Para historiador, carnaval é ‘festa politizada’ e cada  bloco ‘deve cantar o que quiser’

Para historiador, carnaval é ‘festa politizada’ e cada bloco ‘deve cantar o que quiser’

Sonia Racy

20 Fevereiro 2017 | 00h30

Luiz Antonio Simas. FOTO: Fabio Motta/Estadão

Luiz Antonio Simas. FOTO: FABIO MOTTA / ESTADÃO

O estudioso carioca Luiz Antonio Simas condena
o conservadorismo que tenta proibir  temas, vê nos festejos
de Momo um  misto de tensões e harmonia e percebe,
na volta dos blocos de rua, certo  cansaço
com os modelos  de Rio e Bahia.

Carnaval não é só diversão e bagunça. É história, é política e, acima de tudo, resistência. É assim que o historiador carioca Luiz Antonio Simas, trata o assunto, com uma intimidade que lhe valeu fama de especialista em folia. “Estudo o carnaval porque me interesso pela história do Rio de Janeiro e acho que entrudos, corsos, batalhas de confetes, festa da Penha, rodas de capoeira, cordões, bailes de mascarados, escolas de samba e caciques de Ramos, suvacos e simpatias, clóvis e bate-bolas, dão pistas para se entender como as tensões sociais – disfarçadas ou exacerbadas em festas – bordam as histórias da cidade plural”, justifica.

Vencedor do prêmio Jabuti 2016 com Dicionário da História Social do Samba (que define como “a mais fascinante e sofisticada aventura civilizatória do Brasil”), escrito em parceria com Nei Lopes, Simas diz que o carnaval é de longe, a mais politizada das festas brasileiras. E, por isso, na discussão sobre as marchinhas polêmicas, ele defende a liberdade. “Cada bloco tem o direito de cantar o que quiser”, ressalta em entrevista à repórter Julianna Granjeia. O historiador elogia o carnaval de São Paulo e tem um samba-enredo preferido no Rio: Renascer de Jacarepaguá, do grupo de acesso. A seguir, os principais trechos da conversa:

Alguns blocos têm optado por excluir marchinhas com letras consideradas racistas, homofóbicas e misóginas. Outros veem nesse gesto um movimento “politicamente correto” que está estragando as tradições carnavalescas. O que acha dessa discussão?
Ela revela, entre outras coisas, que, ao contrário do que alguns imaginam, o carnaval não é apenas uma festa do esquecimento. Longe de ser alienante, ele é talvez a mais politizada das festas brasileiras. Aquela em que de forma mais evidente, ao longo da nossa história, as relações tensas e intensas entre as diferentes camadas sociais disputam as cidades e criam formas de vida. Essa discussão (sobre o politicamente correto) reflete, em certo sentido, isso. De todo modo, sou dos que acham que cada bloco deve ter o direito de cantar o que quiser e de não cantar o que não quiser.

Não é paradoxal o samba ser uma afirmação da cultura negra no Brasil e ao mesmo tempo termos a presença de elementos racistas no carnaval?
Não me parece exatamente paradoxal. A rigor, o racismo é um elemento estruturante da nossa formação. Ele perpassa a história brasileira com uma força impressionante e dificilmente o carnaval passaria incólume a isso. A festa do carnaval, mimetizada nos desfiles das grandes escolas de samba e dos blocos de rua, ao mesmo tempo em que exacerba tensões, inclusive as raciais (entendo raça aqui como uma construção social e não condição biológica), traz certo discurso de harmonia. O choque entre essas duas perspectivas, num jogo entre a tensão e o riso, está muito presente nos dias de Momo.

O carnaval carioca de 2017 apresenta vários enredos que remetem à cultura afro. As escolas de samba estão retomando suas origens e deixando um pouco de lado o padrão Las Vegas que tomou conta da Sapucaí nos anos 90 e 2000?
Não diria que estão retomando suas origens neste sentido, até porque enredos afrobrasileiros só começaram a fazer parte dos carnavais mais sistematicamente a partir da década de 1960. Acho que as escolas de samba sentiram o baque da crise econômica. O esvaziamento do fluxo de dinheiro que vinha de enredos patrocinados é evidente. Isso abre novo espaço para enredos autorais, dentre eles os de temática afrobrasileira ou indígena.

A Grande Rio apresenta, neste ano, um enredo sobre a cantora Ivete Sangalo cujo samba tem um andamento diferente, mais parecido com um frevo. Qual a sua avaliação desse samba?
Não vejo exatamente problemas no samba. Não é uma obra-prima, mas também não me parece dos piores. Cumpre a função de descrever o enredo. No ensaio técnico, o andamento da bateria pareceu, para muita gente que acompanha escolas de samba, acelerado em demasia, distante da cadência e do sincopado que caracterizam o samba como gênero musical. Parecia, de fato, um andamento mais propício a um frevo que a um samba. A avenida tirará essa dúvida e eu espero que o samba vença.

