Cineasta conta ‘mergulho’ para entender e criar filme sobre agentes penitenciários

Cineasta conta ‘mergulho’ para entender e criar filme sobre agentes penitenciários

Sonia Racy

19 Junho 2017 | 00h45

De partida para NY, onde fará o longa
‘Abe’, Fernando Grostein Andrade conta como
nasceu a série ‘Carcereiros’, da Globo Play,
da qual ele fez cinco episódios

Para falar sobre a série Carcereiros – que estreou este mês para os assinantes da Globo Play –, o cineasta Fernando Grostein Andrade, de 36 anos, que assina cinco dos 11 episódios, precisou voltar no tempo. Mais precisamente, a 2013, quando conheceu Pedro Bial, que gostava muito da história. Os dois, mais Cláudia Calabi, gravaram o documentário Diários da Tranca, que deu origem à trama da Globo.

De malas prontas para Nova York, o diretor recebeu a repórter Sofia Patsch em sua casa, nos Jardins, em clima de despedida. Na cidade americana ele vai fica​r​ até novembro rodando o longa Abe, a história de um menino apaixonado por cozinha mas que vive num ambiente de conflito religioso entre a mãe de origem judia e o pai palestino. Quem vai sentir falta do moço são seus três cachorros – Dog, Cachorro e Cadela – e seu namorado, o ator Fernando Siqueira.


Andrade foi o diretor de Quebrando o Tabu, documentário que filmou ao lado de FHC em 2012, cujo o tema central é a descriminalização das drogas – e de tanto lidar com ​essa difícil realidade acabou se interessando pelo tema: “Fizemos um mergulho na realidade das drogas”. ​Assim, e​stão no seu horizonte, ​inevitavelmente, as estratégias adotadas pelo governo paulista e pela Prefeitura na Cracolândia.

Andrade vê na iniciativa as melhores intenções, mas a compara ao espírito da Law & Order americana – que, segundo ele, procura erradicar as drogas pela via da oferta. A seu ver, “um jeito mais eficiente é reduzir a demanda”. E a frase que melhor define a situação, segundo o cineasta, é: “Se a gente não consegue erradicar as drogas dentro de uma penitenciária de segurança máxima, como queremos erradicá-las em uma sociedade livre?”. A seguir, os melhores momentos da conversa.

Como a série Carcereiros entrou na sua vida?
Há uns quatro anos o Pedro Bial procurou o Drauzio Varella para lhe dizer que tinha se apaixonado pelo livro Carcereiros – que deu origem à série – e que ele queria adaptar para a TV. Naquele momento era só uma ideia e o Dr. Drauzio me recomendou para o trabalho, por conta do documentário Quebrando o Tabu, que gravei, ao lado de FHC, em diversos presídios. E também pelo longa Na Quebrada, onde reativei um grupo de teatro formado por detentos e criado por agentes penitenciários . Usei os detentos do grupo como atores no Na Quebrada. Eu não conhecia o Bial na época – e tivemos uma identificação muito grande, principalmente porque perdemos nossos pais muito cedo. Até brincamos que, ao lado de Caio Gullane, formamos o clube dos sem pai – pois ele teve esse mesmo problema. Bom, sou muito fã do filme Cidade de Deus e do trabalho da Kátia Lund, e propus que fizéssemos um documentário mergulhando em toda aquela realidade. Assim surgiu o Diários da Tranca.

Então antes da série vocês já tinham feito o documentário inspirado no livro do dr. Drauzio?
Isso. Tenho uma produtora, a Spray Filmes, e na época procurei uma produtora, a Gullane. Acho seu dono, o Caio Gullane, um dos maiores desse ramo no País, e dono de um coração imenso. Eu, ele e o Bial rodamos o Diários da Tranca com a Cláudia, que acabou virando diretora de arte da série.

