Petismo esqueceu as bases e ficou parecido com PMDB, dizem analistas

Petismo esqueceu as bases e ficou parecido com PMDB, dizem analistas

Sonia Racy

04 Outubro 2016 | 00h27

JOSÉ PONTES LUCIO/ESTADAO

JOSÉ PONTES LUCIO/ESTADÃO

Para entender o encolhimento do PT de 644 prefeitos para 256 no País — o que o jogou do terceiro para o décimo lugar no total de prefeituras no domingo –, a coluna procurou dois cientistas políticos historicamente ligados à causa – e, mesmo ante as denúncias de escândalos e com líderes na cadeia, eles não economizaram. “Foram anos seguidos de erros, escândalos, de burocracia, de afastamento das bases”, resumiu Aldo Fornazieri, da Escola de Sociologia e Política (à esquerda). 

“O partido falhou nas políticas e no contato com as bases. No governo Dilma, adotou uma linha que confrontava sua base social. Ficou pragmático e parecido com o PMDB”, acrescenta Ruda Ricci, consultor e diretor do Instituto Cultiva, em Belo Horizonte (abaixo).

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Como encarar a crise? “Ela é forte em São Paulo mas, na verdade, é nacional. E as lideranças do partido não podem fugir à responsabilidade por esse encolhimento. Sempre reagiram às críticas com respostas protocolares. Deixaram, ao longo dos anos, que se desmobilizasse a militância. Não cuidaram de corrigir esse erro quando ele era menor”, completa Aldo. O professor paulista recorre a Maquiavel para lembrar algo que, segundo ele, o PT não podia ter deixado ocorrer: “O Príncipe não pode se deixar ser odiado.”

Tanto Fornazieri quanto Ricci cobram o partido por ter cometido, na era Dilma, equívocos seguidos de governo e por ter adotado o programa econômico do adversário, assim afastando-se das bases. Depois, esses líderes “abriram campo para as campanhas midiáticas” sem reagir à altura. Ricci ressalta que Dilma “falhou ao lidar com as manifestações de rua e ao adotar a respeito restrições desproporcionais ao fenômeno”. O lulismo, em sua avaliação, contribuiu com a crise, em sua fase inicial, ao convocar para o governo lideranças de “grupos nas franjas da institucionalidade – como indígenas, ribeirinhos e carentes”. Dessa forma, ele esvaziou seus quadros e os enfraqueceu”. Depois, errou ao adotar “uma agenda que não é de esquerda”.

Por que as lideranças não reagiram adequadamente a todo esse processo? “A meu ver, porque o partido tem uma direção nacional que é a pior da sua história”, afirma Ricci. “O PT tornou-se um partido de cartel, que depende de recursos do Estado – sejam líderes no governo ou parlamentares no Legislativo”.

E como ele pode recuperar-se, voltar a ser o que era? Para Fornazieri, a saída do petismo é “retomar uma velha prática da esquerda, a autocrítica”. Precisa “falar com a sociedade, adotar uma linguagem digital, dialogar com os movimentos ecológicos, de gênero e outros”.

Concluindo, o professor adverte que “não faz mais sentido a ideia de um partido oligárquico. Tem de manter a unidade, mas cultivar a pluralidade.” / GABRIEL MANZANO