Desfiles ‘não geram mais tanta notícia’, diz Fause Haten

Sonia Racy

28 Agosto 2017 | 00h28

FOTO IARA MORSELLI / ESTADÃO

Em tempos de redes sociais e ‘see now, buy now’, o estilista 
entende que o impacto do que é criado 
dura muito menos que antes e acaba tendo 
de ceder espaço, nas passarelas, a show e performances

Sumido do circuito fashion e com o pé cada vez mais no teatro, Fause Haten mantém, no entanto, um ateliê ‘secreto’ em sua casa no Belenzinho – e é lá que atende a 100 clientes fiéis, com hora marcada. “Aqui era minha antiga fábrica nos 1990”. Sucesso na moda no começo dos anos 2000, Fause vendeu sua marca, em 2008, para o Grupo Zoomp, hoje uma massa falida que lhe deve mais de R$ 9 milhões.
“Luto na Justiça para receber o que me devem. Já ganhei até a causa, mas não consigo receber”, conta ele, nesta entrevista à repórter Sofia Patsch, que recebeu em seu ateliê. Para se reerguer, o estilista começou a fazer teatro – vem se destacando como ator e até já dirigiu seu primeiro musical, Lili Marlene, que saiu de cartaz em junho. Pretende largar a carreira de estilista para se dedicar apenas aos palcos? “Acho bem difícil. Amo fazer roupas”.

Conhecido por fazer desfiles performáticos e cheios de personalidade, Fause não vai desfilar nesta SPFW – que começou sábado. “Adoro fazer desfile, mas estou cansado este ano”. Para ele, os desfiles não geram mais tanta mídia quanto geravam há alguns anos. “A cliente tá cansada de ir em desfile. Se ela quer ver a roupa, vai direto ao ateliê do estilista. Para atrair a atenção, hoje o desfile tem que ter algo a mais, tipo o que Karl Lagerfeld faz com a Chanel”. A seguir, os melhores trechos da entrevista.

O modo como são feitas hoje as semanas de moda está em crise, principalmente com a chegada do ‘see now buy now’ e a pressão por coleções cada vez mais próximas. Como enxerga isso?
Existe uma questão que é o cerne disso tudo. Um desfile gerava notícias pra seis meses e hoje ele mal consegue gerar notícias pra uma semana. Esse é o ponto principal. Se você olhar em termos de investimento, uma marca pode diversificar muito mais suas atividades e gerar uma quantidade muito maior de imagens do que com um desfile.

E como conseguir tornar o desfile algo mais atraente?
Adoro fazer desfiles, até porque durante muito tempo foi o meu palco, quando eu entendi que aquilo era um palco. Sempre fiz desfiles performáticos. Diziam “lá vem o Fause com as coisas dele”. Depois chegou uma hora que era “ ah, vamos ver o que é que o Fause vai fazer”. Hoje todos os desfiles internacionais estão nesse mesmo caminho. A Chanel, por exemplo. Todo mundo fica curioso para saber o que o Karl vai fazer desta vez.

Resumindo, diria que o show importa mais que as roupas?
Exato.

Você está sumido da mídia desde que vendeu, em 2008, sua marca para o grupo da Zoomp. Por quê resolveu fazer essa venda?
Naquela época a empresa estava muito estabilizada, muito organizada. Estava tudo certo, tudo em ordem e foi nesse momento que começou o contato com o Grupo Zoomp. Pensei, isso não é meu sonho, quero essa estrutura, mas não quero ser um gestor. Estava muito infeliz naquela função.

O grupo ofereceu R$ 9 milhões pela sua empresa, mas você só recebeu os R$ 300 mil da entrada. Como foi isso?
Recebi a entrada, fizemos o desfile, foi um sucesso. Entreguei a coleção pronta pra eles, tivemos um excelente resultado de venda, veio o Carnaval, fiquei mais ou menos um mês fora. Quando voltei a minha empresa tinha R$ 60 mil de duplicatas protestadas.

Mas você disse que entregou a empresa no verde para eles? O que aconteceu?
O que entendo que começou a acontecer: todo o faturamento da empresa passou a ir para a central do Grupo Zoomp. Lá o dinheiro era distribuído para outras marcas do grupo e não voltava para a minha.

