‘A idade traz uma visão mais generosa da vida’, diz Wanderléa

‘A idade traz uma visão mais generosa da vida’, diz Wanderléa

Sonia Racy

16 Outubro 2017 | 00h40

 

WANDERLEA. FOTO IARA MORSELLI / ESTADÃO

Aos 71 anos, às vésperas de lançar sua autobiografia,
a cantora relembra momentos difíceis,
diz que a vida ensina tolerância e avisa que não pensa
em parar: pensa, sim, em ‘escolher melhor’ o que fazer

De maquiagem e cabelos feitos, Wanderléa hesita em tirar os óculos de grau. No camarim, prestes a subir ao palco do musical 60! Década de Arromba, a cantora pondera com a fotógrafa sobre como posar para os cliques. “Acho que com os óculos a maquiagem vai parecer menos pesada do que realmente é”, pondera com um sorriso.
Com 71 anos recém-completados, ela vai lançar em novembro uma autobiografia. A ideia do projeto vem de muito antes. É quase duas décadas anterior à proposta da editora Record para a publicação da obra. “Determinados capítulos eu não consigo reler. Eu comecei a escrever aquilo como terapia mesmo, para me libertar daquela situação. Era para rever as coisas, mas foi de uma maneira muito intensa. E aí ficou forte, né?”

A perda de sua irmã por uma bala perdida, o acidente que seu deixou seu primeiro marido tetraplégico, o afogamento do filho Leonardo na piscina de sua casa e a morte do irmão, vítima da Aids, são alguns dos episódios aos quais Wanderléa se refere. Enquanto beberica chá quente, ela conta à repórter Marcela Paes que a publicação (“enfim!”) do livro é só uma das novidades de sua vida. Além da atuação inédita em um musical – experiência que ela define como frenética –, a cantora se prepara para ser avó pela primeira vez. “Ela vai nascer próximo da saída do livro. Vou viver dois partos, um é mais importante, que é a chegada da minha netinha, e o outro é a minha liberação desses momentos difíceis. Cada situação me trouxe um aprendizado de vida, aproveitei tudo. Mas agora estou querendo, e preciso, aprender a ser um pouco mais leve.”

Como surgiu a ideia de escrever a autobiografia?
Eu gosto de escrever, de contar coisas, casos, e faço isso há muitos anos. De uns 20 anos pra cá comecei a juntar esses momentos difíceis, essas passagens que eu gostaria de rever através da escrita. E a Record gostou do projeto do livro.

É uma forma de lidar melhor com as aflições?
Sim, porque eu tinha uma vida tão intensa, que eu não tinha tempo de destilar os momentos, as coisas… E eu vivia situações muito diversas. Sempre estive no palco, na glória – e em casa vivendo, muitas vezes, coisas muito difíceis. Eu escrevia como terapia mesmo. E aí ficou muito forte, né? Tanto que até hoje determinados capítulos eu não consigo reler.

Quais capítulos?
Os mais fortes. A minha vivência com o filho do Chacrinha, o Zé Renato. Foram 7 anos com ele na cadeira de rodas. Eu estava junto no acidente. A morte do meu filho, afogado na minha casa, na nossa casa, na minha e do Lallo. E, mesmo com isso tudo, eu nunca parei a minha vida profissional… A passagem do meu irmão, 10 anos com Aids também foi… Eu acompanhei aquela situação, na época em que a Aids matava mesmo, que era uma coisa terrível. A passagem de uma irmã minha que eu perdi por causa de uma bala perdida…

‘EU TIVE DEPRESSÃO MAS NAQUELA
ÉPOCA NÃO SE DIAGNOSTICAVA
O PROBLEMA COMO HOJE’

Você não parou de trabalhar nesses momentos?
Não parei. O trabalho é que me botava em pé de novo, porque senão eu mergulhava numa depressão profunda. Eu tive depressão mas naquela época não se diagnosticava esse problema como hoje, né? Não existia isso. Colocar pra fora é como um parto. E, por coincidência, vou ser vó agora…

Pela primeira vez?
Ela vai nascer próximo da saída do livro. Vou viver dois partos, um é mais importante, que é a chegada da minha netinha, e o outro é a minha liberação desses momentos difíceis. E a chegada da netinha é esse momento de transição, assim, de viver o lado mais leve da vida. Essa é a Vovó Ternurinha. Em alguns momentos da minha vida eu questionei muito a ‘Ternurinha’, mas eu falei assim: “Olha, só vou ser Ternurinha quando eu for vó. Vou ser vovó Ternurinha”.

