qual procurou estudar as questões urbanas e sociais? Tem que questionar sim. Por exemplo: já dentro do balé, que é um outro contexto artístico, é claro que tem a questão de o diretor do balé ser negro. No próximo novembro, que é o mês da consciência negra, eu vou falar sobre o corpo negro. Eu vou colocar um programa no qual esse tipo de diálogo ou representatividade é discutida.