‘Ajudar pessoas é o que me faz feliz. A moda é consequência’

‘Ajudar pessoas é o que me faz feliz. A moda é consequência’

Sonia Racy

01 Março 2018 | 00h52

NATALIE KLEIN. FOTO LUCIANA PREZIA

Natalie Klein morou por três anos em NY com os dois filhos e o marido, Tufi Duek (ela está de malas prontas para retornar a SP em junho). Nesse período, nada sabático, ela se matriculou em um curso em Harvard – voltado para fundadores de empresas – que a ajudou a enxergar sua multimarcas NK Store, de forma diferente. “Esse tempo em que fiquei fora foi um respiro pessoal, uma reflexão que possibilitou toda essa mudança, que veio através do meu olhar de longe, sem participar do dia a dia tóxico dos negócios.”

A mudança de que fala a empresária é tanto de valores quanto física, com a reforma da loja nos Jardins. “O projeto foi inspirado na brasilidade e assinado pelo Estúdio Tupi.” A escolha do novo layout foi feita por seus funcionários através de uma votação e a cereja do bolo do projeto é uma escada inspirada nas obras de Oscar Niemeyer. “Essa reforma não é só física, ela é um reflexo dos valores da empresa, que são: olhar, sentir e cuidar”. Confira entrevista a seguir.

A marca está passando por uma transformação. Explique essa nova fase dos negócios.
Nesses 20 anos de história a NK sempre teve valores muito sólidos, mas era uma coisa interna. Com o tempo em que estive fora, enxergando as coisas de longe, entendi que precisava comunicar esses princípios às pessoas de fora também.

E quais são esses valores?
Ética, empatia, compromisso. Trabalho com a ideia do olhar, do sentir e cuidar. Acredito que as empresas são o tecido social da sociedade. A NK se entende como corresponsável por vários problemas que temos à nossa volta. Dentro de casa nós tentamos, da nossa maneira, ajudar. Por exemplo, doamos todos os restos de tecido para ONGS que auxiliam crianças com deficiência. Esses projetos sempre aconteceram internamente, desde o inicio, mas muita gente só nos enxerga como uma marca que vende roupas e ponto. Uma forma de comunicar isso é com o novo projeto da loja, que é 100% acessível para deficientes físicos e visuais, É uma gentileza com as pessoas, com a cidade.

Por que decidiu abrir esse lado que quase ninguém conhece?
Minha motivação nunca foi financeira. Graças a Deus venho de uma família privilegiada. O que me motiva a continuar meu trabalho é envolver e dar oportunidade para pessoas. Tenho uma personalidade reservada, esse assunto era quase proibido, mas desde que fundei a NK o umbigo da empresa era o social. Há quatro anos, eu e meu irmão fundamos um instituto em homenagem ao nosso avô, Samuel Klein, com foco voltado ao terceiro setor, aportando projetos já existentes. Ajudar pessoas sempre foi a grande direção da minha vida, trabalhar com moda é uma consequência disso. Todo meu trabalho tem um propósito de transformar de forma positiva a vida dos outros. Como empregadora acabo cuidando não só dos meus funcionários, mas de toda a família deles.

Como lida com a diversidade na hora de escalar seu time?
O que importa pra mim é a competência das pessoas. Já fiz inúmeras entrevistas por telefone sem saber como o entrevistado era fisicamente. Não olho para a questão com o olhar do “politicamente correto”. Tenho vendedoras negras, brancas, trans e orientais. É algo natural pra mim e sempre vai ser. Quero quem é bom, trabalhador, honesto, que tatue os valores da empresa na alma.

Como enxerga o mercado brasileiro? Aposta em uma melhora?
O Brasil é movido a desafios, tenho a empresa há 20 anos e não acho que tivemos grandes períodos de estabilidade. Quem trabalha no País sabe que é uma economia turbulenta, que sofre muito com o dia a dia das decisões tomadas pelo governo, mas isso faz parte, é a realidade Brasil. O ‘slow fashion’ ou maior consciência de consumo é um movimento saudável e muito favorável à NK, porque sempre acreditamos nisso. Nossa roupa não é fast fashion, não é descartável, não é roupa que não tem história. Sabemos de onde vem e como é feita e para o mercado de luxo essa história de cadeia produtiva valoriza muito o produto, apesar de eu não gostar da palavra luxo.

Por que não gosta da palavra luxo?
Porque ela remete a ostentação, excesso. E os meus produtos são o contrário disso.

Continua apostando nos importados nessa nova fase?
Os importados fazem parte da nossa história, eles continuam, sim. Temos 26 marcas em nosso portfólio. A grande mudança é que Talie, que era a nossa marca de atacado, deixou de existir, ela virou a própria NK.

Pretende lançar um aplicativo também, né?
Sim, faz parte desse movimento de olhar pro futuro. Não dá mais para falar em varejo sem tocar ou sem olhar pra tecnologia. 80% das vendas que acontecem hoje no varejo físico já foram pesquisadas anteriormente na internet. E tem muita gente que vem à loja, prova, escolhe, vai em outras lojas, depois finaliza a compra online. Espaço físico e online se complementam.

Você fez um curso em Harvard nesses 3 anos durante os quais morou fora.
O curso chama Owner and President Management (OPM), dura três anos e é voltado para fundadores de empresas ou presidentes. Tem o mesmo cronograma e conteúdo do MBA de Harvard, só que é feito para pessoas que não têm como tirar 2 anos inteiros pra ficar no campus. Durante um mês do ano frequento as aulas e o resto vou aplicando nos negócios, tipo uma lição de casa.

O que aprendeu que foi aplicado no novo momento da marca?
Milhares de coisas. Mas por maior que a marca seja, ainda quero ter a sensação de que ela é uma empresa pequena, familiar e próxima das pessoas. O grande papel do gestor ou líder é reforçar todos os dias a cultura da empresa. Para fazer meta de planejamento de vendas, métricas, análises, tenho muita gente melhor do que eu. Acredito que a cultura da empresa tem que estar impressa em todas as ações. Fale-se muito do ‘golden circle’ – o que e como nós fazemos todo mundo sabe. A grande pergunta é por que a gente faz. Uma pergunta que tem que existir todos os dias na cabeça dos funcionários./SOFIA PATSCH