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Sonia Racy

22 Fevereiro 2016 | 00h45

FOTO IARA MORSELLI/ESTADÃO

FOTO IARA MORSELLI/ESTADÃO

Produzindo para a TV aberta, com Os Dez Mandamentos, da Record, Patrick Siaretta diz que terceirizar produção para estúdio independente é um modelo em ascensão
À frente de duas megaproduções para a TV Record, A Escrava Mãe e Os Dez Mandamentos, Patrick Siaretta está entusiasmado com o novo rumo que a televisão vem tomando no Brasil. Segundo o fundador da Teleimage, do grupo Casablanca – e um dos produtores mais bem sucedidos do País – o modelo de negócio audiovisual está mudando e a tendência é que as redes de TV comecem a terceirizar seus conteúdos para produtoras independentes.
“É possível fazer um conteúdo de qualidade e com custo acessível para o canal”, afirmou em entrevista a Sonia Racy e Marilia Neustein, sem ignorar as dificuldades do mercado. “Administramos esses orçamentos como se fossem o budget de uma casa, entendeu? Não temos outras fontes de renda, então a gente tem que dar lucro”.
Além das novelas, séries e reality shows, Siaretta tem outro projeto que faz seus olhos brilharem: o longa-metragem sobre o médium João de Deus. Está trabalhando com Homero Olivetto na elaboração do roteiro do que chama de “filme de produtor e não de autor”. Como funciona isso? “O produtor é quem decide quem vai ser o diretor, como vai ser o roteiro, porque ele está assumindo todos os riscos, concorda?”. Ele participa da maioria dos filmes brasileiros que entram em circuito comercial – seja como coprodutor ou na finalização. Abaixo, os melhores trechos da entrevista.
‘ELIMINAR INTERMEDIÁRIOS, 
ESSA É A GRANDE MUDANÇA’

A crise é geral no País, mas vocês estão com muitos projetos. A que atribui isso?
Ao novo modelo de negócios do mundo inteiro, que é eliminar intermediários. Essa é a grande mudança. Especialização do mercado.

