‘Corri um grande perigo na vida ao acreditar que vivia um conto de fadas’

‘Corri um grande perigo na vida ao acreditar que vivia um conto de fadas’

Sonia Racy

18 Maio 2015 | 01h00

Foto: Sergio Zales/Globo

Pronta para viver Larissa, em Verdades Secretas, na Globo, a atriz curte a filha, no Rio, sonha com uma temporada fora do País e diz ter aprendido a ser forte com sua mãe

Grazi Massafera amadureceu. Depois de uma curta temporada de 15 dias em Madrid, onde foi cursar interpretação com o renomado professor Juan Carlos Corazza – estimulada pelo ex-marido e hoje amigo Cauã Reymond– a atriz se diz preparada para viver uma personagem tão diferente dela, a modelo “book rosa” Larissa, em Verdades Secretas, nova novela das 23 da Globo. “A Larissa vai explorar o submundo da moda. É uma moça humilde, que tem que sustentar a família”, explica a atriz.

O curto período na Espanha despertou um antigo desejo de Grazi, que completa 33 anos em junho: o de, aí pela frente, passar uma temporada maior fora do Brasil. “Vivo um momento em que estou sensível a estímulos, quero fazer coisas diferentes.” Momento que nada lembra a época em que pegava roupas emprestadas dos amigos travestis em Jacarezinho, sua cidade natal, no Paraná, para participar dos concursos de beleza – Grazi conquistou o título de Miss Paraná pouco antes de participar do Big Brother Brasil, da Globo, em 2005. “Quando me chamaram, não tinha roupa nenhuma. Uma produtora da emissora me emprestou uma mala cheia. Sou eternamente grata a ela.” Hoje, seu guarda-roupa é de causar inveja. Ano passado, ao lado de Taís Araújo e Isabelli Fontana, foi destaque no tapete vermelho de Cannes, na França, com um modelo azul royal de Pedro Lourenço. Sonhos com Hollywood? Ela diz que já apareceram alguns testes, mas não é coisa que lhe encha os olhos. “Não é um desejo gigantesco”, garante.

Mas a vida corrida e glamourosa muda de status toda noite, quando chega em casa e encontra Sofia, de dois anos, filha dela e de Cauã. “Sou mãezona mesmo, ela é tudo para mim”, resume. A transformação do que era para o que se tornou, lembra a atriz, teve um momento de perigo. “Foi quando comecei a acreditar que minha vida era um conto de fadas. Corri um grande risco”, disse ela na conversa com a coluna, por telefone. A seguir, trechos do bate papo.

Você é bem sucedida na carreira e vai viver uma modelo problemática em Verdades Secretas. Como está encarando viver uma personagem tão distante de seu dia a dia?
É o maior desafio da minha carreira. Me senti à vontade para fazer o teste porque foi um convite do Maurinho (Mauro Mendonça Filho, diretor da Globo) e do Allan (Fiterman, também diretor). Eles me dirigiram no meu primeiro papel como protagonista, em Negócios da China. Sempre me bancaram, acreditaram e cuidaram de mim. Além disso, esse trabalho apareceu depois do meu primeiro curso fora do País, experiência que aproveitei para me reinventar. Estava passando por uma fase em que me questionava muito. Sempre fui muito curiosa.

Acredita que estava precisando de motivação?
Sim, estava procurando algo para me motivar. Foi aí que encontrei, com a ajuda do Cauã, e de uma amiga, o Juan Carlos Corazza, professor de interpretação espanhol, que lá fora trabalha com atores como a Penélope Cruz. Fui fazer um curso de verão e achei bom passar um tempo fora do Brasil com a Sofia. Estou em um momento de estimulação, quero fazer coisas diferentes, então vamos embora encarar a Larissa.

Como é a Larissa?
A novela vai explorar o submundo da moda. Ela trabalha como “book rosa” da agência da Fanny (no papel, Marieta Severo). Já está lá há muito tempo, ficou ultrapassada, não vende tanto assim, sabe, então joga seus problemas nas drogas, na noite e no sexo. E tem uma relação conflituosa com a mãe, que é sua cafetina.

Não teme que essa relação possa causar algum tipo de rejeição do público, como se deu com o casal de lésbicas de Babilônia?
Não tenho medo não. Estamos tentando procurar em Verdades Secretas, como diz o nome da novela, essas realidades escondidas e induzir as pessoas a se questionarem. Acho que o mais legal da profissão é isso, tentar viver o mais próximo possível da realidade e jogar isso para a sociedade. E é claro que existe a rejeição, assim como existem tantas outras coisas, mas quando se está trabalhando, juro, não me preocupo.

A novela vai abordar o mundo da moda. Você chama a atenção por estar sempre bem vestida nos eventos e tapetes vermelhos. Bem diferente de quando você apareceu no Big Brother Brasil, em 2005. Como foi essa transformação?
Sou filha de costureira. Era essa a profissão da minha mãe, todo meu interesse começa aí. Ela costura muito bem e acho que ali fui tomando gosto pela moda – só que não sabia combinar muitas coisas. Na minha época de miss, usava roupas emprestadas dos meus amigos travestis.