Foram esses Diários que animaram a Globo a apostar na série?
Fornecemos o documentário e todo material bruto aos autores da série, e eles fizeram um trabalho brilhante. Na verdade, esse livro conta a história de agentes penitenciários do Carandiru. Naquela época ainda não existia a facção dominante que existe agora, e as regras na cadeia eram outras. Hoje a realidade é totalmente diferente, praticamente todos os presídios de São Paulo são dominados por essa facção.

Saiu também há tempos a notícia de que você comprou os direitos do livro Richthofen: O Assassinato dos Pais de Suzane, de Roger Franchini, para um longa. Em que pé está esse projeto?
A história é interessante. Me atrai a questão psicológica que ela tem como pano de fundo. Mas no momento ainda estou estudando o tema com meus produtores. Envolve muitos desafios, desde a realização até o financiamento. O tema é delicado, temos que ter cuidado na hora de abordar. A gente já escreveu o roteiro, só não sabemos como e onde produzir.

Como alguém que vem trabalhando com o tema das drogas, como vê as iniciativas da Prefeitura e do Estado na Cracolândia?
Tenho certeza de que o prefeito João Dória tem a melhor das intenções, mas cabe lembrar que ele mesmo disse, na campanha eleitoral, de maneira muito honesta, que não conhece a realidade da periferia. O tom de sua agenda tem muito o espírito da Law & Order americana, que a meu ver é uma política equivocada de guerra às drogas, que busca erradicá-las pela via da oferta. Acho que seria mais eficiente atuar para reduzir a demanda.

Como se reduz a demanda?
Com certeza não é dizendo “galera, por favor, vamos nos drogar menos”. Não é isso. É atuar em educação e saúde para capacitar as pessoas a exercer sua liberdade. O que é importante ser dito? É que se nós, brancos de classe média, temos um problema com drogas, teremos acesso a um tratamento de qualidade – mas isso não ocorre se for com alguém de baixa renda, em especial afrodescendentes. Então, antes de recorrer à polícia é importante fornecer tratamento de qualidade. A coisa mais inteligente que ouvi sobre crack – quando estava entrevistando especialistas para o Quebrando o Tabu – foi de um médico australiano que explicou: quanto mais você aperta a repressão, mais os traficantes vão buscar uma droga mais potente e mais barata para manter sua lucratividade. Lei de mercado. Então o que acontece é que o crack é o subproduto não só da cocaína, mas um subproduto da guerra às drogas.

O que você sugere que o prefeito faça?
Que comece ligando para o presidente FHC, que rodou o Quebrando o Tabu comigo e fez um grande estudo sobre o assunto. Talvez assim ele consiga implementar sua agenda, que com certeza tem boas intenções.

Você já afirmou que sempre vai lutar pela descriminalização das drogas e pelos direitos de todos. Já passou pela sua cabeça entrar para a política?
Não. Vejo o audiovisual como uma ferramenta importante para promover a transformação nas pessoas.

O que acha das especulações de que seu irmão, Luciano Huck, seria candidato à Presidência em 2018?
Perdi meu pai aos 10 anos, foi um tombo muito grande. E uma das pessoas que mais me ajudaram foi Luciano, que é uma pessoa maravilhosa. Justamente por amá-lo muito é que o quero sempre próximo da família. Não gostaria de vê-lo na política.

Você já falou mil vezes que se sentiu em paz ao se assumir homossexual. Pretende produzir um documentário voltado à causa LGBT?
Pretendo fazer um filme de ficção sobre o universo LGBT, mas ainda estou estudando como e quando.

Pode contar o que está indo fazer em NY até novembro?
Vou rodar um longa de ficção em que trabalho há 11 anos. Chama-se Abe e conta a história de um menino de 12 anos fascinado por cozinha. A mãe é uma judia de origem israelense, o pai é ateu palestino e os avós se odeiam. Então ele resolve cozinhar uma comida tão boa, mas tão boa, que é capaz de unir a família.