Em livro, Ricupero conta como diplomacia ajudou a construir o Brasil

Em livro, Ricupero conta como diplomacia ajudou a construir o Brasil

Sonia Racy

03 Outubro 2017 | 01h00

Por longo tempo o economista e diplomata Rubens Ricupero buscou, por toda parte, um livro que “ajudasse a ensinar” que a política externa “é um fio inseparável da trama da história nacional, não desligado da sociedade”. Não achou nenhum. Resultado: meteu mãos à obra e o resultado foi A Diplomacia da Construção do Brasil – uma análise-memória de 784 páginas que o também diretor da Faap lança esta noite, com direito a debate, no Centro de Integração Empresa-Escola, no Itaim. O livro, pela Versal Editores, marca ao mesmo tempo os seus 80 anos de vida, a se completarem em março, e 50 de diplomacia. “É a obra que resume minha vida e minhas andanças”, resume o autor.

Seu foco é preencher o vazio nas estantes. “Os livros de história ignoram a diplomacia. E os de diplomacia raramente abordam política e sociedade.” E já é hora, diz ele, de mostrar “como a diplomacia ajudou a dar forma e identidade ao País”. A frase é um exagero? Não, garante o professor. “Não fosse o êxito da diplomacia, o Brasil só teria hoje um terço de seu território”. Mas ele alerta que evitou, no trabalho, “o tom apologético das histórias nas quais o governo sempre tem razão”.

Qual o episódio de destaque desse meio século de memórias? “Talvez seja a visita secreta de Robert Kennedy ao Brasil, em 1962. Bob, irmão do então presidente John Kennedy e seu secretário de Justiça, veio dar o ‘beijo da morte’ no governo de Jango”. Terceiro escalão do Itamaraty, Ricupero era o único diplomata em Brasília naquele 17 de dezembro. Foi ao aeroporto receber o visitante. “Bob e Jango conversaram a portas fechadas por três horas. Eu fiquei de fora. Lá dentro estava também o embaixador Lincoln Gordon.” Por longas décadas nunca se soube do que falaram – mas em 2015 um memorando de Gordon veio à luz. Ali se revela que, na conversa, Bob escreveu um bilhetinho para ele, ao seu lado, dizendo “we seem to get nowhere” (“parece que não iremos a lugar nenhum”). Pouco depois, outro bilhete: “Esse sujeito pensa que nos agarrou pelo rabo… Não entendeu ainda que precisa escolher entre nós e Cuba”.
Sim, a sorte do governo Jango estava selada, 15 meses antes do golpe. “Eles não atuaram, mas autorizaram, foram os mandantes.” O livro narra outra trombada com os americanos – desta vez vivida por Tancredo Neves, recém-eleito presidente em 1985, com o secretário de Estado George Schultz, em sua viagem pré-posse. “Viajei com Tancredo. Lá ele queria um acordo para nossa dívida externa, pra poder governar. Foi informado de que os EUA não o fariam, porque o Brasil havia assinado sete cartas de intenção e não tinha cumprido nenhuma”.

E o Brasil de hoje? O diplomata recorre ao poeta italiano Giacomo Leopardi: “Se queremos algum dia retomar o espírito de nação, nossa primeira atitude deve ser não a soberba, mas a vergonha.” / GABRIEL MANZANO