Roupas de travestis?
Não tinha condições de comprar tecido para fazer um vestido para os concursos de beleza. Meus amigos faziam os vestidos para participarem do miss gay, da parada gay e depois eu os ajustava aqui e ali e usava nos desfiles.

Graças a eles você seguiu esse caminho da beleza?
Eles me ajudaram muito. Um pagava a minha inscrição, o outro me maquiava, o outro me emprestava roupa, e assim, eles me tornaram miss Paraná. E falavam: “Temos que levar a Grazi para participar”. Acho que se realizavam um pouco em mim, sabe. Mas a gente está falando da moda, né?

Sim da sua mudança de estilo da época do BBB para hoje…
Quando entrei no programa, quem me deu roupas para participar foi uma das figurinistas. Ganhei roupas da Globo.

E hoje, você conta com a ajuda de um stylist?
Não, eu mesma escolho o que quero, principalmente em viagens. Adoro um brechó. Quando fui pela primeira vez a Nova York entrava em multimarcas e achava um monte de coisas. Mas para trabalho sempre conto com a ajuda de um casal amigo, o Juliano e a Zuel.

Todo o seu tempo livre é dedicado à Sofia?
Ela é minha prioridade. Meu trabalho me dá autoestima, me dá felicidade, meu dinheiro, me dá muita coisa, mas a minha prioridade é o meu bebezinho aqui no meu colo.

Como foi deixar ela em casa para voltar ao trabalho?
Me lembro muito bem do sofrimento que não só eu, mas muitas outras mães sentem quando têm que deixar seus filhos para voltar a trabalhar. Não serei a primeira nem a última a passar por isso. O bom é que esse sentimento vai melhorando a cada dia, hoje ela já sabe que a mamãe tem que ir trabalhar. Ela fala: “Mamãe ta indo trabalhar, já volta”. E quando eu volto, sou inteiramente dela.

Você é muito apegada à sua mãe também?
Sim, me espelho muito na minha mãe, no quanto ela me dá orgulho, com ela aprendi o valor do trabalho. Me lembro dela levantando de madrugada, era boia fria, para ir trabalhar. Não tinha outra opção. Se não trabalhasse não tinha dinheiro, comida, nada. Então, lembrar-me da minha mãe me deu força, sabe, pra deixar minha filha. É o que eu quero passar para ela também.

Você e a Sabrina Sato foram ex-BBBs que se mantiveram na mídia. Por que acha que saiu tão bem sucedida do programa?
Olha, não sei. É uma soma de coisas. Preparo, obstinação, garra, sonhos. Quando tudo isso se encaixa, não dá pra explicar, eu mesma não sei que fórmula é essa. Nunca pensei que estaria onde estou.

Não pensava antes em se tornar atriz?
Nunca, só me arrisquei e fui, porque não? Fui sem saber se ia dar certo, poderia ter morrido na minha primeira novela, Páginas da Vida. E de repente, do nada, estava casando com o Thiago Lacerda, o protagonista. Parecia um sonho. As pessoas na época ligavam minha história a um conto de fadas, chegou um momento que até eu comecei a acreditar que fosse. Pensei, caramba, estou vivendo uma vida de Cinderela, morando no Rio de Janeiro, trabalhando na Globo, que doideira. Chegou um momento que eu até acreditei nisso. Aí foi um grande perigo na minha vida.

Por quê?
Porque quando você acredita nessa imagem que constroem a seu respeito, é perigoso, né? Eu tenho os meus conflitos, minhas TPMs.

Você não é perfeita como a mídia parece vender, não?
Sim. Porque, de repente, você começa a ler sobre si mesma,.. “Nossa, eu sou incrível!…” Você acredita. É o maior perigo que existe. Acho que esse foi meu maior obstáculo.

Ter acreditado nesse conto de fadas chegou a afetar a sua visão sobre sua vida?
O meu pé quase saiu do chão, mas minha família ficou do meu lado e me ajudou a não me deslumbrar. Ter começado a fazer análise também me ajudou muito.

Você está fazendo até hoje?
Faço.

No BBB você ficou muito próxima do Jean Wyllys. Continua acompanhando a carreira dele?

A gente se fala às vezes, não nos vemos muito devido à agenda dele. Ele trabalha muito, está sempre viajando, mas sempre que tem alguma coisa importante, ou uma estreia minha ou algo dele, envio uma mensagem carinhosa. Temos uma relação distante, mas de carinho.

Se ele se candidatasse ao governo do Rio, votaria nele?
Não quero falar de política.

Pretende casar-se de novo e ter mais filhos?
Claro, pelo menos mais dois. Mas com tanto paparazzi em volta, tá difícil até de arrumar namorado.../ SOFIA PATSCH