Deborah Colker conta o desafio de criar uma peça baseada em João Cabral

Deborah Colker conta o desafio de criar uma peça baseada em João Cabral

Sonia Racy

21 Agosto 2017 | 00h45


IARA MORSELLI / ESTADÃO

A coreógrafa estreia em SP ‘Cão sem Plumas’
e diz que mergulho na obra do poeta
reforçou sua ‘visão de brasilidade’

Uma das mais importantes coreógrafas do Brasil, Deborah Colker traz a São Paulo aquela que já é considerada sua obra-prima: Cão Sem Plumas, baseada na obra do poeta João Cabral de Melo Neto, estreia na sexta-feira, dia 25, no Teatro Alfa. Mas Deborah não estará presente, como costuma acontecer – a coreógrafa vai acompanhar de perto mais uma etapa do tratamento a que é submetido seu neto: o pequeno Theo sofre de uma doença rara, epidermólise bolhosa, que deixa sua pele extremamente vulnerável. Mas foi justamente a persistência do menino que impulsionou Deborah a realizar um de seus melhores trabalhos.

Nos versos de João Cabral, Cão sem Plumas trata da mitologia do Rio Capibaribe, aqui retratado distante tanto do realismo puro quanto da idealização lírica, sendo um marco na poesia brasileira contemporânea. Deborah se emocionou com a forma como o poeta trata da miséria e do descaso do homem com a natureza. Assim, uniu-se ao cineasta Cláudio Assis e, junto de seus bailarinos, seguiu a trilha do rio, do interior até a capital.

Enquanto tomava contato com o barro, o grupo era filmado por Assis, cujas imagens poderosas são projetadas durante o espetáculo. “João Cabral reforçou minha visão de brasilidade”, conta Deborah a Ubiratan Brasil sobre seu 13.º trabalho.

Você se baseou em textos literários nos últimos espetáculos. Agora é poesia. É mais difícil partir da poética?
Boa pergunta. Arrisco dizer que é mais fácil. Porque a poesia é irmã da dança. São diferentes, mas parecem filhas do mesmo pai e da mesma mãe, têm uma origem, uma ideia, uma linha de pensamento, de sentimento até, de afetos. Mesmo a poesia de João Cabral, que é árida.

Exatamente.
A poesia do João Cabral nos faz ver uma palavra e, a partir dela, você se conecta por meio do pensamento, do sentido da palavra. Surge uma percepção de algo que não é apenas racional.

Mas você também trabalhou com textos em prosa que eram densamente poéticos.
Sim, e não dispensei o uso da palavra. Veja, como exemplo, A Bela da Tarde – quando se constrói um espetáculo de dança com um personagem já definido, é muito difícil. Isso porque na dança, mesmo usando a palavra – e usei muito nesse espetáculo –, você estabelece um código com o espectador, que tem a escolha de quanto vai escutar aquilo e o quanto essas palavras serão importantes na compreensão do espetáculo. Em Cão Sem Plumas, busquei a poética a partir da construção que João Cabral faz dos versos a partir da palavra, como seu vocabulário vai construindo algo.

ESPETÁCULO TEM TRILHA
ORIGINAL DE LIRINHA E
JORGE PEIXE

Você diria que a poesia é fácil para se trabalhar, mas quase que impõe um limite?
Sim, mas é algo bom. É um ótimo exercício, que obriga a mirar o foco e a saber exatamente o que você quer dizer, qual é a sua escolha. A dança, para mim, tem que ter um sentido, mesmo que, como na poesia, em que as palavras dão piruetas, você crie também saltos no ar. Há uma liberdade porque a própria poética se sustenta.

É curioso você dizer isso quando se sabe que o poema Cão Sem Plumas, embora belíssimo, é o retrato de uma situação desastrosa.
É isso, de fato. Sim, você esquece que é o Rio Capibaribe, quais são as questões fundamentais, e, por meio da associação de palavras, viajando naquela poética, você se solta.

É curioso você falar isso porque, nesse espetáculo, a coreografia parece existir principalmente para mostrar um retrato doloroso, estar a serviço daquilo e – muito importante – sem ser exibicionista.
É incrível você falar sobre isso porque a sensação era muito importante para mim. Veja só: quando o Claudio (Assis) terminou de filmar, conseguindo imagens muito potentes, comentei com ele que teríamos de fazer o que foi combinado há três anos, ou seja, um espetáculo híbrido entre dança e cinema. Ele reclamou, dizendo que, como se tratava de um espetáculo de dança, haveria apenas a projeção de 15 minutos de filme e uma hora de dança. Respondi dizendo que ele estava errado, porque eu não me importava em ver quem ganharia aquela disputa. A proposta era unir linguagens, unir expressões da poesia, da música, do cinema e da dança, para que sobressaísse a poesia de João Cabral.

