‘A MODA BRASILEIRA NÃO ACONTECEU LÁ FORA’

‘A MODA BRASILEIRA NÃO ACONTECEU LÁ FORA’

Sonia Racy

27 Março 2011 | 23h00

Alexandre Herchcovitch fala de negócios, moda, casamento gay e Dilma.

Alexandre Herchcovitch precisa de bengalas para andar em público. Tímido como ele só, assume que sempre carrega uma bolsa, uma pasta, uma assessora ou uma modelo quando simplesmente precisa ir daqui para ali. Na passarela, é sua marca. Ao contrário de outros estilistas, que surgem diante dos fotógrafos para os aplausos finais assim que os modelos somem, ele costuma usar truque de invisibilidade. Desfila no epílogo misturando-se a seu elenco e, principalmente, segurando a mão da musa, modelo e cantora Geanine Marques.

Por outro lado, à beira de completar 40 anos em julho, perdeu a retenção e expôs à coluna intimidades preciosas: o dia em que se casou com o empresário Fábio Souza, a parceria ainda em desalinho com o grupo empresarial InBrands, o desacerto com a presidente Dilma e segredos de família. E, apesar de ter lojas fora do País, garante que o sucesso da moda brasileira no exterior é tão espalhafatoso quanto os balagandãs de Carmen Miranda. O estilista, que acabou de trocar o endereço de sua matriz em São Paulo, falou à coluna. Aqui, trechos da conversa.


Fazer 40 anos muda alguma coisa para você?

Não tem muita diferença. Mas número redondo me faz refletir sobre há quanto tempo já trabalho, da data que vendi a primeira peça. Tinha 16 anos, ainda estava no colegial. Lembro de quando comecei a fazer roupas na casa da minha mãe, e tudo saía 100% das minhas mãos. Hoje felicidade para mim é ter tempo para fazer coisas que fazia há 20 anos: modelar, sentar na máquina e costurar. Tenho em casa quarto com mesa de corte, tábua de passar, ferro profissional e máquina de costura. Mas raramente o frequento.

Seu nome está ligado a muitos produtos, de jeans à papelaria. Você, de fato, cria tudo?

Impossível fazer sozinho. Dou total crédito à minha equipe. São 500 produtos por semestre. Até por isso senti necessidade dessa loja, bem maior, de 400m2, onde podemos expor todos os produtos.

Como se sente sabendo que seu nome foi vendido para a InBrands?

Normal. Por muitos anos fui administrador e criador. Entretanto, incompetente na administração. Hoje estou mais livre, com tempo para criar, e confio a parte da administração aos meus sócios. O artista tem de entender do business, e o executivo da arte.

Você é um dos poucos casos de aquisição de marca que deu certo. Por quê?

Na verdade ainda não acho que deu certo. Somos sócios há três anos, fizemos várias tentativas de se acertar e o que percebo é que eles têm uma visão e eu, outra. Agora estamos tentando unificar as visões.

A moda brasileira faz sucesso no exterior ou se resume às Havaianas e Gisele?

A moda brasileira não aconteceu lá fora, mas ainda não desisti. Há marcas que tentam, como eu, desde 1996. Mas lá fora a relação comercial vem antes e não há marcas brasileiras com campanhas maciças. Não adianta querer ser estilista internacional e viver no Brasil. Tem de morar em Paris, Nova York ou Milão. Se eu for num evento aqui, todo mundo vem falar comigo. Lá fora, sou reapresentado dez vezes às mesmas pessoas. E não relacionam minha cara à roupa que, aliás, chega muito cara no exterior.

É o contrário do que dizem alguns estrangeiros. Eles afirmam que comprar roupa no Brasil é um absurdo. Por quê?

Roupa no Brasil é um item caro. Temos muitos impostos e sobretaxas. Quem paga por isso muitas vezes é o cliente.

Você vende para a classe C?

Temos isqueiros e band-aids. Chegamos em todas as camadas. A linha de roupa mais popular é o jeanswear, mas é fato que a marca tem público limitado. Não adianta ter plano de expansão para 50 lojas no Brasil.

O que falta você criar? Um carro, um avião, um navio?

Carro até fiz. Um protótipo para a Fiat. Adoraria entrar no ramo imobiliário, sugerir formas de moradia que não são comuns no Brasil. Também queria fazer marcenaria e trabalhar na TV.

Gosta tanto de TV assim?

É uma cultura que vem da casa de minha mãe. Assisto novela, quando interessante, e na TV paga os programas Intervention e Hoarders. E algo da Fashion TV.

