‘Decisão dos EUA, sem um plano B, não faz o menor sentido’, diz embaixador

‘Decisão dos EUA, sem um plano B, não faz o menor sentido’, diz embaixador

Sonia Racy

10 Maio 2018 | 01h00

RODRIGO AZEREDO SANTOS

RODRIGO AZEREDO SANTOS. FOTO: MINISTÉRIO DAS RELAÇÕES EXTERIORES

Em encontro casual em Teerã, esse mês, a coluna teve oportunidade de conversar com o embaixador brasileiro Rodrigo Azeredo Santos, que assumiu o cargo há pouco mais de um ano, levando para lá grande esperança de aprofundar a relação comercial entre os dois países. Mesmo sabendo das dificuldades.

Os problemas originados pelas sanções econômicas decretadas contra o Irã não desapareceram com assinatura do acordo nuclear em 2015. O documento não resultou na volta do funcionamento do sistema financeiro internacional por lá (ainda não existe cartão de crédito a não ser os de bancos locais e para uso local). O sistema de telecomunicações é também local. Celular? Nem pensar em operadoras multinacionais. E no caso do Brasil, nem BB nem BNDES voltaram a financiar qualquer operação. Muito menos os bancos privados brasileiros. Há só um banco paulista trabalhando na área, via Europa. Mas ainda timidamente.

Trump tem alguma razão nessa sua decisão? Azeredo Santos explica: os EUA alegam que há uma ‘sunset clause’ (cláusula legal que termina automaticamente depois de período definido) para certas atividades na área nuclear depois de 2025. O deadline existe mas trata-se de um acordo espelho: a medida que Trump e outros signatários fossem cumprindo a sua parte, o Irã o faria, se comprometendo com o protocolo adicional do tratado de não proliferação nuclear, o TNP. O Irã aderiu provisoriamente a esse protocolo. Que exige supervisão rigorosa da Agência Internacional de Energia Atômica. “Ele dá uma garantia ao mundo todo de que o programa nuclear iraniano continuaria sendo supervisionado”, diz o embaixador.

De acordo com Azeredo Santos, é falso dizer que essa sunset clause traz incertezas com relação ao programa nuclear a partir de 2025. Ontem, por WhatsApp, o embaixador respondeu também a outras perguntas.

O Irã vai ter que voltar a viver de escambo com essa decisão de Trump?
Mesmo antes da assinatura do acordo nuclear em 2015, eles já vendiam petróleo para Índia, China, Japão e outros. São países que nunca deixaram de comprar simplesmente porque precisavam. Com os recursos acumulados na moeda desses mesmos países, o Irã adquiria mercadoria. Depois do acordo liderado por Obama, a Europa passou também a ser cliente do Irã. O comércio com o continente passou de 6 bilhões de euros para 21 bilhões. Então, não tem essa história de escambo.

A Europa vai segurar a onda?
Só os Estados Unidos saíram. O Irã agora quer ver se os demais signatários vão trazer benefícios. Eles se sentem injustiçados. A Agência Internacional de Energia Atômica testou e verificou que eles têm, sim, cumprido o acordo nuclear. Como contrapartida, os signatários todos deveriam retirar sanções, inclusive os EUA. E com isso, o Irã poderia se beneficiar novamente do comércio livre, acesso ao setor bancário internacional etc. O que não aconteceu.

O setor bancário americano é dominante?
Sim e isso afeta outros países. O dólar no comércio internacional, as relações dos bancos grandes – inclusive brasileiros – com os bancos americanos, que temem essas sanções, acabou atrapalhando. Se por acaso a Europa não tiver condições ou não quiser ter uma posição de autonomia com relação às sanções americanas, o Irã está se dando o direito de sair do acordo e começar a atividade do programa nuclear deles. Como previsto no caso de fim do acordo assinado. Não para fins de armamento mas para atividade de uso pacífico também.

Com vigilância da Agencia Internacional de Energia Atômica?
Não. Por isso que a decisão dos Estados Unidos, sem um plano B, não faz o menor sentido. Não trouxe maior segurança para ninguém. Pelo contrário: o acordo, ao menos, garantia a supervisão.

A ação de Trump ajudou os conservadores no Irã?
Existe uma ala mais conservadora que já criticava o acordo nuclear no período das negociações. Que achava que não deveria haver negociação. Mas, até o momento, prevalece a posição de permanecerem dentro do acordo.

Os EUA também acusam o Irã de estar apoiando grupos terroristas. É verdade?
O Irã, na Síria, combateu o Estado Islâmico, com ajuda da Rússia. Isso foi decisivo para a derrota do EI no país de Bashar Al-Assad. A partir dai, os americanos definiram o Irã como um Estado que aprova o terrorismo porque o país persa apoia o Hezbollah abertamente. Acontece que o Hezbollah hoje é um partido político. Em resumo, o Irã demonstrou, ao negociar o acordo nuclear, que estava aberto a essa solução diplomática. O que se deveria fazer é buscar o diálogo dos outros temas em foros diferentes e não misturar as coisas. É perfeitamente possível.

O Brasil faz negócios comerciais com o Irã?
Há muitas empresas e setores brasileiros que têm interesse na área de petróleo e gás, transporte urbano, o setor agrícola. Esse setor nunca entrou nas sanções, vantagem para o Brasil. Nossa balança bilateral é de US$ 2,7 bilhões, sendo US$ 2,66 bilhões de exportações brasileiras para o Irã. E 90% disso é composto pelo agronegócio.

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Na linha de que povos são sempre melhores que seus governantes, grupo de turistas – entre eles esta colunista – passeou por quase duas semanas pelo Irã, se deparando com pessoas amáveis, solícitas. Muito longe da agressividade e violência de seus governantes ou do Hezbollah – temido grupo apoiado pelo país de maioria xiita.

Nas diversas cidades visitadas, locais pediam para tirar fotos com os “estrangeiros”, agradecendo a visita e se prestando a ajudar com informação ou mesmo se dispondo a acompanhar o turista. Não há notícias de assaltos corriqueiros ou roubos. E nas lojas, diferentemente do mundo árabe (os iranianos são persas), o costume da “pechincha” não é usual.

Vale lembrar que antes mesmo do anúncio da saída dos EUA do acordo nuclear, o Irã ainda sofria sanções, depois de um início de melhora na era Obama. Pelo que se apurou, investidores deixaram de fazer negócios desde a eleição de Trump. Como todo grande ator privado internacional transita pelo sistema financeiro americano, a percepção de risco – que acabou se concretizando essa semana – era grande.