 Por que o Brasil demorou tanto para entrar nisso?
Porque no Brasil dos anos 50, 60, quando começou a televisão, não existia a infraestrutura necessária para terceirizar a produção. E não havia esse mercado de produtores independentes grande o suficiente pra abastecer um canal com todo o conteúdo de que precisava.
E o que é que fez a Record mudar de ideia? Ela produziu a primeira série de Os Dez Mandamentos e agora terceirizou para vocês a segunda. 
Porque ela percebeu que existia uma possibilidade de produzir com a Casablanca com muita qualidade, cuidado e custo acessível para o canal. Antes disso as TVs não trabalhavam com orçamento. Mas as coisas estão se profissionalizando. O orçamento para Os Dez Mandamentos era aberto. Agora temos um budget pra trabalhar e temos que fazer a novela com ele. Coisa que não existia antes.
Isso é bom para vocês? 
Sim. E vamos abrir os estúdios para o mercado inteiro. Ao invés de ser uma coisa fechada para a Record, vai ser aberta para todo o mercado independente. É como se a Globo abrisse o Projac para todo mundo produzir. A Universal Studios, nos EUA,  faz isso. Aquele complexo enorme, com um monte de estúdios grandes iguais aos que a gente tem no Rio – e eles alugam para todos, até para os concorrentes.
A Globo terceiriza algo? 
Muito pouco, mas é uma tendência. Isso vai acontecer na TV Globo também.
Quais os desafios na hora de montar uma novela como A Escrava Mãe ou Os Dez Mandamentos? 
É a administração. Temos que administrar o tempo todo. Muitas produtoras não têm o dono no dia a dia. Nós administramos esses orçamentos como se fosse o budget de uma casa, entendeu? Não temos outras fontes de renda, então a gente tem que dar lucro.
E em termos de política, você considera o Brasil um “produtor independente friendly”? 
O Brasil pode ser considerado friendly quando, no caso das TVs pagas, obriga-as a ter um mínimo de horas produzidas por grupos independentes. E como a quantidade de horas exigidas por semana é muito grande, e o número de canais é também muito grande, isso realmente faz com que as independentes cresçam.
O que acha da ação judicial movida pelas empresas de telecomunicações contra o pagamento do Condecine? 
As produtoras independentes que dependem desse dinheiro para produzir longa-metragens vão sofrer. Nós não usamos esse dinheiro. Porque é demorado e é um dinheiro caro. Ele é tão difícil, tem que devolver tanto, tem uma porcentagem grande que fica retida… Para TV isso não faz muito sentido.
Como vocês se financiam?
Tudo que é pra TV a gente financia direto com os canais de TV. Então é tudo pago. Usamos o capital próprio mas não para produzir. Quer dizer, usamos toda a nossa infraestrutura, que custa dinheiro. Mas investimos em roteiro, no desenvolvimento e, a partir daí, fazemos a venda.
A crise afetou vocês?
Sim. O dinheiro está mais curto para muitos canais de televisão e para os anunciantes. Então acaba sobrando menos dinheiro para produção. Isso é fato. O lado positivo é que tem mais mão de obra disponível, porque muita gente perdeu o emprego em outros lugares Outra coisa positiva é que canais como a Record viram como se trabalha no mundo e resolveram terceirizar a produção. Inclusive nos EUA a produção do próprio canal é proibida por lei.
Por quê? 
Tudo que é feito nos EUA é para evitar o monopólio. A partir do momento em que todos começam a terceirizar, os atores podem trabalhar em todo lugar, os criadores não são só os mesmos, você abre um leque de oportunidades para os profissionais no mercado.
Você tem uma participação expressiva em quase todos os filmes nacionais.
Sim. No passado entrávamos muito em coprodução com a nossa infraestrutura. E, cada vez mais, passei a entrar no roteiro. Hoje a empresa é muito mais focada em produção própria. Por exemplo, o filme do João de Deus. É um longa que eu vou produzir, estou trabalhando o roteiro com Homero Olivetto e a Paris Filmes vai distribuir. Será um filme de produtor. Diferente de filme de autor. Eu acredito em filmes liderados pelo produtor. É ele quem decide quem vai ser o diretor, como vai ser o roteiro, porque está tomando todos os riscos, concorda? O risco é todo meu.
É o formato americano, não? 
Sim. É nisso que estamos investindo. Além do João de Deus, vou fazer uma comédia com a Marisa Orth, também nesse modelo. Só vamos contratar o diretor na hora em que tivermos o roteiro pronto. Ele será contratado para dirigir aquele filme. O budget quem decide é a produção e não a direção. É uma forma de fazer mais eficiente e controlada.
A produção brasileira vai bem? Quantos filmes foram produzidos no País no ano passado? 
Foi muito. Uns 160 filmes. Desses, distribuídos efetivamente em sala de cinema, uns 80. Destes, provavelmente trabalhei com 30. Porque eu só trabalho nos que vão ser distribuídos, os que não vão ser distribuídos nem perco meu tempo. Não interessa, não tem ganho.
Como vê o crescimento do streaming e do Netflix? 
O Netflix obriga esses canais a se mexerem. Muita gente troca a TV a cabo por um Netflix e tem ali todas as séries e filmes. Então obriga as TVs a cabo a investir em conteúdo bom. E do outro lado, a Netflix também está contratando produtoras independentes para produzir.
E como é o custo de produção no Brasil? 
O grande problema que temos aqui é que o sindicato obriga a contratar todo mundo. Por exemplo, eu vou fazer uma série, na qual vou gravar tudo em um mês, 30 dias. Eu sou obrigado a registrar CLT, pagar imposto sindical dessas pessoas que vão trabalhar por… 15 dias. Não é racional. Os profissionais reclamam que o cachê é baixo, mas tenho que pagar o dobro no resto. Mas, mesmo assim, queremos trabalhar para transformar o Brasil em um “hub”, um centro de produção para o resto do mundo.
Como fariam isso? 
Por exemplo, eu vou fazer o Bake Off Brasil, eu quero trazer todos os Bake Offs da região para serem feitos aqui. Aí eu já faço na sequência vários deles para outros países. Só trazem as pessoas, eu já tenho a estrutura. A partir do momento em que estou fazendo para vários países e já tenho no meu estúdio, com a minha luz, a minha câmera… Em suma, o volume pra mim interessa.
O que acha do Oscar? 
O cinema americano também passou por uma crise bem grave, onde só se faziam filmes de super-heróis e continuações. Agora ele se recuperou. Entrou em nova fase de criatividade. Isso foi puxado pela televisão, que ficou tão boa com essas séries todas que obrigou o cinema a se reinventar – ou ia morrer. Os roteiristas também conseguiram quebrar o monopólio que havia. O Oscar continua tendo o grande prestígio que sempre teve. Todo mundo, inclusive a Netflix, tem filmes do Oscar. É ainda o grande chamariz.
Em que fase nós estamos da história do cinema brasileiro?
Estamos numa fase muito ruim no cinema nacional, por uma questão simples. Tínhamos uma grande diversidade e passamos a fazer um bando de comédias pastelão. Se não faz pastelão, as pessoas não vão ver. Fazer cinema no Brasil é difícil porque tem dois intermediários que ganham muito.
Quem são? 
O distribuidor e o cinema. Porque 50% da bilheteria é sua, 50% vai para a distribuidora. Nos Estados Unidos, quando você lança um filme, na primeira semana 90% da bilheteria é do produtor, 10% é do cinema. Na segunda semana é 80, 20, na terceira 30, 70, entendeu? O incentivo ali dos cinemas é o quê? Deixar o mais tempo possível, porque a partir de um determinado momento toda a bilheteria passa a ser do cinema, mais nada é do produtor. É assim que funciona. No Brasil, 50/50 não dá, porque o cinema ganha muito dinheiro, a distribuidora recupera o que investiu e se sobrar alguma coisa vai pra produção.
Como você compara os cinemas de Brasil e Argentina? 
Na Argentina existe escola. Eles formam mais de 10 mil profissionais por ano, coisa que não ocorre aqui. Lá existe cultura em casa. Começa por aí o nosso problema.
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