Sonia Racy

12 Março 2016 | 01h35

FOTO WILTON JUNIOR/REPRODUCAO

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Pela segunda vez, em um 13 de março, José Serra vai amanhã a um evento político marcante da vida brasileira. O primeiro foi há exatos 52 anos e ele, então presidente da UNE, discursou no célebre Comício das Reformas de João Goulart, no Rio de Janeiro. Corria 1964, o Brasil era um país dividido e o comício, num enorme palanque montado diante da Central do Brasil, desencadeou a radicalização política. Não era de impeachment que se falava, mas de golpe. Dezoito dias depois, Jango era deposto pelos militares. O País mergulhava em uma ditadura que haveria de durar 21 anos.

Maria Thereza Goulart (na foto acima, com o presidente), que naquela noite quente de sexta-feira estava no palanque ao lado do marido e de Serra, não vê motivo para repetir hoje o programa. “Acho lamentável que nesta mesma data, cinco décadas depois, tenhamos de ver de novo a direita avançando”, resume a ex-primeira-dama, hoje com 75 anos, definindo seu lado. “Aquela noite está até hoje em minha memória”, diz ela. Festejada na época, pela beleza e elegância, Maria Thereza diz guardar daqueles dias lembranças amargas.

“Hoje acho tudo aquilo muito triste. O discurso de Jango e a convicção com que defendia as reformas ficaram gravados em mim para sempre”. Ao que seu filho João Vicente, ex-deputado do PDT – na época, um menino de sete anos – acrescenta: “Veja só, o Serra trocou de lado. Na UNE, atuava com a esquerda e os sindicatos…” A seu modo, o senador tucano estabelece as diferenças. “O 13 de março de 1964 é o simétrico do recíproco do 13 de março de 2016.”

O de 1964, diz Serra, “foi promovido pelo Jango e pela Confederação Geral dos Trabalhadores. No fundo, era um comício contra um golpe que se avizinhava e de fortalecimento do próprio Jango. E o atual é uma mobilização de protesto contra o governo”. E conclui recorrendo a uma fórmula estritamente matemática: “Nesse sentido é que a gente pode dizer que um é simétrico do outro. Ou seja, um é “x” e o outro é menos um sobre “x”.

Entre os que estavam no palanque de Jango e podem, 52 anos depois, comparar os dois episódios, havia ainda figuras como Almino Afonso, Clodesmidt Riani e Raphael Martinelli – todos da esquerda sindical e que, como Maria Thereza, não vão a manifestação nenhuma hoje. Martinelli, um fiel quadro do então poderoso Partidão, acaba de ser presenteado com uma biografia – Estações Ferroviárias, lançada no final do ano passado. Riani, articulador sindical, recebeu recente homenagem na Comissão Nacional da Verdade.

Almino Afonso, que havia sido ministro do Trabalho de Jango, estava lá mas não chegou a participar do palanque. “Nem fiquei no comício, pois a multidão era enorme e eu decidi voltar pro hotel, ali no centro do Rio. Vi pela televisão. O impressionante é que, passado todo esse tempo, alguns dos programas de Jango, como a reforma agrária, estão por fazer.”

Ele vê, entre os dois momentos, uma semelhança. “A de hoje tem algo em comum com a de 1964. As duas acontecem em momentos dramáticos da vida brasileira”. / GABRIEL MANZANO