O que faz quando não trabalha ou vê TV? Qual é sua vida social?

Não tenho, por opção. Tenho uns poucos amigos e a minha família. Para ir a um evento, vou quase arrastado. Gosto de comer e cozinhar. Faço de tudo um pouco. Eu adorava fazer carne ensopada, mas virei vegetariano há um ano e parei.

O que de fato aconteceu entre você e Dilma? Por que a parceira foi curta?

A Dilma foi muito exigente e eu tive poucos recursos para exercer meu trabalho. Para o que me foi pedido, teria de passar mais tempo com ela que os três encontros permitidos: um de oito minutos, outro de 12 minutos e o terceiro com cinco minutos. Foi impossível. Um grande desafio que aceitei e não consegui cumprir por falta de estrutura e de tempo entre nós. Gostaria de ter acertado de primeira, mas não deu. Foi feito um guarda-roupa completo, de 30 peças, em quatro dias. Um mês de tentativas até que se decidiu, poucos dias antes da eleição, que o trabalho teria de ser descontinuado. Posso falar? A minha primeira pesquisa foi com o que ela já tinha no guarda-roupa. Além disso, também teria de produzir coisas novas. Mas não sobrou nenhuma mágoa.

Qual dessas mulheres públicas é elegante?

Elegância não tem nada a ver com roupa. Não se pode dizer que uma pessoa mal vestida é deselegante. A Carla Bruni e a Michelle Obama nunca vi errarem. Olha-se para as duas e elas não erram a ponto de ficar chato. De quem mais vou falar? Só tem elas, né?

Como um estilista judeu como você encarou o episódio John Galliano?

Detesto julgar. Até decidir mandar alguém embora da empresa eu demoro. Não suporto injustiças. Será que ele não falou da boca para fora? Será que não queria dar um basta numa conversa? Eu não sei. Hoje uma pessoa pública não pode falar o que quiser. É preciso se controlar. Eu mesmo levo bronca da minha assessora porque falo o que quero no Twitter. Não dá para separar a vida pessoal da profissional.

É religioso?

Nunca fui. Só pratiquei forçadamente quando estudei num colégio ortodoxo, o Iavne, semi-internato. Tinha aulas em hebraico num turno, e de português num outro, fora estudos da Bíblia e rezas na sinagoga. Nunca mais pratiquei nada. E tem uma coisa que acontece nas famílias judias: quem as une são as avós. Lembro que enquanto as minhas estavam vivas nós nos reuníamos em todas as festas. Depois que morreram, praticamente não vejo ninguém da minha família. E muitos amigos meus dizem a mesma coisa. Eu realmente perdi algumas tradições.

Você casou com outro homem. Como foi a reação em casa?

Olha, na verdade as pessoas não abordam muito esse tema comigo. Ninguém da minha família, fora meu pai, minha mãe, meu irmão. Na verdade, como filho eu falhei na comunicação com meus pais. Por receio da reação deles, casei sem avisar. E depois recebi bronca da minha mãe judia, que chegou num backstage de desfile meu e disse: “A única coisa que eu queria é que você tivesse me avisado”.

Como foi esse casamento?

Fui no cartório da Sé, com testemunha, e acabou. Não teve festa, nada. É um procedimento super simples. Na verdade, o cartório realiza união civil de pessoas do mesmo sexo. Eles fazem em média duas por dia. Pouco tempo antes até pensei em reunir todo mundo, dizer que iria casar com Fábio (Souza, empresário, dono de brechó em São Paulo, com quem está há quatro anos), mas eu simplesmente não consegui. É uma falha minha. Eu tô melhorando, mas como eu não sabia qual seria a reação… (os olhos enchem-se de lágrimas, mas ele as contém). Pensei que depois daria um jeito de falar. Essa conversa com ela foi três dias depois de eu ter casado. Fiquei super triste.

Por que casou? Muda alguma coisa depois?

Eu falei para o Fábio que, por mim, não casaria. Já me sentia casado, mas ele é super ativista. Então eu disse sim na hora. Achei válido mostrar para todo mundo que não há diferença entre casais. Nem depois de uma separação, nem após a morte de um dos dois. E não deve haver nenhuma diferença de tratamento da sociedade, da família ou do Estado. Há regras no papel que terão de ser cumpridas se um dos dois morrer ou quiser se separar.

Pensa em adotar filhos?

Essa questão vem e volta. Sabe qual é o meu sonho? Que alguém largue uma criança na minha porta.

/JOÃO LUIZ VIEIRA