O poeta acima de tudo?
Sim, esse espetáculo é João Cabral. Para mim, é totalmente ele. Por isso que todos os elementos criativos tinham de privilegiar um resultado em que despontasse sua poesia. Foi por isso que insisti para que a iluminação fosse menos forte porque eu pretendia ter o filme e o palco. Eu queria que o lugar do palco fosse o filme. Eu buscava o lugar da palavra.

É curioso como esse espetáculo, que é único em sua carreira pela singularidade, pelo uso do cinema, é curioso que ele tem, mesmo assim, a sua assinatura.
Acho que aprendi a trabalhar com a escrita, com a literatura, a poética. Tomei minha primeira surra em Tatyana, em 2011, que trouxe ao palco os personagens de Pushkin. Em seguida, veio A Bela da Tarde, um roteiro genial a partir da construção de um personagem, até chegar ao Cão. Respondendo à sua pergunta, acho que minha assinatura, nesse espetáculo, está no gesto. Não no movimento, mas no gesto do homem caranguejo.

E o Cão nasce em um momento dolorosamente importante de sua vida, em que seu lado artístico se divide com um acontecimento que marca diretamente sua rotina, que é o relacionamento com seu neto. Isso motivou de algum modo a sua criatividade?
Com certeza. Se você me perguntar como fui parar em Pernambuco, em busca de João Cabral, eu te respondo que não vi ali apenas o Rio Capiberibe ou o Nordeste – o que saltava diante dos meus olhos era encarar uma situação cruel, terrível, e, mesmo assim, as pessoas conformadas. Quando li o Cão sem Plumas, eu me via encarando uma situação, independente se fosse uma criança ou várias, se fosse uma cidade, um rio, um bairro, um Estado, um país. Independe a geografia, o que importa é ser algo muito cruel. O conformismo é inadmissível, inconcebível.

Foi como uma nova travessia em sua vida?
Exatamente. Foi como se eu tivesse morrido para renascer. Sim, tem relação com a morte. É como um transplante: você quase morre para poder nascer novamente sem saber o que virá em seguida. A condição humana oscilando entre a vida e a morte o tempo inteiro. A história que vivi com meu neto foi muito brutal. Eu nunca tinha entrado em contato com a dor dessa maneira.

Foi preciso encontrar muita força, não?
Sim. Para mim, Theo, ou a situação que se apresentou, caiu no meu colo como algo terrível, mas logo se tornou um presente, uma oportunidade de eu aprender a andar, a dançar, aprender o que é a arte. Ela está a serviço do quê? O que é que eu vou fazer com isso? Eu vivia um momento excepcional quando essa transformação aconteceu na minha vida. Era 2009 e eu estava estreando um espetáculo no Cirque du Soleil, tinha ganhado o prêmio Laurence Olivier, fato raro entre mulheres, até acontecer algo que me obrigou a repensar tudo.

Como foi isso?
Isso potencializou. Hoje em dia, sou uma pessoa com um padrão do que é fazer um espetáculo, do qual não volto atrás. Na Olimpíada, como uma das diretoras da abertura, todo mundo ali com medo, eu falei: gente, isso aqui vai ser muito bom, impecável, a gente vai acertar. O Fernando (Meirelles) me dizia “mas se isso não der certo…” e eu respondi, “vai dar”. E ele: “Como é que você sabe?” E eu? “Não sei, pode confiar em mim.” Não desmoronei. Aprendi o foco. Para que estou fazendo isso? Aonde eu quero chegar? Para mim, foi muito importante.

Isso num momento em que você poderia estar nas alturas com o prêmio.
Eu estava nas alturas. Mas fui puxada para o chão. Percebi que tinha duas opções: ou me prendia ou buscava soluções. É claro que tem coisas como a missão científica, a história da genética, e isso é uma possibilidade que se abre de você ter uma outra função social. Além disso, como artista passei a ter outros valores, outras aspirações, preocupações. Porque, na verdade, a arte tem uma função. Qual é? Essa é uma pergunta a que ninguém responde.

E o agora? O Cão é tão revolucionário na sua carreira. Você está preparada pro que vem agora?
No momento em que eu estou, eu me conheço, já estaria começando a pensar no próximo. Eu tenho um próximo: o Theo vai fazer um transplante, eu vou para uma travessia com ele. Ele começa a quimioterapia nesta terça, dia 22, o aniversário dele é na segunda, 21. Então é uma nova vida, uma morte com vida, estou morrendo de medo, em pânico. É difícil, mas temos de seguir.