‘Dá para tirar todas as crianças brasileiras das ruas. É só querer’

‘Dá para tirar todas as crianças brasileiras das ruas. É só querer’

Sonia Racy

14 Abril 2014 | 01h00

Foto: Iara Morselli/Estadão

Ao mesmo tempo em que aposta no Brasil hexacampeão, Cafu comemora os dez anos de sua Fundação Cafu. E cobra mais profissionalismo, no futebol e na vida.

Com três Copas do Mundo no currículo (dois títulos e um vice), ele não quer saber de voltar aos campos de futebol como treinador – “é o primeiro a ser mandado embora”. E nem imagina o Brasil derrotado em casa.

O eterno capitão do penta, Cafu, sempre deu duro dentro das quatro linhas. E hoje, aos 43 anos e em plena forma física, divide o tempo entre a família (“sou um avô-coruja”) e sua Fundação Cafu, que cuida de crianças e jovens no Jardim Irene, bairro que ele tornou mundialmente conhecido ao erguer a taça em 2002.


A instituição, que acaba de completar dez anos de atividades, é a menina dos olhos deste que foi um dos maiores laterais-direitos da história do futebol mundial.

Marcos Evangelista de Morais recebeu a coluna em sua casa para falar sobre os desafios da periferia, a necessidade de se investir em educação para salvar as crianças brasileiras, Neymar (claro!), os mestres da bola e o jogo como ele deve ser jogado.

Como está a Fundação Cafu?

São raras as instituições desse tipo que conseguem ir tão longe. Foram dez anos de muito trabalho. Porque é difícil o dia a dia. O importante é não desistir. Queremos dar um pouco de tranquilidade e paz para essa garotada da periferia, que não tem tanta esperança. Principalmente a do Jardim Irene.

Quantas crianças recebem auxílio da Fundação hoje?

Estamos com 750, entre 3 e 17 anos. Nossa missão é inclusão social com curso profissionalizante. A gente também acaba de fechar uma parceria para prover tratamento odontológico a eles.

Você escolheu 2004 para fundar o instituto por algum motivo?

Foi o momento em que o cenário se mostrou mais propício. Claro que ter sido campeão do mundo em 2002 com a seleção ajudou.

E a camisa com a inscrição “100% Jardim Irene” também, ou não?

Aquilo representou muito para todo mundo. Mas minha intenção era fazer uma fundação independentemente da Copa do Mundo.

A camisa acabou fazendo com que muito paulistano descobrisse o Jardim Irene.

Até porque é impossível saber tudo que se passa nesta cidade. Como o Jardim Irene, existem milhares de periferias com muita gente inteligente, com capacidade, e poucas oportunidades para poder expressar essa inteligência e essa capacidade.

O fato de você ser uma celebridade facilitou?

Ser famoso sempre ajuda a abrir portas.

A Fundação anda com as próprias pernas?

Ainda não. Quando falta dinheiro, eu coloco. Temos parceiros fixos, claro, empresas que ajudam muito. E estamos sempre em busca de novas parcerias. Ainda não está fechado, mas devemos ter a Mercedes nos próximos meses. Fora as ações, né? Leilões, jantares etc., para arrecadar fundos.

Por que tão pouca gente no Brasil investe em fundações?

Medo.

Mas medo de quê?

Não sabem se o dinheiro que colocam na instituição está sendo investido corretamente, se vai de fato para as crianças. Vou te contar uma coisa: quando montei a Fundação Cafu, paguei pelo erro dos outros. Porque muita gente criava fundação para lavar dinheiro, desviar recursos… E eu paguei muito caro por isso. Batia na porta dos empresários e ouvia “mas você também está metido nisso, Cafu?”. Eu perguntava: “Mas metido em quê? Não tô entendendo a colocação…”. Aí comecei a compreender a situação e tudo que a gente teria de enfrentar para conseguir colocar o projeto de pé.

Muita gente reclama que não tem tempo para ajudar…

Tempo a gente arranja. Outra coisa que eu ouvi muito nas reuniões com empresários: “Mas, Cafu, você é um homem rico. Vai querer me convencer que está precisando de dinheiro para a Fundação!” Eu respondia: “É verdade, doutor. Graças ao bom Deus, eu não preciso. Se resolver fechar as portas da Fundação hoje, continuarei vivendo a minha vida tranquilamente e não vou mais encher o saco do senhor. Mas tenho 750 crianças que precisam”.

E a burocracia?

Nossa, dá dor de cabeça. Tive muito problema quando fui pleitear o terreno onde seria erguida a Fundação. Terreno da Prefeitura. Estava lá, jogado, ninguém usava, um lixão, com rato, barata, cobra… Mas quando falei que queria fazer a Fundação ali, tive problema. Fiquei bobo de ver aquilo. Eu ia fazer uma benfeitoria, melhorar a imagem do bairro, melhorar a vida daquela comunidade… Foi duro, mas aconteceu.

