“ÀS VEZES, ACADÊMICOS SUBESTIMAM A ESTÉTICA”

“ÀS VEZES, ACADÊMICOS SUBESTIMAM A ESTÉTICA”

Sonia Racy

22 Outubro 2012 | 09h39

ARQUIVO PESSOAL

Filho de professores, Oskar Metsavaht, da Osklen, afirma que a Alpargatas comprou criatividade

Oskar Metsavaht, criador da Osklen, surpreendeu o mercado ao vender sua empresa a médio prazo para a Alpargatas, no início de outubro. De imediato, todos se perguntaram: por quê? Estaria o empresário cansado do metier? Ou precisando de aporte de capital para crescer internamente ou se internacionalizar?

Nada disso. “Normalmente, uma venda deste tipo se dá por três razões: ou o dono viu que a marca está ladeira abaixo; ou não tem mais paciência para administrar; ou, ainda, quer embolsar a liquidez do seu negócio”, ressalta o estilista. “Minha negociação foi diferente. Eu sempre quis um grupo que tivesse na sua expertise coisas que eu não tenho e vice-versa. Estou me associando a quem vai pegar a potencialidade da Osklen e unir forças”, diz.

Pretende deixar a empresa? Não. Seu contrato estabelece que ele fique pelo menos até 2016. “Depois, vamos ‘reconversar’ a respeito. Olhando lá na frente, vou ter 40% de uma marca em que eu acredito e muito.”
A seguir, os principais trechos da entrevista dada à coluna semana passada.

Você acaba de fechar uma parceria. Deve evoluir para uma compra?

Sim e devo ficar com 40%. Eles compraram 30% agora e vão comprar mais 30% daqui a um ano, quando será batido o martelo sobre o valor da empresa. Nós acordamos que eles vão pagar sobre 13 vezes o Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) de 2013. Deram R$ 67 milhões agora. Um adiantamento e não primeira parcela como se falou”.

Por que você acabou escolhendo a Alpargatas?

Acho que pela visão da empresa. Conversei com todo mundo, mas minha ideia não é simplesmente unir marcas. A Osklen está muito bem e pode continuar crescendo sozinha, no seu ritmo. São 22 lojas, com faturamento de R$ 250 milhões em quatro culturas diferentes. Internacionalizei a Osklen, hoje reconhecida mundo afora. Temos um público exigente, mas Japão e Itália querem mais em relação à qualidade e à originalidade na estética.

Por ser Alpargatas, famosa pelas Havaianas, há alguma ideia de popularizar sua marca?

Primeiro, não é uma empresa da Alpargatas, é uma companhia nova. A Alpargatas tem 30% agora, vai ter 60% e eu, 40%. Ela não está dentro da Alpargatas, é uma outra empresa. A sede fica no Rio de Janeiro, são outros executivos.

E essa empresa tem nome?

Não tem nome ainda, porque fechamos o acordo agora. É claro que compartilhamos visão e muitas coisas estratégicas. Foi apresentado meu business plan na negociação, mas eles já têm o segmento da linha esportiva e a linha de sandálias fashion, que é a Havaianas. Então, querem entrar no segmento de luxo. Olha a expertise deles: não estão comprando um ativo, estão comprando criatividade. Querem um novo projeto, a ideia é um grupo brasileiro global de marcas, não necessariamente só marcas brasileiras.

Qual sua forma de aprender? É olhando, ouvindo?

É olhando, eu sou imagético. Ler, para mim, é muito mais para eu poder viajar. Aprendo ouvindo. Sabe o que eu digo para os amigos? Me conta ou me manda uma resenha do livro, que vou adorar. Mas, entenda bem, não subestimo a leitura. Só tenho outras formas de aprender.

De onde vêm suas referências?

Sou filho de acadêmicos. Minha mãe era professora de Filosofia e de História da Arte. Meu pai, de Medicina. Nunca estudei arte, nunca estudei design de moda, mas acho que minha referência estética cultural veio da mistura do que vivi. Ela fazia slides para as aulas e eu fotografava. Meu pai me ensinou a fotografar e filmar, então eu fotografava livros de arte da minha mãe e preparava os slides dela. Fazia filmes Super-8 e editava em moviola. Acabei cursando Medicina.

Que área escolheu?

Passei por várias. Ia fazer cirurgia plástica, ligada à estética. Acabei largando cirurgia e fiz medicina física e reabilitação – me especializei em reabilitação e traumatologia do esporte. Foi o curso que resolvi fazer em Paris. Porque eu praticava esporte. As pessoas acham que sou uma pessoa ligada ao esporte. Sou ligado mesmo é à natureza, onde pratico esportes.
Você uniu estética e funcionalidade. E se tornou um criador de roupas. Tem tudo a ver…

Gosto do gesto humano na natureza, no espaço. Por isso, gosto da arquitetura, da intervenção do homem na natureza. Sabe o que a medicina me deu? Medicina é um conhecimento que você adquire, você pode exercê-la ou não como profissão. As pessoas acham que medicina está longe da moda. É ignorância, porque moda é uma interface do corpo humano com o ambiente, roupa é uma interface física, ela protege do frio e do calor, do sol, do vento, protege de armas. A roupa sempre foi uma interface do corpo humano com o meio físico.

É a segunda pele?