Marlon Flôres Srn e Patricia Cunha, do Renascer de Jacarepaguá. FOTO: Reprodução/Facebook

Marlon Flôres Srn e Patricia Cunha, do Renascer de Jacarepaguá. FOTO: Reprodução/Facebook

Em sua opinião, qual é o melhor samba-enredo carioca de 2017? Por quê?
O da Renascer de Jacarepaguá, que desfila no grupo de acesso. O enredo é excelente (O papel e o mar), abordando duas figuras importantíssimas da cultura afrobrasileira, a escritora Carolina de Jesus e o marinheiro João Cândido, líder da Revolta da Chibata. O samba, de Moacyr Luz, Cláudio Russo e Diego Nicolau, é melodicamente rico, tem uma letra emocionante e muito bem elaborada – o enredo ajuda muito – e é bem interpretado. No grupo especial, destaco os sambas da Beija-Flor, da Mocidade Independente e da Vila Isabel.

O prefeito do Rio disse que não estará presente na Sapucaí. O que acha dessa decisão?
Ele não deveria “pirulitar” do carnaval. A pessoa física Marcelo Crivella tem todo direito de detestar o carnaval, achar que é coisa do demônio e ir pro outro lado do planeta para escapar das tentações de Momo. O prefeito do Rio, por tudo que o carnaval representa para a construção do imaginário da cidade e como um dos fundamentos dos modos de fazer que costuram a cultura do povo daqui, não tem esse direito. Ele é prefeito do Rio de Janeiro, não é síndico de condomínio onde tem apartamento. Não gosta de carnaval e é prefeito do Rio? Toma Plasil, finge que gosta, entrega a chave pro Rei Momo e vai vomitar no banheiro. Quem não entende a dimensão do campo simbólico para o exercício dessa função deveria fazer outra coisa. E quem não entende a dimensão simbólica dessa fuga do bispo deveria começar a se preocupar.

Como você avalia o desfile das escolas de São Paulo, os pontos altos e baixos?
Acho que é um desfile com um nível cada vez mais alto, com ótima qualidade, e muito baseado no modelo das escolas cariocas, inclusive do ponto de vista do intercâmbio de profissionais que trabalham nos dois carnavais. Ao mesmo tempo em que isso garante um desfile de bom nível, em certo sentido tira do carnaval paulista algumas características tradicionais que vinham, por exemplo, dos antigos cordões.

São Paulo retomou nos últimos anos o carnaval de rua e teremos um número recorde de blocos desfilando em 2017. Qual a justificativa para a volta a essa ocupação do espaço público?
Não acho que exista apenas um motivo, mas um conjunto deles, que podem incluir certa saturação – em virtude até do gigantismo dos blocos – dos carnavais de rua do Rio e da Bahia, que atraíam muita gente de São Paulo. Além disso, grande marcas perceberam que o carnaval pode dar um retorno de mídia excelente e gerar circulação de capitais, especialmente em uma cidade com o poder de consumo como o de São Paulo. Neste sentido, passaram a patrocinar blocos, bailes e eventos carnavalescos em geral. Ao mesmo tempo em que promove o carnaval de rua, essa cooptação pelo mercado tira deste mesmo carnaval parte considerável de sua potência e espontaneidade. É um dilema que os amantes do carnaval de rua têm que enfrentar.

Há um certo temor, tanto em SP quanto no Rio, de que a crescente onda conservadora atrapalhe o carnaval de rua. Você acha possível?
Acho possível, sobretudo se essa vaga continuar. Por enquanto, o que me parece prejudicar mais o carnaval de rua é a normatização imposta a ele pelo Estado e pelo mercado, fundamentada no binômio controle social e consumo.

Em tempos de intolerância e sentimentos exacerbados, o samba pode ser visto como sinônimo de resistência?
É sinônimo de resistência, de negociação, cooptação, invenção de vida, construção de sociabilidades, submissão e insubmissão ao mercado e muito mais. O samba é um complexo cultural em que vivem saberes que circulam, formas de apropriação do mundo, construção de identidades comunitárias, hábitos cotidianos, jeitos de comer, beber, vestir, enterrar os mortos, celebrar os deuses e louvar os ancestrais. Sendo resistência, vai muito além disso. A história do samba é a mais fascinante e sofisticada aventura civilizatória do Brasil.