Dá para salvar todas as crianças do Brasil?

Claro que dá. Educação é o caminho. Tem de pegar firme nisso. Condição de tirar todos da rua a gente tem, não tira porque não quer. Só eu tirei 750… Dá para fazer, sim. Basta querer.

Você jogou três Copas. De que grupo sente mais saudade: 1994, 1998 ou 2002?

Gostei das três, mas pela de 2002 eu tenho um carinho especial. Porque era um grupo muito mais unido, mais fechado. O foco era a taça, não importava quem ia jogar, quem ia fazer gol, sabe?

Em 1998, principalmente depois da derrota na final, falava-se muito que o grupo não era tão unido. Isso foi um problema?

O grupo estava unido. Foi uma Copa tranquila até as vésperas da final. Aquela derrota para a Noruega (2 a 1, no terceiro jogo da primeira fase), por exemplo, que gerou uma falação danada, não fez diferença nenhuma no ambiente, a gente já estava classificado. Acho que falam muito daquele Mundial pelo que aconteceu com o Ronaldo.

O Zagallo também não é muito querido pela imprensa…

O que é um absurdo! Zagallo é um campeão, um vitorioso.

E o que aconteceu na final de 1998 contra a França?

A gente perdeu de 3 a 0…

Essa é a parte que os brasileiros já conhecem.

Falam que a França não tinha time para ganhar, olha que loucura! Blanc, Desailly, Candela, Pires, Djorkaeff, Zidane, os caras jogavam muita bola.

Estou falando do Ronaldo.

Ele teve uma convulsão. Na nossa frente, eu vi. O motivo que o levou a ter a convulsão eu, sinceramente, não sei.

Jogar na Europa era melhor do que no Brasil? O que você traria de lá para cá?

O profissionalismo. Não tem comparação. Eu queria muito ver isso acontecer aqui. E não tem segredo: basta colocar profissionais capacitados. É o único jeito. Porque politicagem existe em todo lugar.

É a favor de iniciativas como o Proforte ou a Timemania?

Sou a favor de qualquer ação que melhore o futebol brasileiro.

Até agora ninguém sabe quem caiu para a Segundona e quem vai jogar o Brasileirão deste ano.

Isso é uma vergonha! Jogo se resolve dentro de campo. Mérito de quem foi campeão, demérito de quem caiu. Acho recurso em tribunal um absurdo. Tapetão é uma palavra feia. E o campeonato é de pontos corridos. Ninguém cai para a Segundona na última rodada…

No teu tempo de boleiro não havia essa história de jogador de futebol pertencer a vários grupos, empresas, agentes. O que acha disso?

Para o jogador é muito ruim. Até porque dificulta a transferência – são muitos interesses envolvidos.

Foi o caso do Neymar?

Para o Neymar acho que deu tudo certo. Só que ele foi muito tarde para a Europa. Tinha de ter há uns três anos. A gente teria um jogador muito mais experiente para disputar essa Copa. Ele ia chegar como “o” jogador europeu, 100% adaptado.

Tem gente que defende que ele deveria ter ido para o Real Madrid. Concorda?

(abre um sorriso) O cara tá no Barcelona, meu! E tem outra coisa: você acha que ele ia trocar um time cheio de craques por outro que só tem um craque?

Só tem um craque no Real?

Só, é o Cristiano Ronaldo. No Barça tem Messi, Iniesta, Xavi… É brincadeira!

E o Brasil na Copa?

Campeão, claro. E acho que a gente pega a Argentina na final. Vai ser uma coisa linda. E vamos ganhar, viu?

Jura?
Argentina jogando contra o Brasil fora da Argentina? Não tem conversa, esquece.

Defina, em poucas palavras, alguns personagens marcantes na sua vida: Parreira.

Mestre.

Felipão.

Guerreiro.

Zagallo.

Pai de todos.

Telê.

Filósofo.

E na Europa? 

Tive grandes treinadores, mas o que mais me marcou foi o (Carlo) Ancelotti. Um baita técnico. Até porque eu cheguei no Milan com 33 anos (em 2003) e fui titular absoluto durante cinco temporadas. Algo muito raro de acontecer. Sempre que eu precisava vir ao Brasil, por algum problema, ele me liberava. Mas por quê? Porque sabia que eu voltava e ia pro jogo. Ele dizia “vai, que eu seguro a bronca”.

O que gosta de fazer quando está em família?

Andar de moto, jogar bola com os meus filhos, sair para jantar com a família, ficar com os meus dois netos. Sou um avô-coruja.

Pensa em sair da aposentadoria para dirigir clube ou virar treinador de futebol?

Quero me especializar em administração de clubes. O que está me faltando é tempo para iniciar o curso. Mas treinar time, não!

Por que não?

Ah, não… chega desse troço. É difícil pra caramba. E o primeiro a ser mandado embora é o treinador (risos).
/DANIEL JAPIASSU