Sim, a outra interface da moda é entre o homem e a sociedade, é o que nós somos visualmente. Nosso estilo de vestir é nossa forma de comunicar, visualmente, nossa personalidade para a sociedade, é comportamento humano. O que a gente estuda na Medicina? Estuda o corpo humano. Quem mais entende do corpo humano do que um médico? Muito mais do que qualquer designer de moda, designer de móveis, arquiteto etc. E quem entende de biomecânica? O médico. Ele aprende a observar o comportamento humano, a gente aprende psicologia, psiquiatria, aprende a observar sinais e comportamentos do ser humano. A moda é a expressão da personalidade de uma pessoa em relação à sociedade e vice-versa.

Fazendo paralelo com a psicologia, a moda seria o alter ego?

É bem isso.

Quanto da sua moda é ligado à sua imagem?

As pessoas dizem que a Osklen é Oskar e Oskar é Osklen, mas eu digo que não. A Osklen é um projeto meu, no qual eu proponho um estilo. Mas ela tem seu estilo, é a bandeira do estilo de um grupo de pessoas, a nossa tribo. A Osklen é o resultado de um tripé: estética, conforto e sustentabilidade.

E qual o mais importante?

A estética vem em primeiro lugar. Em segundo lugar vem o conforto. E, em terceiro lugar, está a sustentabilidade.

Você acha que a estética é mais importante que o conforto?

É. Eu poderia dizer conforto e todos iam adorar, porque é óbvio.

Esse é seu lado arquiteto?

Acho que seria arquiteto. Fiz a faculdade errada, com certeza. Se esses três pilares representassem 100%, eu diria, então, que 36% são estética; 34%, conforto; e 30%, sustentabilidade.

Muita gente diz “fulano tem mau gosto”. O que define mau gosto e bom gosto? O outro não tem só gosto diferente?

Totalmente. Gosto das pessoas que têm um estilo, mesmo que seja diferente do meu ou que não seja da minha estética. Sei lá, eu posso até achar cafona determinada pessoa, mas se ela tem aquele estilo com confiança, um estilo próprio, genuíno, eu admiro muito mais. As pessoas que não têm estilo não se conhecem.

O que acha de quem simplesmente não tem gosto e se adapta ao gosto ou à moda alheia?

Acho uma pena, porque é uma coisa a mais que as pessoas estão deixando de curtir na vida. Por exemplo: sou de família de intelectuais e vivi a vida acadêmica. Eles subestimam a estética. Acho uma coisa pobre, porque eles confundem admirar a estética e dar valor à beleza. Subestimam a estética, porque confundem isso com a questão de marca, de luxo, de ser esnobe. É uma ignorância, porque esquecem o seguinte: tem pessoas que são mais imagéticas, tem pessoas que são mais da questão da escrita e da leitura. Cientistas são pessoas que usam sua criatividade de forma inventiva; outras usam a criatividade na questão da filosofia, o pensar sobre; outras usam na arte. A estética pertence a isso. A matemática é um equilíbrio estético. A cho esse revanchismo intelectualoide hippie depressivo.

O que é o novo luxo?

São os valores de sociedade, como compartilhar com os outros, preservar o meio ambiente para as próximas gerações, a questão social. Sou muito ruim de me expressar falando, tanto que faço imagem, faço moda, crio design, iconografia nas minhas t-shirts. Enquanto luxo é ter uma Ferrari, é jantar em Paris, uma bolsa de tal marca. O novo luxo é eu estar conversando contigo, sentado aqui em casa, olhando as Ilhas Cagarras e o sol no final de tarde. O luxo está nas pequenas coisas.

Você faz palestras sobre isso?

Sou considerado um dos pioneiros do novo luxo. O primeiro slide é a palavra ethos. Costumo falar que da palavra ethos saem outras duas – ética e estética. Estética é igual a design; design, quando bem feito, é igual a sofisticação; sofisticação é igual a luxo. Então, ética é igual a luxo. Tem gente que chega quase a enfartar. Eu faço para cutucar mesmo, estou quebrando o paradigma do luxo. Minha última palestra foi em Paris, falei durante duas horas e meia em francês. Nem sei como consegui, pois meu vocabulário em francês deve ser de 100 palavras, no máximo. É aquela coisa de ignorante inteligente. Realmente, sem soberba nenhuma, posso dizer, com certeza, que quem cunhou esse conceito de novo luxo fui eu. Tanto que, em abril, fui presidente de honra da Sustainable Luxury Fair, em Paris.

Explica isso melhor.

Vamos voltar 100 anos no tempo e nos lembrar de monsieur Louis Vuitton. Ele não era conhecido por ter uma grife, ele não tinha nada. E por que foi reconhecido? Porque era uma pessoa que se dedicava a fazer uma coisa bem feita para os outros. Quando você se dedica a fazer uma coisa bem feita para os outros, este é um ato nobre. As pessoas nem sabem mais o que significa a palavra nobreza, elas se esquecem. Os primeiros consumidores não compravam coisas de Louis Vuitton porque era famoso, mas porque queriam ter um status, compravam porque percebiam que tinha qualidade. Aqueles que conseguem enxergar algum produto ou um trabalho artístico, seja o que for, sem ter referência nenhuma e reconhecem valor naquilo são pessoas nobres, cultas, inteligentes, que estão abertas a ver alguma coisa nova sem nenhum preconceito e aplaudem, compram ou fomentam. Você concorda?