Quando percebeu que não ia receber sua parte do acordo?
Quando começaram a não pagar os funcionários e não aconteceu meu desfile na época. A gota d’água foi quando o Alexandre (Herchcovitch) saiu do grupo. Aí vieram falar comigo: “Olha, tá acontecendo isso, o Alexandre vai sair”. E eu perguntei: “Mas como ele vai sair, ele não vendeu?” Não, ele ainda não tinha assinado os papéis. Tanto é que quando deu o rolo todo fiquei sabendo que eles iam mover uma ação contra o Alexandre porque financiaram o desfile dele em Nova York na época. É um assunto muito delicado, só estou contando os fatos.

Em que pé está toda essa situação na justiça? Vai receber?
Na realidade eu já ganhei a ação, mas não consigo receber.

Por quê?
Essas pessoas têm o dinheiro todo escondido, né? A gente tá vendo aí o que acontece com os nossos políticos.

Depois de tudo que passou, como vê a volta da Zoomp ao mercado?
Essa volta da Zoomp também tem uma história que nunca entendi. O Turco Loco (Alberto Hiar) estava comprando a marca da massa falida. Aí, no dia da assinatura ele desistiu da compra. Uma semana depois, ele comprou a Zoomp em um leilão, deve ter pago muito menos. Essas questões são muito complexas, nem sei se devo falar disso, mas, teoricamente o Grupo Zoomp tem a falência decretada, tem um grupo de credores, tem uma situação ali.

Hoje você assina Fause Haten em suas coleções ou não?
Não tenho direito de usar meu nome, uso FH. Poderia ter pedido essa marca de volta, mas ela já passou por tantas questões que prefiro receber por ela. Afinal, se pedir a marca de volta tenho que abrir mão de receber o que me devem.

Muitos estilistas vendem suas marcas para grandes grupos e depois se arrependem por perder a identidade. Concorda?
Vários grupos se formaram no Brasil, e fora também. Mas, especificamente no caso brasileiro, com um entendimento muito pequeno do mercado. Então eles procuravam os estilistas para falar que nós não sabíamos fazer nada, eles é que sabiam… Eles usavam os estilistas para gerar notícia. Foi o que aconteceu com o Marcelo Sommer, com o Amir Slama, com o Tufi Duek. Com a Isabela Capeto foi a mesma coisa: ela vendeu 51% da marca e acabou tendo que assumir as dívidas do grupo que comprou. Ficou numa situação complicada, quis reaver a marca – enfim, não sei muitos detalhes.

Então você considera que esses grupos não deram certo?
Os grupos que deram certo foram os que compraram marcas médias e as unificaram. Caso da Animale, que tinha um perfil de vendas fashion e se juntou à Farm, que tinha um perfil comercial. Com a junção parece que tudo funciona bem.

Como você se reergueu depois disso tudo? O teatro ajudou?
O teatro me ajudou muito a passar por essa fase, inclusive na questão do ego.

Por que decidiu começar a tomar aulas de teatro?
Fui muito incentivado pela terapia. Eu tinha uma timidez, um incômodo.

E acabou se encontrando?
Ia para lá todas as noites e apenas criava, era um prazer enorme pra mim. Porque mesmo que o meu dia fosse tenso e complicado, à noite eu me dedicava só à criação.

Diria que já está consolidado um ator de teatro?
Acho que as pessoas entenderam. Fiquei muito feliz quando escreveram que eu era um artista com estilo próprio, porque não queria ficar sendo comparado sabe, “ah, parece isso, parece aquilo…”

E quanto ao cinema, tem vontade de experimentar?
Adoraria que alguém me convidasse para fazer um papel.

Pretende se dedicar apenas ao teatro e deixar as roupas?
Não, acho muito difícil. Amo fazer roupas.

O fast fashion foi a revolução mais impactante da moda dos últimos tempos. Como enxerga esse fenômeno?
As pessoas passaram a ter acesso à internet e tudo mais, isso foi toda uma trilha até chegar ao fast fashion, que fez com que a informação sobre a moda chegasse a uma roupa barata. Esse movimento trouxe toda a mudança no mercado e na forma de consumir.

Em que posição está hoje sua marca no mercado?
No topo da pirâmide estão as marcas internacionais, na base estão as grandes cadeias de fast fashion e eu me encontro no meio dessa estrutura. Eu e estilistas como Gloria Coelho e Reinaldo Lourenço, que estamos na luta, porque temos estrutura para conseguir ter preço, mas temos a concorrência com as marcas de fora.

Então acha que as marcas internacionais roubaram mercado das nacionais de luxo?
Para se manter no mercado de luxo no Brasil, hoje, é preciso muito custo e muito relacionamento. Reinaldo e Gloria fazem isso muito bem e conseguem se manter, vendem por causa do relacionamento, porque o objeto de desejo desse tipo de consumidor é o internacional.