Essa é a sua primeira atuação em um musical. O que achou?
É uma coisa que você faz quinta, sexta, sábado e domingo. É frenético. Aí fica não sei quanto tempo até tirar a maquiagem toda pra dormir e tal, você imagina, é uma coisa cansativa. Mas achei maravilhoso. Acho isso uma coisa muito feliz porque é um musical totalmente nacional e nós estamos acostumados com os grandes musicais importados, enlatados! E nós estamos aí concorrendo no mesmo nível do enlatado. O espetáculo que tem muita qualidade.

Você sempre foi considerada uma mulher bonita. Isso já a atrapalhou de alguma forma?
Eu nunca me senti bonita. Nunca, nunca na minha vida eu me senti bonita. Eu acho que assim, eu tinha uma coisa de querer me cuidar, de me arrumar, de criar, de modificar usando maquiagem. Desde o início da minha carreira eu fazia maquiagens pra afinar o nariz. Eu era muito insegura.

Como está envelhecer?
É lógico que eu preferia ter 20 anos, mas a idade te traz muito, uma tolerância maior, uma visão mais generosa da vida. Mas de uma certa forma o tempo também é cruel porque você fica com muita vitalidade, mas não sabe se vai conseguir fazer, se vai dar continuidade ao que se propõe.

Já pensou em se aposentar?
Acho a aposentadoria uma coisa benéfica pra você ter uma vida um pouco mais tranquila, mas não para ficar em casa parada. Você tem que estar sempre curtindo alguma coisa e sempre envolvido. Pra mim, agora seria não um momento de parar, mas de escolher ainda melhor as coisas que eu vou fazer.

Você costuma ouvir cantoras atuais? Identifica-se com alguém artisticamente?
Sim, eu gosto de muita coisa. Acho que nós temos muitos talentos, mas não tem ninguém em especial que eu possa citar. Cantoras boas, pessoas com vozes maravilhosas e talento vocal existem muitas, mas com originalidade e uma sonoridade diferente é mais difícil de encontrar, não é?

Mesmo após tanto tempo de carreira você é ainda muito associada à Jovem Guarda. Como convive com disso?
Acho bacana, acho legal. Eu devo ter feito uma coisa que marcou, mas também fiz muitas outras coisas depois, gravei muitos discos. Fui a cantora brasileira que fez mais coisas diferentes. Fiz um disco com Egberto Gismonti, gravei com o Jorge Mautner…

Você se considera feminista?
Sou feminista no sentido de ter cada vez mais espaço pra mulher. Na minha época eu conquistei muito para a mulher brasileira e a caminhada continua. Acho que as mulheres estão muito mais à frente que os homens.

O que você acha que trouxe, nesse sentido, para as mulheres da sua época?
Para conquistar cada coisa dentro de casa era uma dificuldade. Meu pai era muito austero. A minha liberdade cresceu quando eu comecei a me impor. Pra dirigir era uma dificuldade, que mulher não podia dirigir. Pra cantar era uma coisa difícil, pra usar as roupas que eu usava então… Quer dizer, tudo o que eu conseguia conquistar dentro de casa eu levava para o palco e trazia uma geração junto comigo. Assim, naturalmente.

Você é casada mas não está morando com seu marido. Como é isso?
Ah, nós moramos separados já há muitos anos, desde que as meninas começaram a crescer. Ele é um companheirão até hoje, maravilhoso. Chegou um determinado momento, muita mulher em casa falando, gritando… Aí resolvemos fazer isso. Nós trabalhamos juntos o tempo inteiro e isso dá um espaço, dá um respiro. Acho que cada um precisa da sua individualidade.

O país vive um momento de forte onda conservadora e, até, de intolerância. O que acha disso?
Eu acho o que todo mundo acha. É um absurdo, né? Um país como o nosso, parece que a gente está retrocedendo! É uma coisa muito triste isso. É uma tristeza.

Recentemente, uma exposição de arte foi fechada e outra sofreu fortes críticas. Você acompanhou esses casos?
Para ser sincera não acompanhei, estou sempre trabalhando e sem tempo. Mas um país que censura sua própria arte é um país que está um passo atrás. Na minha fase a gente brigava em casa contra essa coisa retrógrada, familiar, segundo a qual tudo era errado, tudo era pecado.

Você nunca apoiou um candidato na política . Faria isso em algum momento?
Na época da Jovem Guarda fui a favor das Diretas Já. Nessa fase eles pediam muito, queriam uma atuação tua político-partidária. A gente era tão jovem, sabíamos tão pouco e achávamos que existiam pessoas mais gabaritadas para falar. Hoje, não me vejo apoiando ninguém por outros motivos. O que nos falta são pessoas verdadeiras… O que nós estamos passando é uma tristeza muito grande. Um país como o nosso deveria ser um exemplo. Esse lugar com terras e pessoas maravilhosas. / MARCELA PAES

 

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