Cinema do País tem de ‘aprender a se projetar lá fora’, diz produtor

Cinema do País tem de ‘aprender a se projetar lá fora’, diz produtor

Sonia Racy

12 Dezembro 2016 | 00h30

DENISE DE ANDRADE/ESTADÃO

DENISE DE ANDRADE/ESTADÃO

Com um pé no Brasil e outro em Hollywood, Rodrigo Teixeira, integrante da
Academia e eleitor
do Oscar, diz que
o País vive ‘um bom momento’
no setor
mas precisa aprender a se valorizar
 

Aos 40 anos, Rodrigo Teixeira está satisfeito com o que construiu até agora. O produtor – que comanda há 15 anos a RT Features – ficou conhecido por seus projetos ousados e criativos que misturam literatura, futebol e produções audiovisuais.

Hoje, ele mantém parceria com Martin Scorsese – pela qual lançará novos diretores – e fechou acordos de coprodução, entre outros, com James Gray. “Produção internacional é um investimento contínuo. Trabalho com os Estados Unidos desde 2008. Passei a ter êxito na realização a partir do filme Francis Ha, que teve carreira melhor lá do que aqui”, afirmou à repórter Marilia Neustein em sua produtora, em Higienópolis.


Agora como integrante da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, nos EUA, o cineasta mantém na sua mesa alguns DVDs com os potencias vencedores do ano que vem. E fala sobre a escolha brasileira para a disputa: “Se Aquarius fosse indicado, acho que o Brasil teria chance”. A seguir, os melhores trechos da entrevista.

Você começou no mercado financeiro. Como foi a migração para o entretenimento?
No mercado financeiro a experiência foi curta. Sempre gostei de literatura, cinema e futebol. Olhei para isso e pensei: onde eu me encaixo? A primeira coisa que idealizei foi um projeto ambicioso, chamado Camisa 13 – eram 13 livros dos times de futebol retratados por meio de torcedores ilustres. Demorou dois anos para acontecer e ali aprendi a produzir. A série foi um êxito e me colocou no mercado. Me lançou como um produtor jovem. Foi assim que comecei.

Antes de trabalhar com cinema você se firmou por meio de projetos criativos, nos quais misturou diferentes linguagens, como a série de livros Amores Expressos.
Sim. E esse foi um conceito muito parecido com projeto do Camisa 13. Acabei repetindo isso cinco vezes na minha carreira e em todas elas fui muito bem-sucedido. Como, por exemplo, o Amor em Quatro Atos, uma minissérie e um livro com 10 músicas do Chico Buarque transformados em contos por autores brasileiros e estrangeiros, mais um filme chamado Abismo Prateado, dirigido pelo Karim Aïnouz.

Você já afirmou que envelheceu muito trabalhando nesses projetos. É isso mesmo?
É. Uma das minhas características é que eu não desisto. Trabalhar com cultura em um país como o Brasil traz muitos desafios. As coisas mudam muito rapidamente e temos que saber lidar com as adversidades. O Brasil não é um país que facilite as coisas para o empreendedor, como são os Estados Unidos. Aqui você tem que encontrar caminhos para sobreviver. Então, você envelhece, amadurece, erra pra caramba. A natureza do empreendedor é vencer barreiras e desafiar limites. As imposições são trinta vezes mais difíceis… É uma luta.

Como brasileiro, você teve êxito em produções internacionais. Como se organiza para investir nessa área?
Produções internacionais de cinema são um investimento contínuo. Trabalho com os EUA desde 2008. Passei a ter êxito de realização a partir do longa Francis Ha, que teve uma carreira melhor lá do que aqui. Somos reconhecidos pelos filmes que produzimos lá, comercial e artisticamente. Este ano, por exemplo, teve o The Witch. Estamos mantendo uma frequência.

De que modo começou sua parceria com Martin Scorsese?
Conheci o Scorcese por acaso, porque ele assistiu Francis Ha, filme que produzi, e comentou com algumas pessoas que tinha gostado muito. A partir daquele momento, começamos uma aproximação entre agentes e conhecidos até que uma sócia dele me propôs fazer um negócio: montar uma pequena empresa, na qual eu apresentaria o projeto de novos diretores e conjuntamente produziríamos para esses novos diretores.

Isso tem muita relação com seus antigos projetos, que lançaram escritores, diretores…
Sim. Com o meu trabalho em geral. Remonta toda minha história profissional. Já filmamos dois longas cujos nomes não podemos ainda dizer, e vamos fazer mais três. Para mim é um privilégio poder trabalhar com um dos maiores nomes da história do cinema.

Como produtor, acha que as pessoas estão indo menos ao cinema agora que dispõem do vídeo em demanda?

Vou me usar como exemplo. Com a facilidade que eu tenho na minha casa para assistir conteúdo, diminui minha frequência ao cinema. Mas, por exemplo, fui assistir a um filme recentemente no cinema e a sessão estava lotada, mesmo não sendo um filme simples. Numericamente, está provado que o cinema está em crescimento no Brasil. O que pode espantar é o preço, porque é alto. Nem todo mundo pode gastar R$60,00 quatro vezes por mês para ir ao cinema.

Falando em democratização da cultura, o que achou da escolha do novo secretário de Cultura de SP, André Sturm?
Ótimo. O André foi o nome perfeito. Eu morava atrás do MIS, que era abandonado, e ele transformou o museu. O trabalho dele foi muito bom, impecável.

A pré-indicação do filme brasileiro ao Oscar foi conturbada. Agora, que você é membro da Academia, o que achou?

Vou dar minha opinião pessoal. Gosto do Aquarius, acho um grande filme e, pensando de forma estratégica, entendo que deveria ser o representante do Brasil. Não por uma questão política, mas por observar até onde o filme chegou. Foi exibido no mundo inteiro, tem um valor artístico reconhecido globalmente, foi premiado em diversos festivais. Ou seja, tem uma carreira que muito poucos filmes brasileiros conseguiram ter. Se ele fosse indicado, acho que o Brasil teria uma chance, ele já é um filme vencedor. É a mesma coisa de escalar a seleção brasileira que vai jogar a Copa do Mundo e não colocar o melhor jogador daquele momento pra jogar. O Aquarius é o melhor jogador disponível e não colocamos ele em campo para representar o Brasil.

Como vê o momento atual do cinema brasileiro?
Estamos em um bom momento. O trabalho do Manoel Rangel na Ancine é espetacular. Espero que quem venha a substituí-lo mantenha o que ele fez. Mas algumas áreas do setor precisam de um amadurecimento, de alternativas, formação de plateia, profissionais. Como estávamos falando, temos que nos valorizar. Se não valorizarmos, no próprio País, esse tipo de atividade, por que o estrangeiro vai nos valorizar? Acho que o cinema brasileiro tem um manancial de oportunidades.

E o que pode nos dizer das leis de incentivo que estão sendo muito criticadas?

Sem lei de incentivo você não faz cinema no Brasil. Ponto. Se acabarem as leis, amanhã, o cinema nacional acaba, é regressão total. Você vai tomar empréstimo no banco? Você quebra. Não tem como. Incentivo tem pra todo mundo, não só no mercado cultural. A minha grande crítica ao modelo atual é que faz com que você dependa exclusivamente da lei de incentivo – mas isso é uma longa discussão.

Trabalhar com ficção quando a realidade está tão surpreendente é mais difícil?
Antigamente as informações nos chegavam diluídas. Não era como hoje, quando temos muito mais acesso à realidade por diferentes meios de comunicação. E esse acesso atual propicia possibilidades de criação de histórias inimagináveis.